O que acontece quando esperamos que pais cuidem melhor, mas as condições para cuidar continuam desiguais?
Nesta semana, pesquisas sobre castigo corporal, pais jovens e saúde mental paterna colocam uma questão em comum: presença e intenção não explicam sozinhas o cuidado. Tempo, trabalho, território, serviços, repertório e divisão das responsabilidades também entram nessa conta.
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Pedir que homens participem mais do cuidado é necessário. Mas as pesquisas desta semana acrescentam uma pergunta menos confortável: o que torna esse cuidado possível no cotidiano?
No Brasil, uma pesquisa sobre castigo corporal encontrou sobrecarga materna, participação paterna desigual e territórios onde violência e proteção podem se embaralhar. Uma revisão de estudos africanos encontrou outro vazio: quando adolescentes e jovens se tornam pais, eles praticamente desaparecem das intervenções avaliadas. E uma pesquisa suíça encontrou pais presentes no período perinatal, mas nem sempre reconhecidos pelos serviços como sujeitos que também podem precisar de cuidado.
1. Cuidar sem violência exige mais do que condenar a violência.
2. Incluir pais nas políticas não significa apenas pedir que eles estejam presentes.
3. Trabalho, território, serviços, repertório e divisão do cuidado ajudam a determinar quanto cuidado é concretamente possível.
As fontes desta edição estudam populações e contextos diferentes. Elas não demonstram uma causa única. O Observatório as coloca em diálogo para formular perguntas sobre paternidade sem transformar associação em causalidade, pesquisa estrangeira em retrato do Brasil ou ausência de dado racial em conclusão sobre famílias negras.
Quando proteger e endurecer começam a parecer a mesma coisa
O estudo “É só uma palmada?”, lançado pelo UNICEF em setembro, procurou compreender por que o castigo corporal contra crianças continua socialmente tolerado mesmo diante da proibição legal e do desejo de muitas famílias de educar de outras maneiras.
A pesquisa ouviu 214 mães, pais, familiares, lideranças comunitárias e profissionais em territórios de Recife, Manaus e Rio de Janeiro entre 2024 e 2026. Foram utilizados grupos focais, entrevistas em profundidade, revisão de literatura e metodologias participativas.
Entre os participantes, apareceu com frequência uma distinção entre violência e formas de punição consideradas “leves”. Em comunidades afetadas pela violência armada, a rigidez também apareceu associada à ideia de proteção: endurecer a criança dentro de casa para prepará-la para os perigos encontrados fora dela.
O estudo também identifica uma distribuição desigual do cuidado: grande parte das responsabilidades permanece sobre mães e outras mulheres. O UNICEF inclui, entre suas recomendações, mobilizar homens no cuidado e fortalecer redes que reduzam essa sobrecarga.
Para um pai negro, onde termina a preparação de um filho para um mundo hostil — e onde começa a reprodução dessa hostilidade dentro de casa?
É uma pesquisa qualitativa realizada em territórios específicos. Os resultados não representam estatisticamente a população brasileira. O estudo contextualiza desigualdades raciais, mas seus achados qualitativos não permitem atribuir cada padrão encontrado especificamente às famílias negras.
E quando um menino se torna pai: quem cuida dele?
Uma revisão de escopo publicada no BMJ Open procurou intervenções destinadas à saúde e ao bem-estar socioeconômico de mães e pais jovens na África.
Foram encontrados 13 estudos revisados por pares em sete países africanos: dois ensaios randomizados, sete estudos quase-experimentais, dois de métodos mistos e dois qualitativos.
Mas existe uma ausência importante: embora a revisão procurasse intervenções para mães e pais de 10 a 24 anos, todos os programas encontrados eram direcionados às mães jovens. Os pais jovens ficaram ausentes da base de intervenções avaliadas.
Quando um adolescente ou jovem se torna pai no Brasil, quem o procura? A escola? A UBS? O CRAS? A maternidade? Ou esperamos que ele descubra sozinho como ocupar esse lugar?
Limite: trata-se de uma revisão da literatura africana publicada em inglês e francês. A ausência de intervenções encontradas para pais jovens não demonstra que elas não existam fora da literatura analisada e não descreve a realidade brasileira.
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Estar no serviço não significa ser visto pelo serviço
Heike Edmaier e Jennifer Bagehorn publicaram em 29 de setembro uma pesquisa sobre saúde mental paterna no período perinatal e sobre como os serviços poderiam incorporar melhor as experiências dos pais.
O estudo foi realizado na Suíça de língua alemã e envolveu 21 pais de crianças com menos de três anos, além de profissionais. Foram realizadas 14 entrevistas individuais, dois grupos focais, quatro entrevistas com profissionais e oficinas de cocriação.
Uma das contribuições mais interessantes está no deslocamento da própria ideia de sofrimento. Os pesquisadores encontraram tensões não apenas no indivíduo, mas na relação entre orientação emocional, formas de enfrentamento e o modo como as instituições recebem — ou não recebem — aquele pai.
Incluir o pai no cuidado não pode significar apenas ensiná-lo a cuidar dos outros.
Limite: é um estudo qualitativo, com amostra pequena e autoselecionada, realizado dentro do sistema de saúde suíço. Os protótipos desenvolvidos são propostas conceituais, não intervenções cuja eficácia já tenha sido demonstrada.
Família não é a única responsável por produzir proteção
Em 29 de setembro, o Ministério da Justiça e Segurança Pública publicou a Portaria nº 1.312/2026, estabelecendo o funcionamento do Centro Nacional de Triagem de Notificações e os procedimentos para relatórios previstos no ECA Digital e em sua regulamentação.
A norma cria um fluxo nacional para notificações relacionadas a crimes contra crianças e adolescentes em plataformas digitais e autoriza a Polícia Federal a instituir uma força integrada para o enfrentamento de crimes organizados no ambiente cibernético.
Isso ainda não é resultado de política pública. É uma etapa de implementação. Mas reforça um deslocamento que o Observatório já vinha acompanhando: proteger crianças no digital não pode significar transferir toda a responsabilidade para pais e responsáveis.
Publicar a norma não demonstra que o sistema já esteja funcionando plenamente nem que as medidas sejam eficazes. O Observatório vai acompanhar a regulamentação operacional, o credenciamento das plataformas e os primeiros dados de execução.
Talvez “pais precisam participar mais” seja uma frase verdadeira — e ainda assim pequena demais.
As pesquisas desta edição deslocam a pergunta da disposição individual para as condições do cuidado. Quem possui tempo? Quem é reconhecido pelos serviços? Quem recebe repertório? Quem sustenta a maior parte do trabalho? Que instituições procuram um jovem quando ele se torna pai? E o que acontece quando o território ensina que proteger também significa endurecer?
Três perguntas que o PP precisa continuar perseguindo
A pesquisa encontra padrões. A experiência mostra como eles atravessam uma vida.
Nesta edição não temos entrevista. Mas o Observatório continua procurando pais negros dispostos a contar como vivem a paternidade no cotidiano. Não buscamos pais perfeitos nem histórias extraordinárias. Trabalho, cansaço, cuidado, afeto, medo, racismo, erros, mudanças e aprendizados também fazem parte dessa pesquisa.
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→ a implementação efetiva dos novos fluxos do ECA Digital;
→ novos dados brasileiros sobre saúde mental paterna no período perinatal;
→ políticas e serviços destinados a pais adolescentes e jovens;
→ evidências que permitam compreender como raça, renda, trabalho e território alteram as condições concretas do cuidado paterno.
Pesquisa só cumpre sua função quando consegue chegar a quem está cuidando.
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Apoiar o Parentalidade Preta ↗3. E se a proteção começar antes de a criança abrir o aplicativo?
Em 17 de setembro, a Comissão Europeia apresentou a proposta do EU KIDS Act. Entre as medidas previstas estão restrições graduais de acesso às redes sociais segundo a idade, contas com proteção reforçada e novas obrigações para serviços utilizados por menores.
Um dos movimentos mais relevantes está na lógica da proposta: os prestadores terão de demonstrar que seus serviços são adequados à idade e seguros desde a concepção.
A proposta alcança redes sociais, plataformas de vídeo, jogos, companheiros de IA e chatbots. Entre as medidas anunciadas estão perfis privados por padrão para menores, limitação de recursos associados ao uso excessivo, restrição de contatos não solicitados e proteções específicas para chatbots e companheiros de IA.
Limite desta leitura: trata-se de uma proposta legislativa da União Europeia. Ela ainda passa pelo processo legislativo europeu e não constitui regra aplicável ao Brasil. Também não sabemos ainda quais efeitos concretos essas medidas produzirão depois de implementadas.
O interesse para o Observatório não está em importar a solução. Está na mudança da pergunta. Durante muito tempo, proteção digital significou dizer às famílias que deveriam conhecer senhas, estabelecer limites e acompanhar telas. A proposta europeia acrescenta outra camada: por que um produto destinado ou acessível a crianças foi desenhado dessa maneira?
Antes de perguntar por que um pai não impediu determinado uso, precisamos perguntar também por que aquele sistema tornou o risco possível.
4. Responsabilizar plataformas também abre uma disputa sobre os limites da proteção
Na Austrália, o governo publicou em 8 de setembro uma minuta do Online Safety Amendment (Digital Duty of Care) Bill 2026. A consulta sobre o texto terminou ao meio-dia de 22 de setembro, no horário australiano.
A ideia de um dever digital de cuidado procura colocar sobre serviços on-line uma obrigação mais preventiva diante de riscos previsíveis, em vez de depender apenas de respostas depois que um dano acontece.
Como ler: a consulta já está encerrada e o texto publicado é uma minuta. Não se trata de lei australiana em vigor. A experiência entra aqui para mostrar uma disputa regulatória, não como modelo pronto para o Brasil.
Para as famílias, essa tensão importa. Dizer que as empresas também possuem responsabilidade não elimina a mediação parental. Mas dizer que os pais possuem responsabilidade também não pode servir para tornar invisíveis escolhas empresariais, incentivos econômicos e arquiteturas de produto.
Como dividir responsabilidade sem transformar proteção em censura — nem liberdade empresarial em transferência de todo o risco para as famílias?
5. Antes de perguntar o que determinadas comunidades ensinam aos meninos, talvez seja preciso perguntar por que eles entram
Investigações e debates recentes sobre comunidades digitais frequentadas por adolescentes têm colocado misoginia, violência, automutilação, radicalização e outras formas de dano no centro da discussão pública.
Há uma pergunta anterior que ainda recebe menos atenção: o que essas comunidades oferecem aos meninos antes de oferecer uma visão de mundo?
Pertencimento, reconhecimento, linguagem para frustração, identidade, hierarquia, amizade, inimigos comuns ou a sensação de finalmente ser compreendido são hipóteses que merecem investigação. Esta edição não possui evidência suficiente para dizer quais delas explicam a entrada ou permanência de meninos brasileiros nesses espaços.
Limite desta leitura: não há base nesta edição para tratar meninos usuários de determinadas plataformas como radicalizados, violentos ou misóginos. Também não há desagregação racial que permita atribuir essas dinâmicas especificamente a meninos negros.
Para o PP, esse limite é importante. Uma abordagem racializada das masculinidades não pode começar transformando meninos negros em risco antecipado. Precisa perguntar também sobre amizade, solidão, reconhecimento, condições materiais, racismo, pertencimento e os lugares onde esses meninos conseguem falar.
O que um menino encontra numa comunidade digital que não estava encontrando fora dela?
6. Onde estão raça, classe e território quando discutimos parentalidade digital?
Os principais materiais encontrados nesta semana não oferecem desagregação suficiente para dizer como uso de companheiros de IA, exposição a determinados riscos digitais ou capacidade de mediação parental se distribuem racialmente entre famílias brasileiras.
Isso impede uma conclusão racial. Não impede uma agenda de pesquisa.
A orientação para que um pai acompanhe intensamente a vida digital de uma criança pressupõe tempo, acesso, repertório tecnológico, proximidade cotidiana e alguma possibilidade de negociar jornada de trabalho e cuidado. Essas condições não são iguais entre famílias. O que ainda precisa ser demonstrado é como essas diferenças aparecem quando raça, renda, território e configuração familiar são observados conjuntamente no Brasil.
Estamos construindo políticas de proteção digital supondo um pai que possui tempo, acesso e condições de cuidado que muitos pais brasileiros não possuem?
Debates emergentes e caminhos para o PP
Três perguntas que merecem continuar depois desta edição
1. Quem cuida do vínculo quando a IA aprende a simular vínculo?
Possibilidade para o PP: ouvir adolescentes e seus responsáveis separadamente sobre o que procuram, permitem, escondem, temem e negociam no uso de IA. Pode virar episódio, roda intergeracional ou pesquisa exploratória.
2. Quanto custa, em tempo, exercer a chamada “mediação parental”?
Possibilidade para o PP: investigar mediação digital junto com jornada, deslocamento, guarda, renda e divisão do cuidado. A pergunta pode produzir levantamento próprio sobre pais negros brasileiros sem presumir antecipadamente o resultado.
3. O que os meninos procuram quando procuram pertencimento on-line?
Possibilidade para o PP: deslocar o debate da manosfera exclusivamente como conteúdo ideológico para investigar amizade masculina, reconhecimento, solidão, racismo, frustração, trabalho, sexualidade e pertencimento. Pode sustentar uma roda, uma série de entrevistas ou formação para famílias.
O que mudou nesta semana?
Não apareceu um grande dado nacional novo sobre paternidades. O movimento mais importante aconteceu em outro lugar: a responsabilidade pela proteção digital das crianças começou a ser discutida de maneira menos concentrada nas famílias.
O Brasil começa a testar a implementação do ECA Digital. A União Europeia propõe segurança desde a concepção dos produtos. A Austrália discute um dever digital de cuidado. E um novo preprint lembra que, mesmo quando adultos observam uma mesma tecnologia, talvez não estejam vendo aquilo que adolescentes dizem encontrar nela.
Para um observatório de paternidades, isso muda a pergunta. Não basta saber se um pai acompanha o celular do filho. Precisamos investigar quais condições esse pai possui para cuidar, o que a criança procura naquele ambiente e quem mais responde pelas condições em que esse encontro acontece.
O que acompanhar nas próximas semanas
- desdobramentos da análise dos 13 companheiros de IA pela ANPD e pela Senacon;
- implementação dos novos fluxos de comunicação previstos pelo MJSP;
- tramitação efetiva do EU KIDS Act;
- próximos passos da proposta australiana após o encerramento da consulta;
- pesquisas brasileiras capazes de cruzar parentalidade digital, raça, renda, território, jornada de trabalho e configuração familiar.
Parentalidade Preta
Este trabalho precisa continuar podendo fazer perguntas difíceis sem depender de respostas convenientes.
O Observatório das Paternidades é parte do trabalho de pesquisa, escuta e análise do Parentalidade Preta. O apoio recorrente ajuda a sustentar ferramentas, pesquisa, produção e tempo de trabalho.
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O Observatório das Paternidades acompanha pesquisas acadêmicas, dados públicos, políticas, legislação, experiências comunitárias, organizações e jornalismo profissional relacionados a paternidades, masculinidades, cuidado, infância, raça, trabalho e relações familiares.
A seleção desta edição cobreu materiais publicados ou atualizados entre 16 e 23 de setembro de 2026. Estudos estrangeiros são utilizados para formular perguntas, não para estimar automaticamente a realidade brasileira. Relatos institucionais não são tratados como avaliações independentes. Ausência de desagregação racial é registrada como limite, não preenchida por inferência.
Agora queremos ouvir quem vive a paternidade.
Toda semana, o Observatório procura pesquisas, políticas públicas, experiências e debates sobre paternidades. Mas os dados não contam, sozinhos, como essas questões atravessam uma vida.
Por isso, queremos ouvir pais negros. Não estamos procurando pais perfeitos, especialistas ou histórias extraordinárias. Queremos conhecer o cotidiano: trabalho, cansaço, presença, cuidado, afeto, medo, racismo, erros, mudanças, conflitos e aprendizados.
Como é ser pai negro no Brasil que existe hoje?
A entrevista é um espaço para você contar sua experiência com suas próprias palavras. Algumas respostas poderão ajudar o Observatório a encontrar perguntas que ainda não aparecem nas pesquisas e, mediante autorização, algumas histórias poderão integrar futuras edições de Um pai, uma experiência.
Uma experiência individual não será tratada como prova de uma realidade coletiva. Ela entra aqui pelo que é: a experiência de um homem, situada em uma vida concreta, que pode nos ajudar a formular perguntas melhores.
Quero responder à entrevista ↗Responder não significa publicação automática. O Parentalidade Preta poderá entrar em contato caso sua experiência dialogue com uma futura investigação do Observatório. Qualquer utilização pública do relato respeitará as autorizações correspondentes.
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