Parentalidade Preta · Pesquisa, escuta e análise
Observatório das Paternidades
Paternidade negra, saúde mental paterna, trabalho e cuidado: o que aparece quando deixamos de perguntar apenas se o pai está presente?
O que significa exercer a paternidade quando raça, trabalho, saúde e condições concretas de cuidado entram na conversa? Nesta edição, o Parentalidade Preta acompanha pesquisas recentes, políticas públicas e experiências comunitárias para entender o que os debates sobre paternidade ainda deixam de fora.
O radar desta semana passa pela saúde mental dos pais no pós-parto, pela socialização racial de crianças negras, pela licença-paternidade no Brasil e pelas redes de cuidado que incluem pais não residentes, avôs, tios e vínculos socioafetivos. A pesquisa encontra a experiência: Eduardo fala sobre criar um filho, proteger, trabalhar, cansar, aprender a ter paciência e tentar não repetir violências recebidas na própria infância.
Observatório das Paternidades #2 · Nesta edição
Presença explica pouco sozinha. Quem pergunta como esse pai está? Como o racismo entra no trabalho de proteger uma criança? Quanto do cuidado cabe depois do expediente? E quem mais participa da criação quando olhamos além do pai biológico que mora com o filho?
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O que acontece quando paramos de perguntar apenas se um pai está presente e começamos a investigar como ele está vivendo a paternidade? Nesta edição do Observatório das Paternidades, a paternidade negra é o ponto de partida para acompanhar pesquisas recentes sobre racismo, saúde mental paterna, masculinidades, trabalho e redes de cuidado.
Um estudo recém-publicado ouviu pais negros sobre vínculo e medo pela segurança dos filhos. Outra pesquisa testou uma ferramenta criada para reconhecer formas de sofrimento paterno que podem escapar de instrumentos convencionais. E um estudo sobre homens mais velhos chama atenção para uma solidão que nem sempre recebe esse nome.
No Brasil, essas evidências não oferecem respostas automáticas. Elas ajudam a formular perguntas sobre pais negros, racismo, trabalho, saúde mental, cuidado e redes familiares que ainda precisam ser investigadas em nosso próprio contexto.
Três movimentos para acompanhar
- O medo também pode fazer parte do trabalho de proteção exercido por pais negros, mas precisamos investigar como isso aparece no Brasil.
- Saúde mental paterna pode exigir outras formas de escuta, inclusive depois que a criança nasce.
- Trabalho, utilidade e reconhecimento atravessam a experiência masculina e podem ajudar a entender aquilo que os homens conseguem ou não nomear.
Como ler esta edição: estudos realizados em outros países ajudam a identificar perguntas e possibilidades de investigação. Eles não serão usados como estimativas da realidade brasileira.
Nesta edição, o Observatório também publica uma entrevista com um pai negro. A experiência de Eduardo é tratada como experiência individual: ela não representa todos os pais negros nem funciona como comprovação dos estudos apresentados.
1. Paternidade negra: quando proteger os filhos também significa conviver com o medo
Um estudo qualitativo publicado em 11 de setembro no The Family Journal investigou experiências vividas por pais negros nos Estados Unidos no atual contexto sociopolítico daquele país.
Segundo o resumo publicado pelos pesquisadores, os participantes demonstraram forte vínculo com os filhos, mas também relataram medo e ansiedade relacionados à segurança das crianças. Os autores descrevem práticas de resistência mobilizadas por esses homens diante desse contexto.
Limite desta leitura: trata-se de uma pesquisa realizada com pais negros nos Estados Unidos. Contexto racial, instituições, violência e relações familiares não podem ser transpostos automaticamente para pais negros brasileiros.
Para o Parentalidade Preta, o estudo interessa justamente porque abre uma pergunta brasileira sobre paternidade negra. Falar desses pais apenas em termos de presença ou ausência pode deixar de fora aquilo que um homem precisa antecipar, explicar e tentar proteger quando cria uma criança em uma sociedade racializada.
Como pais negros brasileiros preparam seus filhos para aquilo que sabem que o racismo pode produzir?
2. Talvez estejamos procurando sofrimento paterno do jeito errado
Pesquisadores italianos publicaram a validação pós-natal do Gender-Sensitive Screening for Paternal Mental Health: Psychometric properties of the Perinatal Assessment of Paternal Affectivity (PAPA) for the postnatal period, instrumento desenvolvido especificamente para avaliar sintomas afetivos paternos no período perinatal.
A pesquisa reuniu 221 pais com filhos entre 1 e 15 meses. O ponto que merece atenção é metodológico: os autores consideram formas de sofrimento que também podem aparecer por externalização, somatização e tendências aditivas.
Limite: a amostra é italiana e foi obtida por questionário on-line. O estudo não permite estimar prevalência de sofrimento mental entre pais brasileiros.
Para o Observatório, a pergunta não é qual instrumento o Brasil deveria importar. É anterior: quando um homem se torna pai, nossos serviços continuam olhando para a saúde dele depois do nascimento?
Depois que a criança nasce, quem continua perguntando como esse pai está?
3. E se alguns homens só conseguirem falar da solidão quando falam de utilidade?
Um estudo qualitativo longitudinal publicado em 8 de setembro acompanhou 32 homens com 60 anos ou mais, residentes em Lisboa, utilizando histórias de vida, diários produzidos pelos participantes e entrevistas de acompanhamento.
A pesquisa encontrou algo particularmente interessante para o debate sobre masculinidades: conexão não aparecia apenas como ter pessoas por perto. Também envolvia ser esperado, consultado, necessário e capaz de contribuir.
Limite: a pesquisa trata de homens mais velhos em Lisboa e não especificamente de pais. Ela entra no Observatório como investigação sobre masculinidades, vínculos e saúde mental — não como evidência sobre pais brasileiros.
A pergunta que interessa ao PP é maior que o estudo. Se muitos homens aprendem a organizar valor pessoal em torno daquilo que fazem, produzem ou resolvem, o que acontece quando perdem função, trabalho, autoridade ou a sensação de serem necessários?
Quantos homens conseguem dizer “estou só” antes de dizer “ninguém precisa mais de mim”?
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Paternidade negra vivida: uma conversa com Eduardo
Entre os estudos e documentos desta edição, o Observatório abre espaço para uma experiência concreta de paternidade negra. Eduardo, de São Paulo, fala sobre vínculo, trabalho, cansaço, raça, proteção e sobre aquilo que precisou reconstruir em si mesmo para cuidar.
Esta entrevista não é uma amostra da experiência dos pais negros brasileiros. É uma experiência individual colocada em diálogo com as perguntas que o Observatório acompanha.
Eduardo
“Estou tentando blindá-lo da maioria das violências que eu recebi quando criança.”
O que a paternidade fez com o homem que você era?
“Me fez ser menos compulsivo e pensar mais no meu bem-estar e da minha esposa.”
Em que parte da sua experiência de ser pai aparece o fato de você ser um homem negro?
“Como meu filho tem a pele clara e eu não, às vezes algumas pessoas perguntam se sou pai dele em ambientes públicos. Mas, por enquanto, não tive problemas maiores, apesar do desconforto que esta situação causa.”
Que cena do cotidiano explica melhor a relação entre vocês?
“Meu filho prefere que eu o leve para a escola e sempre prefere que eu conte a história antes de dormir. De certa forma, ele me vê como um irmão mais velho, de tão parceiro que sou. Ao menos é o que percebo do comportamento dele.”
Qual é hoje a principal dificuldade?
“Trabalho, pois muitas vezes quando ele chega da escola eu ainda estou trabalhando. Também fico muito cansado de dar atenção a ele o tempo todo.”
O que você precisou desaprender ou reconstruir para cuidar?
“Eu precisei aprender a ser muito mais paciente com ele e entender que ele tem o tempo dele. Estou tentando blindá-lo da maioria das violências que eu recebi quando criança.”
Quando precisa de apoio, onde procura?
“Eu ainda não pedi ajuda, mas tenho tentado me inspirar nos capítulos do Parentalidade Preta. Às vezes também desabafo com minha esposa, mas é raro.”
O que ainda é pouco discutido quando falamos da experiência de pais negros?
“Adoção é um assunto interessante: eu penso em futuramente adotar. Outra questão ainda mais central é focar na solidão da paternidade, principalmente quando a esposa ou ex está contra algo que você considera muito importante ou até mesmo sagrado.”
O que Eduardo gostaria que outro pai levasse daqui
“Estar presente pode parecer pouco, mas pode significar tudo.”
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4. A política conta dias. A vida também precisa contar horas.
A ampliação da licença-paternidade brasileira foi estabelecida pela Lei nº 15.371/2026, a lei entra em vigor em 1º de janeiro de 2027 e prevê ampliação gradual da licença.
- 10 dias a partir de 2027;
- 15 dias a partir de 2028;
- 20 dias a partir de 2029, observada a condição prevista pela própria legislação.
Mas acompanhar a política daqui para frente exige outra pergunta: quem conseguirá transformar um direito formal em tempo real de cuidado? Vínculo de trabalho, proteção social, renda, informalidade, raça e território precisam entrar nessa investigação.
A experiência de Eduardo acrescenta uma escala cotidiana à questão: muitas vezes, quando o filho chega da escola, ele ainda está trabalhando. Um relato individual não responde ao problema. Ajuda a mostrar por que o debate sobre tempo de cuidado não termina quando a licença acaba.
Quanto tempo para cuidar realmente cabe dentro da jornada de trabalho de um pai?
5. Quem é pai quando a história de cuidado é maior que a biologia?
Em 16 de setembro, o Tribunal de Justiça de Santa Catarina divulgou uma decisão da 2ª Vara Cível de São Bento do Sul que reconheceu paternidade e maternidade socioafetivas; o pai socioafetivo já havia falecido..
Entre os elementos considerados estavam um termo de guarda e responsabilidade de 1977, documentos e declarações familiares relacionadas ao vínculo construído ao longo dos anos.
O que esta notícia não significa: trata-se de uma decisão de primeira instância em um caso concreto. Ela não constitui, por si só, uma nova regra nacional sobre filiação socioafetiva.
Para um observatório sobre paternidades, o caso interessa porque desloca novamente a pergunta da presença física para a história de vínculo, reconhecimento e cuidado.
Talvez “pai presente” seja uma categoria pequena demais para explicar todas as formas pelas quais alguém se torna pai.
6. Às vezes, olhar para os pais exige olhar também para tios e avôs
Um relato publicado pelo GPE KIX descreve uma experiência de educação comunitária para a primeira infância em seis escolas da Guatemala e de Honduras.
A iniciativa reuniu formação docente, mudanças nos espaços escolares e atividades relacionadas a masculinidades e cuidado. No relato, aparecem também tios e avôs exercendo funções de cuidado em famílias nas quais a migração separa pais de seus filhos.
Como ler: esta é uma publicação do próprio programa, e não uma avaliação independente de impacto.
O ponto que interessa ao PP não é importar a experiência. É observar uma pergunta que também pode ser feita por aqui: quando investigamos quem cuida de uma criança, quais homens desaparecem se procurarmos apenas pelo pai biológico residente?
Quem são os outros homens que ajudam a criar nossas crianças?
7. Duas portas abertas para aprofundar a conversa
Juntas, essas pistas mostram por que investigar paternidade negra exige olhar além da presença: para tempo, renda, saúde, racismo, vínculos familiares e para os outros homens que também participam do cuidado.
Há pesquisa para ler. E há pesquisa para fazer.
- Como pais negros brasileiros preparam seus filhos para o racismo?
- Quem acompanha a saúde mental do pai depois do nascimento?
- O que trabalho e renda permitem — ou impedem — na experiência cotidiana do cuidado?
- Quem são os outros homens que ajudam a criar nossas crianças?
A próxima edição também vai ouvir um pai negro
Eduardo contou uma experiência. Não procuramos alguém para confirmar a história dele na próxima semana.
Quero ouvir outra experiência de paternidade negra: o cotidiano, as contradições, aquilo que pesa, aquilo que mudou, o que precisou ser aprendido e o que quase nunca aparece quando falamos sobre pais negros.
Contar minha experiência ↗No formulário, você escolhe como deseja ser identificado e quais usos autoriza para suas respostas e fotografias. O envio não garante publicação integral.
Sobre a apuração do Observatório das Paternidades
Esta edição foi construída a partir de artigos científicos, documentos públicos, legislação, páginas institucionais e materiais das iniciativas citadas, consultados até 16 de setembro de 2026.
Estudos e experiências realizados fora do Brasil são apresentados com seu contexto de origem e não são utilizados como estimativas automáticas da realidade brasileira. Quando a fonte representa a própria instituição ou iniciativa descrita, seu caráter institucional é indicado.
A entrevista com Eduardo é apresentada como experiência individual, e não como amostra representativa da paternidade negra no Brasil. O entrevistado autorizou a publicação dos trechos e das fotografias utilizados.
As perguntas formuladas pelo Parentalidade Preta são perguntas editoriais do Observatório das Paternidades. Elas indicam caminhos de investigação e não antecipam resultados.
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