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{mergulho} pt. 10 — Do direito de sentir à Paternidade Preta — Isaías Paixão
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A conversa também passa pelo corpo
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Antes de procurar um modelo
A paternidade preta não cabe num pai só
Existe uma maneira recorrente de discutir paternidade: olhar para um homem, observar o que ele faz dentro de casa e decidir se ele corresponde ou não ao que se espera de um pai.
Quando a conversa chega à paternidade preta, esse enquadramento fica pequeno.
No {mergulho} pt. 10 do Podcast Parentalidade Preta, Diego Silva conversa com o psicólogo e pesquisador Isaías Paixão sobre paternidades negras sem procurar uma definição capaz de servir para todos os pais negros.
A recusa começa cedo. Religião, classe, gênero, região, geração e território produzem experiências diferentes. Reconhecer essas diferenças não exige abrir mão de um projeto comum. Exige compreender de quais homens estamos falando antes de transformar “o pai negro” numa personagem única.
Trabalho, corpo e afeto
O que chega em casa junto com o pai?
Um dos movimentos mais fortes da conversa acontece quando a discussão sobre masculinidade negra encontra o trabalho.
Isaías parte da brutalização histórica dos corpos negros e observa sua continuidade material.
Obra.
Um corpo exigido como força, resistência e produção.
Segurança.
Permanecer alerta também ensina alguma coisa ao corpo.
Plantação.
Trabalho corporal, longas jornadas, deslocamento e precarização.
A questão deixa de ser abstrata quando Isaías aponta uma consequência: um corpo submetido repetidamente à brutalidade também pode perder sensibilidade.
“E daí? Não consegue dar um abraço.”
A frase desloca uma parte importante da discussão sobre afetividade de homens negros.
Se um pai passa grande parte do dia sendo exigido como força, resistência, produção e utilidade, aquilo que acontece com seu corpo durante essas horas também participa da maneira como ele chega em casa.
Isso não absolve homens de suas responsabilidades. Também não permite fingir que a paternidade acontece fora da economia, das relações de trabalho e das condições materiais de vida.
Quem colocou esse “eu” aí?
O problema de mandar cada família resolver tudo sozinha
A conversa avança para outro ponto: o individualismo.
Isaías descreve o modelo em que pai, mãe e filhos se fecham dentro de um núcleo e passam a ser responsáveis por resolver internamente quase tudo o que envolve aquela criança.
“Aquela criança é filha da comunidade.”
Em contraste, ele lembra uma experiência comunitária em que avós, tias, vizinhos e outras pessoas participam do cuidado sem que isso retire a paternidade do pai.
Essa diferença importa.
Um homem já submetido à precarização do trabalho encontra, em casa, outra estrutura dizendo que precisa dar conta.
Trabalhar. Dormir. Estudar. Cuidar do corpo. Cuidar da casa. Ser companheiro. Ser pai.
Em determinado momento da conversa, a enumeração simplesmente termina com: “acabou. Não tem.”
A paternidade preta passa, então, a ser também uma pergunta sobre tempo.
Quem tem tempo para cuidar?
Quem produz esse tempo?
Quem aparece quando o pai não consegue estar?
E por que tantas experiências comunitárias negras foram substituídas pela expectativa de que uma família nuclear resolva tudo dentro de casa?
Uma tensão que acompanha o corpo
Pais negros também criam sob a presença da morte
Há outro atravessamento que muda radicalmente a experiência de muitos pais negros.
O medo.
Isaías fala da preocupação com os filhos quando saem de casa e da possibilidade de os próprios pais não voltarem vivos para vê-los crescer.
Ele faz uma distinção importante: essa relação com a morte não aparece para ele como especulação filosófica sobre a fragilidade da vida.
Existe materialidade
Estado. Violência. Suspeição.
Um homem negro próximo de um carro pode ser interpretado como alguém tentando roubá-lo. Um menino negro dentro de uma loja aprende cedo que determinadas ações podem ser interpretadas de outra maneira quando partem do seu corpo.
Depois Isaías conta o que acontece quando entra em um mercado com os filhos:
“Não fica mexendo nas lojas. Não fica mexendo nas coisas. Ah, não, pega isso aí. Tira a mão do bolso.”
É paternidade acontecendo.
Não numa grande conversa sobre racismo.
Num corredor de mercado.
Depois da imagem
Paternidade negra para além da representatividade
O episódio também desconfia de uma solução confortável: colocar um pai negro na imagem e considerar o trabalho encerrado.
Isaías diz que a paternidade negra não se reduz à cor da pele.
Que relações esse pai produz?
Como se relaciona com os filhos?
Com a comunidade?
Que hierarquias reproduz?
Que modelos recusa?
Que referências está construindo?
Um corpo negro pode reproduzir relações organizadas por dominação, disciplina e individualismo. A epiderme, sozinha, não responde a essas perguntas.
“Se for só estética, a gente perdeu.”
A disputa passa a ser por sociedade.
Não pela fotografia do pai perfeito.
Paternidade também é circulação
Criar filhos negros e reivindicar a cidade
Talvez uma das passagens mais concretas do episódio apareça quando Isaías fala sobre o que faz com seus próprios filhos.
Samba.
Igreja.
Candomblé.
Museu.
Universidade.
Política.
Mostra onde as leis são feitas. Pergunta quantas pessoas negras existem em determinados ambientes. Ensina que aqueles lugares também lhes pertencem.
“A cidade é de vocês também.”
Aqui, educação racial deixa de ser uma palestra que pais oferecem aos filhos.
Vira circulação.
É colocar o corpo da criança negra em relação com lugares que talvez o mundo tentasse apresentar como pertencentes a outras pessoas.
Uma pergunta de futuro
E depois da negritude?
O {mergulho} pt. 10 chega, por fim, a uma pergunta difícil para o próprio Parentalidade Preta.
Como reivindicar a negritude sem transformá-la no último destino possível de uma criança negra?
Isaías volta a Fanon para sustentar a necessidade de humanidade.
Identidade importa. Produziu defesa, nome, reconhecimento e possibilidade de organização.
Mas criar uma criança negra também significa perguntar o que existe depois da reivindicação inicial de existir como negra.
Que ser humano está sendo formado?
Com que relação com a comunidade?
Com que capacidade de viver a diferença?
Com que liberdade para ocupar o mundo?
É nesse ponto que a conversa deixa de caber numa discussão sobre “bons pais negros”.
E talvez seja exatamente aí que o episódio comece.
Podcast Parentalidade Preta
{mergulho} pt. 10 — Do direito de sentir à Paternidade Preta
Com Isaías Paixão, psicólogo.
O episódio vai ao ar em 25 de agosto.
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Referências do episódio
Obras, autores e pensadores que aparecem ao longo da conversa com Isaías Paixão.
Referências citadas no episódio
FANON, Frantz. Pele negra, máscaras brancas. Tradução de Sebastião Nascimento; colaboração de Raquel Camargo. São Paulo: Ubu Editora, 2020.
FANON, Frantz. Os condenados da terra. Tradução de Ligia Fonseca Ferreira e Regina Salgado Campos. Rio de Janeiro: Zahar, 2022.
FANON, Frantz. Em defesa da revolução africana. Lisboa: Livraria Sá da Costa Editora, 1980.
FANON, Frantz. Antilhanos e africanos. In: FANON, Frantz. Em defesa da revolução africana. Lisboa: Livraria Sá da Costa Editora, 1980.
FAUSTINO, Deivison Mendes. O pênis sem o falo: algumas reflexões sobre homens negros, masculinidades e racismo. In: BLAY, Eva Alterman (org.). Feminismos e masculinidades: novos caminhos para enfrentar a violência contra a mulher. São Paulo: Cultura Acadêmica, 2014. p. 75–104.
OLIVEIRA, Rosiska Darcy de. Reengenharia do tempo. Rio de Janeiro: Rocco, 2003.
PAIXÃO, Isaias Neves Barbosa. Ancestranálise: cartas aos filhos da trincheira. 2023. Dissertação (Mestrado) — Universidade Federal do Rio Grande do Sul, Porto Alegre, 2023.
Outras presenças na conversa
Autores e pensadores mencionados
Jota Mombaça
Marimba Ani
Aimé Césaire
Lélia Gonzalez
Antônio Bispo dos Santos (Nêgo Bispo)
Karl Marx
Sigmund Freud
Nesta segunda lista estão autores e pensadores mencionados ou evocados durante a conversa, sem atribuição de uma obra específica no episódio.
Mais do {mergulho}
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