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Conversas no [parenta] nº3 – Beatriz Cruz: PREVENÇÃO
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CRIANDO CRIANÇAS NEGRAS NO BRASIL DE 2026: DIA 10/10/2026
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A conversa também passa pelo corpo
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Primeiro deslocamento
Quem decide pela criança?
Falar sobre proteção exige começar antes da violência. Começa na maneira como os adultos enxergam a criança: alguém sobre quem decidimos tudo ou uma pessoa que também pode expressar desejos, desconfortos, medo, recusa e opinião?
Beatriz Cruz abre a conversa defendendo a participação ativa das crianças. Escutá-las não significa transferir para elas decisões que pertencem aos adultos. Significa reconhecer que autonomia também se constrói quando uma criança percebe que sua palavra produz consequência.
“Todo mundo pode decidir pela criança. Exceto ela. No final das contas.”
Prevenção e educação sexual
Prevenção começa antes da denúncia
Educação sexual infantil aparece nesta conversa como linguagem de proteção. Dar nome ao corpo. Diferenciar medo de afeto. Reconhecer desconforto. Saber que existem toques que exigem cuidado, comunicação e consentimento.
Isso não transforma a criança em responsável por impedir uma violência. Beatriz insiste justamente no contrário: a violência parte de quem agride. O repertório oferecido à criança pode ajudá-la a reconhecer, nomear e comunicar aquilo que aconteceu.
“A gente está falando de dar à criança o poder de conhecer o próprio corpo.”
84.388
vítimas de estupro e estupro de vulnerável registradas no Brasil em 2025.
60,3%
das vítimas tinham até 13 anos.
Fonte: Anuário Brasileiro de Segurança Pública 2026 — Fórum Brasileiro de Segurança Pública .
Raça, gênero e território
Não existe prevenção neutra
A infância não é vivida da mesma maneira por todas as crianças. Raça, gênero e território atravessam a forma como um corpo é percebido, protegido, responsabilizado e escutado.
Na conversa, Beatriz chama atenção para a adultização de meninas negras e para a dificuldade de construir educação sexual como se todas as crianças chegassem ao mesmo lugar com o mesmo repertório, as mesmas proteções e as mesmas possibilidades de serem acreditadas.
“O agressor, quem? Raça e gênero. E a vítima também tem raça e gênero.”
Uma educação sexual antirracista precisa conseguir enxergar essas diferenças sem transformar crianças negras em problema. O que muda é a responsabilidade adulta de conhecer o território, compreender o repertório daquela infância e construir proteção a partir da vida que realmente existe.
Meninos, afeto e masculinidades
Quando violência ganha o nome de iniciação
Existe uma violência que pode desaparecer da conversa quando acontece com meninos porque a própria masculinidade oferece outro nome para ela: experiência, conquista, sorte, iniciação.
Beatriz liga essa dificuldade ao modo como meninos aprendem a se afastar das emoções. O afeto vira tapa nas costas. O choro precisa ser escondido. Vulnerabilidade passa a parecer fracasso. Depois esperamos que esse menino encontre palavras para reconhecer e comunicar aquilo que o atravessou.
“Que o machismo também impede a existência de homens.”
Beatriz Cruz
Proteger meninos também significa lhes oferecer vocabulário emocional, intimidade, consentimento, cuidado e permissão para não performar invulnerabilidade. O silêncio aprendido na infância não desaparece quando o menino cresce.
Infância e ambiente digital
O risco também chega pela palma da mão
A última parte da conversa desloca a prevenção para as telas. Celulares, redes sociais, jogos e plataformas ampliaram a quantidade de conteúdos, contatos e situações que podem alcançar uma criança mesmo quando ela não saiu procurando por eles.
O problema não se resolve imaginando que toda proteção cabe numa proibição. Se diferentes telas atravessam a vida das crianças, educação, acompanhamento, diálogo e fiscalização precisam atravessar também.
19%
dos adolescentes de 12 a 17 anos que usam a internet no Brasil relataram exploração e/ou abuso sexual facilitados pela tecnologia em um período de um ano.
Fonte: UNICEF, ECPAT International e INTERPOL — Disrupting Harm in Brazil, 2026 .
“É que a gente una a educação com a fiscalização.”
Escuta, rede e responsabilidade adulta
Quem protege uma criança?
A resposta não pode terminar na própria criança. Família, escola, profissionais de saúde, assistência, sistema de justiça, território e comunidade fazem parte de uma rede que precisa saber reconhecer sinais, receber uma fala e agir sem produzir uma nova violência.
A Lei 13.431/2017 organiza o sistema de garantia de direitos de crianças e adolescentes vítimas ou testemunhas de violência e estabelece procedimentos como a escuta especializada e o depoimento especial. Proteger também significa não obrigar uma criança a reconstruir repetidamente uma experiência diante de adultos despreparados.
Fonte: Lei nº 13.431/2017 — Presidência da República .
“Escute suas crianças.”
Beatriz Cruz
Escutar quando uma criança conta uma coisa pequena também constrói o caminho para que ela procure aquele adulto quando o que precisa contar é grande. Confiança não começa no momento da denúncia. Ela é construída muito antes.
Depois da escuta
O que ela aprendeu que poderia nos contar?
Beatriz Cruz e Diego Silva conversam sobre prevenção da violência sexual infantil, educação sexual, autonomia, raça, gênero, masculinidades, território, escuta e ambiente digital.
A pergunta que atravessa o episódio não é apenas o que fazer depois que uma criança conta. É o que nós, adultos, construímos antes para que ela conheça o próprio corpo, reconheça limites, encontre palavras e saiba onde existe alguém disposto a escutá-la.
Ouça o Conversas no [parenta] nº 3 nesta página.
Beatriz Cruz: @laemcasatatudobem
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A conversa não termina no play
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