{mergulho}pt. 9 — da sobrevivência ao direito de sentir — Tiago Alano

Material expandido do {mergulho} • parte 9

Masculinidade preta e saúde mental

Quando sobreviver ocupa o lugar de existir.

No {mergulho} pt9, eu converso com o psicólogo Tiago Alano sobre saúde mental de homens negros, identidade, sobrevivência e criação de meninos negros. A conversa não procura um modelo correto de masculinidade. A pergunta vem antes: o que aconteceu com esses homens antes que lhes fosse permitido escolher quem desejavam ser?

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{mergulho} pt9 – da sobrevivência ao direito de sentir – Tiago Alano

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Primeiro deslocamento

Existe uma única masculinidade preta?

A ideia de uma masculinidade preta única pode servir como ponto inicial de análise, mas se torna perigosa quando transforma homens negros em um bloco sem história, território, classe, religião, sexualidade ou experiência familiar. Na conversa, Tiago contesta essa simplificação. Homens negros não ocupam a sociedade da mesma maneira. Ainda assim, encontram exigências raciais que atravessam experiências muito diferentes: precisam demonstrar força, suportar mais pressão e provar repetidamente que são capazes, confiáveis e úteis.

Essa expectativa não permanece do lado de fora. Ela participa da formação da identidade. Um homem pode aprender a reconhecer o próprio valor apenas quando está trabalhando, resolvendo problemas ou sustentando alguém. Quando não consegue cumprir essas funções, não sente apenas preocupação econômica. Pode sentir que deixou de ser homem.

Um estudo brasileiro publicado em 2024 sobre trabalho, classe e masculinidades em serviços de atenção psicossocial parte justamente da frase “um homem sem trabalho não é nada” para investigar como o trabalho se torna elemento da identidade masculina e do sofrimento psíquico.

Trabalho, raça e corpo

Raça e o direito de descansar

A relação entre homens negros e trabalho não pode ser analisada apenas como uma questão de disciplina pessoal. Em 2024, pessoas brancas recebiam, em média, 65,9% mais do que pessoas pretas ou pardas. O rendimento médio por hora era de R$ 24,60 para pessoas brancas e R$ 15,00 para pessoas pretas ou pardas. Isso significa que o trabalho não oferece o mesmo retorno para todos, mesmo quando ocupa grande parte da vida.

65,9%

Diferença média de rendimento entre pessoas brancas e pessoas pretas ou pardas em 2024.

R$ 24,60

Rendimento médio por hora de pessoas brancas.

R$ 15,00

Rendimento médio por hora de pessoas pretas ou pardas.

Nesse contexto, descansar pode deixar de ser uma simples necessidade física. Para quem aprendeu que qualquer pausa ameaça o sustento da família, o descanso pode produzir culpa. Para quem precisou trabalhar mais para receber menos, parar pode parecer irresponsabilidade. A força deixa de ser uma capacidade acionada em certos momentos e passa a ser uma posição permanente. O homem continua alerta mesmo dentro de casa.

O problema não é afirmar que homens negros trabalham, protegem ou assumem responsabilidades. O problema começa quando essas funções se tornam a única forma possível de reconhecer sua humanidade. Quando o homem é amado apenas pelo que entrega, adoecer, falhar ou pedir ajuda pode parecer uma espécie de desaparecimento social.

Respirar vem antes

Sobrevivência não deixa muito espaço para autoconhecimento

Um dos pontos centrais de {mergulho} pt9 é a diferença entre sobreviver e conseguir pensar sobre a própria existência. Tiago utiliza a imagem de alguém que está se afogando: antes de analisar a água, a correnteza ou as estruturas ao redor, essa pessoa precisa respirar. A imagem ajuda a compreender por que discursos sobre autoconhecimento não alcançam todos os homens da mesma maneira.

Antes de pensar sobre a correnteza, quem está se afogando precisa respirar.

A população negra permanece exposta a condições concretas de insegurança. Segundo o Atlas da Violência 2026, uma pessoa negra apresentou, em 2024, risco 2,7 vezes maior de sofrer homicídio do que uma pessoa não negra. No mesmo ano, 18.545 dos 19.801 jovens mortos por homicídio eram homens. Esses recortes não devem ser confundidos como se fossem uma única estatística sobre homens negros, mas revelam um território no qual raça, juventude e masculinidade estão fortemente expostas à violência.

Esse território pode exigir atenção constante ao corpo, à roupa, ao horário, à abordagem policial, ao trajeto, à linguagem e à maneira como os outros interpretam qualquer gesto. Os dados não explicam sozinhos a vida emocional de um homem negro. Eles impedem, porém, que seu sofrimento seja reduzido a falta de vontade, incapacidade de diálogo ou resistência individual à terapia.

A dor também tem contexto

Racismo também produz sofrimento psíquico

Pesquisas brasileiras sobre saúde mental da população negra apontam que o racismo não opera apenas como desigualdade econômica ou ofensa direta. Ele participa da produção de estresse, insegurança, sofrimento emocional e formas de percepção de si. Uma revisão da produção científica brasileira identificou o racismo como uma forma de opressão e violência com consequências para a saúde mental das pessoas negras.

Isso exige uma psicologia capaz de compreender que nem toda dor começa dentro do indivíduo. Há sofrimentos produzidos nas relações de trabalho, nas instituições, na vida urbana, na escola, na família e nas imagens sociais construídas sobre homens negros. Pedir que um homem fale sobre o que sente sem reconhecer esse contexto pode produzir outra violência: fazê-lo acreditar que sua dor é apenas uma falha pessoal.

Quando a defesa baixa

O que acontece quando homens encontram espaço?

Uma experiência registrada pela Fiocruz sobre um grupo de saúde mental para homens na Atenção Primária mostra a importância de espaços onde eles possam refletir sobre masculinidade, papéis sociais, validação emocional e relações interpessoais. Os participantes utilizaram o grupo para elaborar angústias e perceber que não enfrentavam seus problemas de maneira isolada.

Essa experiência atravessa o trabalho do Parentalidade Preta. Nem todo espaço de escuta precisa começar como palestra, diagnóstico ou tentativa de corrigir homens. Às vezes, ele começa quando um homem consegue dizer que não está bem sem precisar imediatamente apresentar uma solução. Começa quando outro homem escuta sem disputar sofrimento, oferecer sermão ou transformar vulnerabilidade em motivo de humilhação.

O que passa adiante

Pais de meninos negros também educam pelo que calam

Ao final do episódio, a conversa se volta para pais e mães de meninos negros. Crianças não aprendem apenas por meio das orientações que recebem. Elas observam como os adultos lidam com tristeza, medo, raiva, descanso, carinho e necessidade de ajuda. Um pai pode dizer ao filho que sentir é permitido, mas seu corpo ensinar o contrário quando jamais chora, pede colo, descansa ou admite que não sabe.

Ensinar um menino negro a sentir não significa prepará-lo menos para o mundo.

Significa impedir que a proteção exigida pelo racismo destrua tudo aquilo que deveria proteger. Ele precisará reconhecer riscos, mas também precisará reconhecer a própria dor. Precisará desenvolver autonomia, sem confundir autonomia com isolamento. Precisará aprender responsabilidade sem acreditar que só merece amor quando está sendo útil.

Depois da escuta

Há perguntas que precisam encontrar espaço antes de virarem herança.

{mergulho} pt9 — Tiago Alano é uma conversa sobre masculinidade preta e saúde mental de homens negros, mas também sobre o que passamos adiante quando não conseguimos nomear aquilo que nos atravessa. Não há uma fórmula final para ser homem negro.

Nos vemos na próxima. Se cuide.

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Diego Silva

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