O Brasil fala de pai como se todo mundo vivesse no mesmo lugar.
Observatório das Paternidades · Edição #09
O Brasil fala de pai como se todo mundo vivesse no mesmo lugar.
Nesta semana, uma proposta sobre paternidade responsável entrou em tramitação no Amazonas e a Fiocruz ampliou ações sobre masculinidades e violência. Entre leis, formações e dados regionais, o Observatório pergunta o que ainda fica fora da pesquisa: raça, renda, território, trabalho e as condições concretas para cuidar.
RADAR SEMANAL · 29 DE OUTUBRO A 4 DE NOVEMBRO DE 2026
Fechamento editorial: 4 de novembro de 2026
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Falar de paternidade no Brasil como se todos os pais atravessassem as mesmas portas produz uma imagem falsa do país.
Nesta edição, o Observatório encontrou uma proposta de política estadual no Amazonas, uma ação institucional da Fiocruz e diferenças regionais que impedem qualquer conversa apressada sobre “o pai brasileiro”.
São movimentos importantes. Mas uma proposta não é execução, uma formação não é resultado e uma certidão não mede cuidado. É nesse intervalo que a pesquisa começa.
01 / NORTE · POLÍTICA EM TRAMITAÇÃO
O Amazonas colocou a paternidade responsável em discussão. Ainda falta saber o que ela pode virar.
O Projeto de Lei nº 137/2026 entrou em tramitação na Assembleia Legislativa do Amazonas. O texto propõe diretrizes estaduais para promoção da paternidade responsável e a criação do Dia Estadual da Paternidade.
O fato de uma proposta existir importa. Ela reconhece que paternidade não pode ser tratada apenas como assunto privado ou obrigação financeira. Mas, até aqui, não há política implementada para avaliar.
2026
O que não está documentado: orçamento, equipe, regulamentação, serviços, metas, cobertura territorial ou resultado.
Leitura do Observatório: o texto só terá força real se alcançar os lugares onde a paternidade já encontra o Estado: UBS, escolas, CRAS, sistema de justiça, trabalho e assistência social. Também será preciso perguntar quais homens conseguem acessar essas portas — e quais seguem tratados apenas como ausência.
DO
AMAZONAS
02 / NORDESTE E SUDESTE · MASCULINIDADES
A Fiocruz chama homens para o debate. O próximo passo é medir o que muda.
A Fiocruz anunciou a incorporação da Campanha Laço Branco à sua agenda institucional. O lançamento ocorrerá no Rio de Janeiro, mas a iniciativa envolve unidades e escritórios em diferentes territórios do país.
Em Pernambuco, a experiência anterior do curso “Masculinidades, machismos e outras conversas entre homens” reuniu 30 trabalhadores entre novembro de 2024 e abril de 2026. Uma nova edição recebe inscrições até 13 de novembro.
Formação entre homens pode abrir conversa.
Não prova mudança por si só.
A informação disponível não permite afirmar redução de violência, melhoria na divisão do cuidado ou transformação do ambiente institucional. A formação é uma ação real. Seu impacto ainda precisa ser acompanhado.
Pergunta do Observatório: depois que homens participam de uma formação sobre machismo e violência, o que muda na relação com companheiras, filhos, colegas e serviços públicos?
PE
A pergunta que leva ao segundo bloco
Se uma política muda de estado para estado, o que a média brasileira ainda esconde sobre pais, crianças e redes de cuidado?
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03 / DADOS REGIONAIS E DIREITO À FILIAÇÃO
O país muda quando a paternidade deixa de ser uma média.
O Índice de Desenvolvimento das Paternidades, publicado em 2026, reúne indicadores estaduais sobre envolvimento paterno e corresponsabilidade familiar. O relatório permite enxergar diferenças que desaparecem quando a conversa fica apenas no plano nacional.
Um dado chama atenção: segundo o estudo, no Paraná a proporção estimada é de cerca de uma criança sem registro paterno para cada vinte nascimentos. No Amapá, a relação chega a uma para cada oito.
Proporção estimada pelo relatório no Paraná.
Proporção estimada pelo relatório no Amapá.
Mas o cuidado metodológico é decisivo: ausência de nome paterno em uma certidão não prova abandono, ausência de vínculo ou inexistência de uma rede familiar. Registro civil mede registro civil.
Leitura do Observatório: o dado vale porque revela desigualdade territorial no acesso a direitos. Ele não autoriza transformar famílias em diagnóstico moral, nem pais negros em sinônimo de ausência.
POR
ESTADO
04 / TRABALHO E TEMPO DE CUIDADO
Tempo protegido para cuidar continua sendo uma disputa.
A Lei nº 15.371/2026 regulamentou a licença-paternidade e criou o salário-paternidade. A ampliação será gradual: dez dias em 2027, quinze em 2028 e vinte em 2029, observadas as regras legais para a última etapa.
A nova proteção inclui nascimento, adoção e guarda judicial para adoção, alcançando também MEIs, trabalhadores domésticos, avulsos e segurados especiais. É um avanço importante porque amplia a proteção para além do emprego formal tradicional.
Licença não produz cuidado sozinha.
Mas sem tempo, cuidado vira privilégio.
O que ainda precisa de resposta pública: como será a regulamentação, quem conhecerá o direito, quantos homens conseguirão acessá-lo e como raça, informalidade e território atravessarão esse acesso.
DE
CUIDAR
05 / SUL GLOBAL EM DIÁLOGO
O que vem de fora não vem pronto.
O Programa P foi construído com participação de organizações da Nicarágua, Chile e Brasil e teve adaptações em países da América Latina, África e Ásia. A proposta trabalha paternidade, divisão do trabalho doméstico, saúde materna e prevenção de violências.
O material institucional relata experiências em ao menos 18 países. Isso mostra que o cuidado paterno pode ser tratado como política e trabalho comunitário em muitos contextos do Sul Global.
O que ela não oferece: um modelo pronto para o Brasil, muito menos para todos os seus territórios.
Para o PP, a questão é outra: como raça, trabalho informal, deslocamento, violência territorial e relação com os serviços públicos mudam as condições de cuidado de pais negros brasileiros?
Agora quero ouvir quem vive a paternidade.
Toda semana, o Observatório procura pesquisas, políticas públicas, experiências e debates sobre paternidades. Mas os dados não contam, sozinhos, como essas questões atravessam uma vida.
Por isso, quero ouvir pais negros. Não estou procurando pais perfeitos, especialistas ou histórias extraordinárias. Quero conhecer o cotidiano: trabalho, cansaço, presença, cuidado, afeto, medo, racismo, erros, mudanças, conflitos e aprendizados.
Como é ser pai negro no Brasil que existe hoje?
A entrevista é um espaço para você contar sua experiência com suas próprias palavras. Algumas respostas poderão ajudar o Observatório a encontrar perguntas que ainda não aparecem nas pesquisas e, mediante autorização, algumas histórias poderão integrar futuras edições de Um pai, uma experiência.
Uma experiência individual não será tratada como prova de uma realidade coletiva. Ela entra aqui pelo que é: a experiência de um homem, situada em uma vida concreta, que pode nos ajudar a formular perguntas melhores.
Quero responder à entrevista ↗Responder não significa publicação automática. O Parentalidade Preta poderá entrar em contato caso sua experiência dialogue com uma futura investigação do Observatório. Qualquer utilização pública do relato respeitará as autorizações correspondentes.
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