[parenta] #45 – Paternidade Preta – André Ramiro

Material expandido do [parenta] • episódio 45

Pai também é pai.

O casal termina. A responsabilidade não.

No [parenta] #45, eu converso com André Ramiro sobre paternidade negra, separação, presença, masculinidade, pressão para prover, heranças familiares e afeto entre homens negros. A conversa atravessa uma pergunta difícil: o que um homem precisa investigar em si para não transformar a própria ausência em herança?

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[parenta] #45 – Paternidade Preta – André Ramiro

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Primeiro deslocamento

O casal termina. O pai continua.

O fim de um relacionamento altera a organização de uma família. Muda a casa, a rotina, os acordos e a convivência entre os adultos. A paternidade, porém, não desaparece junto com a conjugalidade.

No [parenta] #45, André Ramiro fala como pai de três filhos em configurações familiares diferentes. Ele reconhece as dificuldades, as necessidades de cada criança e o trabalho de construir relações possíveis com as mães de seus filhos.

Permanecer pai depois da separação exige mais do que cumprir uma obrigação financeira. Envolve presença, diálogo, escuta e a disposição de não transformar conflitos entre adultos numa ausência para as crianças.

Herança, repetição e escolha

O que não foi vivido também se repete

André conheceu o pai aos 18 anos. Hoje, fala dessa relação como amizade, parceria e confiança. A distância vivida na infância, porém, não desaparece apenas porque o encontro aconteceu mais tarde.

Mesmo sem convivência direta, homens podem repetir comportamentos, silêncios e formas de se relacionar presentes nas gerações anteriores. A ausência também transmite linguagem. Ela ensina maneiras de fugir, endurecer, calar e ocupar uma família.

Investigar a própria história também é trabalho de paternidade.

Conversar com pai, mãe, avós e outras pessoas da família permitiu que André reconhecesse padrões presentes em seus relacionamentos e na maneira como cuidava de si. Romper um ciclo começa por descobrir de onde ele veio.

Quando o homem vira pilar

Prover não pode ser a única medida

Para muitos homens negros, sucesso individual rapidamente vira responsabilidade coletiva. Quando o dinheiro chega, também chegam pedidos, urgências, dívidas e expectativas de que aquele homem resolva a vida de todos ao redor.

O pilar sustenta a casa. Quase ninguém pergunta onde ele se apoia.

A mesma estrutura que transforma o homem em provedor pode retirar dele qualquer valor quando o dinheiro falta. Um período de reconstrução financeira passa a ser interpretado como incapacidade, fracasso ou perda de masculinidade.

Essa cobrança atinge a saúde mental, a relação com os filhos e a capacidade de pedir ajuda. Um homem treinado para resolver tudo pode não saber o que fazer quando é ele quem precisa ser sustentado.

Afeto, cuidado e masculinidade

Cuidar não diminui um homem

André fala da dificuldade que muitos homens encontram para tocar o afeto sem acreditar que estão abandonando a masculinidade. Sensibilidade, acolhimento e cuidado ainda podem ser tratados como sinais de fraqueza.

A paternidade desloca essa fronteira. Brincar com uma filha, permitir que uma criança pinte seu rosto, cuidar de uma planta, cozinhar, escutar ou oferecer colo são experiências que exigem presença, abertura e confiança.

Escuta

Uma criança também precisa de um pai capaz de escutar sem transformar tudo em comando.

Presença

Estar junto envolve tempo, atenção e participação na vida cotidiana.

Autocuidado

Um homem que reconhece seus limites pode construir relações menos dependentes do sacrifício.

O afeto não retira firmeza, responsabilidade ou autoridade. Ele impede que a força masculina dependa apenas do controle, do medo e da distância.

Entre homens negros

A roda devolve aquilo que o silêncio levou

Homens negros costumam se encontrar para trabalhar, celebrar, assistir a um jogo ou esquecer por algumas horas as pressões do cotidiano. Poucas vezes a paternidade, o medo, a frustração ou a saúde mental entram no centro da conversa.

Quando esses temas permanecem fora da roda, experiências coletivas continuam sendo interpretadas como fracassos individuais. Cada homem acredita que está falhando sozinho diante de um problema produzido por uma história muito maior.

Criar espaços de troca não significa vigiar ou policiar outros homens. Significa ouvir, fortalecer, discordar quando necessário e dizer ao irmão quando existe uma venda diante dos olhos, sem retirar dele a possibilidade de retornar.

Ubuntu, acolhimento e continuidade

Voltar para o quilombo

Ao final da conversa, André recupera o princípio de Ubuntu: eu sou porque somos. A formulação aponta para uma comunidade capaz de reconhecer que ninguém se constrói completamente sozinho.

A comunidade precisa ser um lugar para onde alguém consiga voltar.

Acolher não significa esconder escolhas ruins nem abandonar responsabilidade. Significa interromper a lógica que transforma toda falha em espetáculo, toda dor em julgamento e toda contradição em expulsão.

Uma comunidade preta também se fortalece quando consegue cuidar de seus conflitos dentro de casa, reconstruir vínculos e oferecer segurança para que homens, mulheres e crianças não precisem buscar pertencimento apenas fora dela.

Depois da escuta

O que um homem precisa romper para permanecer pai?

O [parenta] #45 é uma conversa sobre paternidade negra, separação, masculinidade, pressão para prover, heranças familiares, afeto e os espaços que homens negros precisam construir para não atravessar tudo sozinhos.

André Ramiro não apresenta uma fórmula de pai. Ele fala de dentro das contradições, das tentativas, dos vínculos que mudaram e das perguntas que continuam exigindo trabalho.

A pergunta permanece voltada para quem escuta: o que, em nós, é escolha e o que ainda é uma herança que nunca tivemos coragem de investigar?

Nos vemos no próximo [parenta]. Se cuide.

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Diego Silva

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