Inteligência artificial e futuro do trabalho: como preparar nossos filhos para profissões que ainda não existem?
PARENTALIDADE PRETA · CRIAR EM UM MUNDO PROGRAMADO · EP. 04
O PRESENTE
JÁ ESTÁ
MUDANDO.
E o futuro começa aqui. Como preparar nossos filhos para profissões que talvez nem existam quando eles crescerem?
Inteligência artificial, automação, futuro do trabalho e transmissão de conhecimento entre gerações. Uma conversa sobre as oportunidades de aprender que podem desaparecer, as habilidades que permanecem importantes e os caminhos que precisamos construir para que nossas crianças participem das transformações tecnológicas.
Com Tata Ribeiro e Wesley Ferreira. Apresentação: Diego Silva.
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A CONVERSA · EPISÓDIO 04
QUEM VAI
ENSINAR A TRABALHAR?
Se a inteligência artificial começar a executar as tarefas de quem está entrando no mercado, onde as próximas gerações vão adquirir experiência?
Existe uma contradição antiga no mercado de trabalho: exigir experiência de quem ainda não teve a oportunidade de trabalhar. A inteligência artificial pode tornar essa contradição ainda mais complexa.
Hoje, sistemas automatizados conseguem organizar informações, produzir documentos, analisar dados, escrever códigos e executar atividades que, durante décadas, fizeram parte da rotina de profissionais iniciantes.
Essas possibilidades representam ganhos reais de produtividade. Mas também nos obrigam a investigar o que acontece com a formação profissional quando algumas das primeiras experiências de trabalho deixam de existir.
No quarto episódio de Criar em um Mundo Programado, Diego Silva conversa com Tata Ribeiro e Wesley Ferreira sobre inteligência artificial, automação, profissões do futuro e transmissão de conhecimento entre gerações.
A PERGUNTA DESTE EPISÓDIO
Se a máquina pode fazer o trabalho de quem está começando, como essa pessoa terá a oportunidade de aprender?
QUANDO A AUTOMAÇÃO ENCONTRA A APRENDIZAGEM
Wesley utiliza o exemplo de uma planilha preenchida por um estagiário. Embora seja uma tarefa repetitiva e facilmente automatizável, ela também pode permitir que o profissional compreenda processos, reconheça procedimentos, identifique problemas e desenvolva familiaridade com o ambiente de trabalho.
A planilha, nesse caso, não é apenas uma planilha. Ela pode representar uma porta de entrada para conhecimentos que serão utilizados em atividades mais complexas.
Quando essa tarefa passa a ser executada por uma inteligência artificial, a empresa pode ganhar tempo. Entretanto, permanece uma responsabilidade: garantir que os profissionais iniciantes encontrem outras maneiras de construir experiência.
Wesley chama atenção para o risco de ampliação da distância entre profissionais iniciantes e experientes. Se as atividades básicas forem automatizadas, como formar as pessoas que, no futuro, precisarão tomar decisões mais complexas?
O problema não está necessariamente na automação. Está na possibilidade de substituir uma atividade sem reconstruir as oportunidades de aprendizagem que existiam ao redor dela.
O FUTURO DO TRABALHO EM NÚMEROS
39%
das habilidades utilizadas pelos trabalhadores devem se transformar ou se tornar desatualizadas até 2030.
A estimativa aparece no relatório Future of Jobs 2025, do Fórum Econômico Mundial, elaborado a partir de perspectivas de empregadores sobre as transformações do mercado de trabalho.
O estudo também projeta a criação de 170 milhões de postos de trabalho e o deslocamento de 92 milhões até 2030. São projeções globais associadas a diferentes transformações econômicas, demográficas e tecnológicas, não efeitos atribuídos exclusivamente à inteligência artificial.
FONTE: Fórum Econômico Mundial — Future of Jobs Report 2025.
EXECUTAR NÃO É NECESSARIAMENTE COMPREENDER
Diego apresenta outra dimensão da questão: mesmo que uma ferramenta consiga realizar determinada atividade, compreender seus fundamentos continua sendo importante para avaliar resultados, identificar erros e tomar decisões.
Isso não significa defender que profissionais continuem repetindo tarefas que poderiam ser automatizadas. Significa reconhecer a diferença entre obter uma resposta e compreender o caminho necessário para chegar até ela.
Wesley acrescenta um contraponto: executar repetidamente uma tarefa também não garante aprendizagem. Uma pessoa pode passar anos realizando uma atividade sem desenvolver uma compreensão mais ampla sobre o processo.
A conversa, portanto, não estabelece uma oposição simples entre trabalho humano e inteligência artificial. Ela questiona como transformar os ganhos tecnológicos em oportunidades reais de formação.
Se determinadas tarefas deixam de ser necessárias, outras experiências precisam permitir que os profissionais desenvolvam conhecimento, autonomia e capacidade de resolver problemas.
Automatizar uma tarefa pode ser um avanço. Eliminar as oportunidades de aprender que existiam ao redor dela não precisa ser uma consequência inevitável.
QUEM PARTICIPA
Diego Silva — pai e educador parental
Tata Ribeiro — desenvolvedora de jogos e game designer —
@tecnotata
Wesley Ferreira — analista sênior de governança e processos de TI —
@wesleybferreira
Esta série é uma produção independente do Parentalidade Preta. Ela existe porque pessoas decidiram sustentar este quintal e permitir que investigações como esta continuem acontecendo.
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LEVANTAMENTO · EPISÓDIO 04
O FUTURO
DO TRABALHO
JÁ COMEÇOU.
O quarto episódio investiga uma transformação que não começa quando nossos filhos chegam ao mercado de trabalho. Ela já acontece nas empresas, nas escolas e nas decisões sobre quais atividades serão realizadas por pessoas ou sistemas automatizados. Este levantamento reúne pesquisas, conceitos e perguntas para compreender o que está mudando — e o que precisamos preservar, reconstruir ou ampliar.
01 · INTELIGÊNCIA ARTIFICIAL E EMPREGO
TRANSFORMAR
NÃO É O MESMO
QUE SUBSTITUIR.
A inteligência artificial generativa pode realizar atividades presentes em diferentes profissões: produzir textos, organizar documentos, analisar informações, auxiliar na programação e executar partes de processos administrativos.
Isso não significa que todas as ocupações expostas à tecnologia desaparecerão. Uma profissão reúne tarefas, responsabilidades, relações humanas e decisões que podem ser transformadas de maneiras diferentes.
1 EM 4
empregos no mundo apresenta algum grau de exposição à inteligência artificial generativa.
A estimativa é da Organização Internacional do Trabalho (OIT), em estudo publicado em 2025. A conclusão central é que a transformação das ocupações tende a ser mais provável do que sua substituição integral. A exposição indica possibilidade de mudança nas tarefas, não uma previsão de demissões.
FONTE: OIT — Generative AI and Jobs: A Refined Global Index of Occupational Exposure (2025).
A pergunta não é apenas quantos empregos podem desaparecer. É como as profissões serão reorganizadas e quem participará dessa reorganização.
02 · FORMAÇÃO E PRIMEIRAS OPORTUNIDADES
SE A MÁQUINA
FAZ O BÁSICO,
ONDE SE APRENDE?
A entrada em uma profissão costuma envolver atividades simples, repetitivas e supervisionadas. Elas podem funcionar como oportunidades para observar profissionais experientes, reconhecer procedimentos, compreender processos e desenvolver critérios para tomar decisões.
No episódio, Wesley Ferreira apresenta uma preocupação: se a inteligência artificial assumir tarefas antes destinadas a estagiários e profissionais iniciantes, será necessário construir outras maneiras de adquirir experiência.
Isso não significa que toda tarefa repetitiva ensine alguma coisa. Uma pessoa pode passar anos executando uma atividade sem compreender seus fundamentos. O problema surge quando a automação elimina uma oportunidade de formação sem que outra seja oferecida.
UMA PERGUNTA PARA O FUTURO DO TRABALHO
Se as empresas automatizarem as tarefas de entrada, como formarão os profissionais experientes de amanhã?
03 · HABILIDADES E TRANSFORMAÇÕES PROFISSIONAIS
AS FERRAMENTAS
MUDAM.
O REPERTÓRIO
IMPORTA.
O relatório Future of Jobs 2025, do Fórum Econômico Mundial, estima que 39% das habilidades utilizadas pelos trabalhadores sejam transformadas ou se tornem desatualizadas até 2030.
O levantamento também projeta a criação de 170 milhões de postos de trabalho e o deslocamento de 92 milhões no período. Essas projeções consideram diferentes tendências econômicas, demográficas e tecnológicas, e não apenas os efeitos da inteligência artificial.
Entre as competências consideradas importantes estão inteligência artificial e análise de dados, mas também pensamento analítico, criatividade, flexibilidade e aprendizagem contínua.
No episódio, Tata Ribeiro chama atenção para a transmissão de conhecimento entre gerações. Os mais novos podem dominar ferramentas desconhecidas pelos mais velhos, enquanto estes carregam experiências e saberes que não deixam de ter valor quando uma tecnologia se torna obsoleta.
Preparar uma geração não significa ensinar todas as ferramentas que ela utilizará. Significa ajudá-la a construir repertório para aprender quando essas ferramentas mudarem.
04 · INTELIGÊNCIA ARTIFICIAL E AUTONOMIA
SE A IA
FAZ POR MIM,
O QUE EU SEI FAZER?
Uma ferramenta pode ajudar a organizar ideias, explorar soluções, identificar erros e compreender assuntos complexos. Também pode ser utilizada para entregar um resultado sem que a pessoa compreenda o processo necessário para produzi-lo.
No episódio, Diego Silva questiona o que acontece quando delegamos à inteligência artificial atividades que também poderiam participar da construção do nosso conhecimento.
A diferença não está simplesmente em utilizar ou rejeitar a tecnologia. Está em saber quando ela amplia nossa capacidade de pensar e quando passa a substituir etapas de aprendizagem que ainda precisamos desenvolver.
Utilizar uma ferramenta não dispensa a responsabilidade de compreender, avaliar e questionar aquilo que ela produz.
05 · INFÂNCIA, RAÇA E OPORTUNIDADES
O FUTURO
NÃO CHEGA
IGUAL PARA TODOS.
As oportunidades de participar das transformações tecnológicas dependem de condições concretas: acesso à internet, equipamentos, formação, orientação, tempo para experimentar e possibilidades de entrada no mercado de trabalho.
Essas condições não estão distribuídas igualmente. No Brasil, desigualdades de renda, território e raça atravessam o acesso à educação, às tecnologias e às oportunidades profissionais.
Para crianças negras, discutir o futuro do trabalho exige olhar para as portas de entrada que existem hoje e perguntar como elas serão transformadas. Se novas ocupações surgirem, quem terá acesso à formação necessária? Se atividades iniciais forem automatizadas, como jovens profissionais conseguirão desenvolver experiência?
Não é possível afirmar que toda automação produzirá exclusão. Mas também não é responsável presumir que seus benefícios serão distribuídos de maneira igualitária.
O desafio não é apenas preparar crianças para utilizar novas tecnologias. É ampliar suas condições de aprender, criar e participar das decisões sobre o futuro.
PARA CONTINUAR INVESTIGANDO
PESQUISAS
E LEITURAS
TRABALHO · INTELIGÊNCIA ARTIFICIAL
Organização Internacional do Trabalho — Generative AI and Jobs (2025)
Estudo sobre a exposição das ocupações à inteligência artificial generativa, distinguindo o potencial de transformação das tarefas da substituição integral de empregos.
CONSULTAR A PESQUISA →PROFISSÕES · HABILIDADES
Fórum Econômico Mundial — Future of Jobs Report 2025
Relatório com projeções sobre transformações no emprego, mudanças nas habilidades profissionais e tendências que podem reorganizar o mercado de trabalho até 2030.
LER O RELATÓRIO →BRASIL · ACESSO DIGITAL
Cetic.br — TIC Domicílios
Pesquisa brasileira sobre acesso à internet, dispositivos e usos das tecnologias digitais. Permite investigar diferenças por renda, escolaridade, território e outras características da população.
CONSULTAR OS INDICADORES →EDUCAÇÃO · INTELIGÊNCIA ARTIFICIAL
UNESCO — Inteligência artificial e educação
Materiais sobre o uso da inteligência artificial na educação, seus limites e as condições necessárias para que a tecnologia contribua para a aprendizagem.
CONSULTAR A UNESCO →PARA LEVAR À CONVERSA
AS PERGUNTAS
QUE FICAM
Que profissões nossos filhos conhecem hoje? Como essas profissões estão mudando?
O que uma pessoa aprende nas primeiras tarefas de uma profissão?
Se a inteligência artificial executar essas tarefas, onde a experiência será construída?
Que conhecimentos podemos transmitir mesmo sem dominar as ferramentas que nossos filhos utilizarão?
Quando a IA amplia nossa capacidade de aprender e quando substitui etapas importantes do pensamento?
Que condições precisam existir para que crianças negras participem das oportunidades criadas pelas novas tecnologias?
CRIAR EM UM MUNDO PROGRAMADO · EPISÓDIO 04
O FUTURO
NÃO PRECISA
NOS ENCONTRAR DE FORA.
Não sabemos quais profissões nossos filhos exercerão nem quais ferramentas utilizarão. Mas podemos ampliar suas oportunidades de aprender, experimentar, construir repertório e compreender as transformações que já estão acontecendo. O futuro do trabalho não depende apenas do desenvolvimento tecnológico. Depende também das decisões humanas sobre quem terá acesso às possibilidades que ele abre.
No próximo e último episódio: se o futuro já está sendo construído, que futuro está batendo à porta — e quem terá condições de participar dele?
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