Conversas no [parenta] nº1 – Márcio Chagas: filhos negros e política

Material expandido do Conversas do [parenta] • episódio 01

Criar um filho negro também é política.

Até onde proteger sem impedir que ele caminhe?

No Conversas do [parenta] #01, eu recebo Márcio Chagas para uma conversa sobre paternidade negra, presença, criação de filhos negros, racismo, família e política. Partimos das disputas que atravessam o país e chegamos ao que elas produzem dentro de casa: o medo de uma abordagem policial, os limites da proteção, a autonomia dos filhos e a responsabilidade de preparar crianças negras para um mundo que ainda lê seus corpos antes de escutá-las.

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Conversas no [parenta] nº1 – Márcio Chagas: filhos negros e política

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CRIANDO CRIANÇAS NEGRAS NO BRASIL DE 2026

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12 DE SETEMBRO DE 2026

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A conversa também passa pelo corpo

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Primeiro deslocamento

Presença não cabe no fim de semana.

Márcio Chagas define sua paternidade como um aprendizado diário. Pai de Miguel e Joana, ele passou a assumir sozinho a responsabilidade cotidiana pelos filhos depois da morte de Aline, mãe das crianças.

Presença, nessa conversa, aparece no cotidiano: levar e buscar na escola, acompanhar atividades, estar na arquibancada, observar mudanças, participar das escolhas e permanecer disponível quando alguma coisa sai do lugar.

Há uma diferença entre aparecer na vida de uma criança e construir com ela uma relação em que a presença possa ser reconhecida. Para Márcio, seus filhos precisam saber que, dentro do possível, ele estará ali.

Proteção e autonomia

O medo começa antes do filho sair de casa

Miguel tem 13 anos e já alcançou aproximadamente a altura do pai. Márcio conta que ainda não permite que o filho saia sozinho. A preocupação não começa na possibilidade de o menino cometer alguma violência. Começa na maneira como outras pessoas podem interpretar aquele corpo negro antes de conhecê-lo.

Um adolescente tímido pode ser entendido como alguém que está desafiando. Um movimento provocado pelo medo pode ser interpretado como ameaça. Uma abordagem pode acontecer antes que exista espaço para qualquer explicação.

Proteger demais também pode impedir um filho de aprender a caminhar sozinho.

É aí que Márcio localiza seu dilema. Ele sabe que os filhos precisam experimentar o mundo, construir autonomia e até cometer os próprios erros. Ao mesmo tempo, reconhece que homens negros aprendem cedo que alguns erros recebem respostas muito diferentes dependendo do corpo que os comete.

Uma orientação antiga

Algumas crianças aprendem cedo como voltar para casa

Quando Márcio ainda era criança, seu pai orientou ele e o irmão a carregarem documentos, evitarem movimentos bruscos diante da polícia e responderem com cuidado durante uma abordagem.

“Porque eu quero que vocês voltem para casa.”

Décadas se passaram. O vocabulário mudou pouco. Agora Márcio ocupa o lugar daquele pai que precisa decidir quanto da violência racial deve explicar aos próprios filhos e em qual idade essas explicações precisam começar.

Criar crianças negras envolve experiências que dificilmente aparecem nos manuais universais de parentalidade. Há conversas sobre documento, postura, segurança, lojas, polícia e circulação pelo espaço público que surgem porque o racismo já está presente antes mesmo de a criança compreender seu funcionamento.

Política antes da urna

A política começa muito antes do voto

A conversa com Márcio acontece num Brasil atravessado por polarização, disputas eleitorais e diferentes projetos de sociedade. A pergunta que interessa aqui não é apenas em quem uma família vota. É como os valores políticos entram no cotidiano de uma criança.

Para Márcio, esse aprendizado aparece quando os filhos compreendem que as oportunidades não estão distribuídas igualmente, que aquilo que possuem não transforma ninguém em mais merecedor do que os outros e que educação, saúde, moradia e segurança também fazem parte de decisões coletivas.

Poder

Crianças observam cedo quem pode decidir, quem precisa obedecer e quem costuma ser ouvido.

Valores

Aquilo que uma casa considera justo aparece nas escolhas pequenas, muito antes de virar discurso.

Autonomia

Formar politicamente um filho também exige aceitar que ele terá de construir suas próprias posições.

Márcio diz que não transforma a casa numa sequência de palestras políticas. Os filhos convivem com suas posições e, a partir delas, surgem conversas. Formação e imposição não precisam ocupar o mesmo lugar.

Família em disputa

Quem decidiu qual família conta?

A expressão “família tradicional” ganhou função política. Ela costuma vir acompanhada de uma imagem específica: pai, mãe e filhos vivendo numa determinada organização doméstica.

Márcio olha para esse desenho a partir da própria casa. Ele é um homem negro, viúvo, criando dois filhos. Dentro de certas definições de família defendidas no debate público, sua configuração poderia ser tratada como incompleta ou desviada de um modelo ideal.

“Família é o amor. Família é a criação. É a presença.”

Dois pais, duas mães, um pai, uma mãe, uma avó. Para Márcio, a composição não determina sozinha a existência de uma família. Importam o vínculo, o cuidado, o diálogo e a responsabilidade exercida por quem está ali.

Crescer também exige errar

O menino precisa sobreviver sem deixar de ser menino

Crianças precisam testar limites, escolher mal, esquecer coisas, responder de maneira atravessada e aprender com consequências. Esse movimento faz parte do crescimento.

O problema aparece quando o erro de uma criança negra pode receber uma punição que ultrapassa o erro.

Márcio reconhece que proteger demais pode limitar o desenvolvimento dos filhos. Também sabe que o mundo não distribui tolerância da mesma maneira. Essa contradição acompanha muitas famílias negras: preparar para o racismo sem permitir que o racismo ocupe todo o espaço da infância.

Na mensagem aos pais e mães de crianças negras, ele fala de literatura, referências negras, elogio às características físicas, acompanhamento e uma relação com o erro que oriente sem transformar cada falha numa condenação.

Depois da escuta

Quanto do nosso cuidado nasce do amor e quanto nasce do medo?

O Conversas do [parenta] #01 reúne paternidade negra, presença paterna, criação de filhos negros, racismo, família, autonomia e política. Assuntos que parecem separados até chegarem à rotina de uma casa.

Márcio Chagas fala como alguém que conhece a violência racial, recebeu do pai orientações para sobreviver a ela e agora precisa decidir como transmitir esse aprendizado aos próprios filhos sem entregar a eles apenas o medo que recebeu.

Talvez a política comece justamente aí: naquilo que uma criança aprende sobre seu corpo, sobre os outros, sobre quem merece cuidado e sobre o mundo que os adultos consideram possível construir.

Nos vemos no próximo Conversas do [parenta]. Se cuide.

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Diego Silva

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