E se o Estado também cuidasse dos homens?
Observatório das Paternidades · Edição #07
Quando o pai negro está presente, quem o reconhece?
Pais chegam ao pré-natal, à consulta dos filhos, aos serviços públicos e à vida cotidiana do cuidado. Mas presença não significa reconhecimento. Nesta edição, dados, políticas e a experiência de um pai negro ajudam a perguntar quem ainda é visto como cuidador.
RADAR SEMANAL · 16 A 22 DE OUTUBRO DE 2026
Fechamento editorial: 22 de outubro de 2026
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Existe uma distância entre estar presente e ser reconhecido como alguém capaz de cuidar.
Ela aparece quando um homem acompanha uma gestação, entra numa consulta, procura um serviço público ou tenta participar das decisões sobre a própria criança.
O radar desta semana encontrou estudos e experiências públicas que ajudam a olhar para essa distância. Eles não contam a mesma história. Também não autorizam uma conclusão nacional. Mas colocam uma pergunta importante para o Observatório: o que as instituições fazem quando os pais realmente chegam?
Para pais negros, existe uma segunda camada. Os dados brasileiros encontrados nesta semana quase nunca informam raça ou cor. Assim, sabemos que homens acessam determinados serviços. Ainda sabemos pouco sobre quais homens são acolhidos, escutados e reconhecidos como cuidadores.
01 / PATERNIDADE E SAÚDE
E se o pré-natal também cuidasse do pai?
Uma pesquisa publicada em 21 de outubro na BMC Health Services Research avaliou uma consulta de saúde destinada especificamente a futuros pais em uma maternidade pública de Montreuil, na região metropolitana de Paris.
futuros pais participaram da consulta de saúde analisada pelo projeto PARTAGE.
Entre os participantes, 37% nunca haviam realizado um teste para HIV. A equipe identificou doença ou retomou tratamento interrompido em 18% dos atendidos. Outros 17% receberam encaminhamento para profissionais de saúde e 11% para assistência social.
A consulta também verificava vacinação, acesso a direitos e outras necessidades de saúde. O pai não entrava ali apenas como acompanhante da gestante. Ele próprio era paciente.
O que ele não mostra: não houve grupo de controle, o estudo ocorreu em uma única maternidade e não é possível transferir seus resultados automaticamente para o SUS.
Há ainda um cuidado racial importante. O estudo encontrou diferenças associadas ao país de nascimento, inclusive entre homens nascidos na África Subsaariana. Isso não equivale a uma classificação racial e não permite transformar o achado em dado sobre “pais negros”.
Leitura do Observatório: o Brasil já possui a Estratégia Pré-Natal do Parceiro. A questão não é simplesmente importar a experiência francesa. É investigar se aquilo que já existe no SUS funciona, na ponta, como cuidado de saúde para o homem ou apenas como uma convocação para que ele acompanhe a gestante.
PESQUISA REVISADA POR PARES · 21/10/2026 PARTAGE: consulta preventiva de saúde para futuros pais BMC Health Services Research · Ler o artigo ↗02 / SAÚDE MENTAL E VÍNCULO
Estar na sala não significa participar do cuidado
Uma revisão clínica publicada em 16 de outubro por Rajesh Mehta, do Children’s Hospital of The King’s Daughters, nos Estados Unidos, discute a participação de pais e figuras paternas no cuidado em saúde mental de crianças e adolescentes.
O ponto mais útil para esta edição é simples: presença física, residência e envolvimento não são a mesma coisa.
Um pai pode morar longe e participar profundamente. Pode morar na mesma casa e participar pouco. Pode estar na consulta e continuar fora da conversa.
A revisão aponta barreiras concretas: jornadas de trabalho, conflitos entre cuidadores, separações, estigma e serviços que se comunicam automaticamente com apenas um adulto da família.
O autor também evita uma simplificação importante. A participação paterna não deve ser presumida como benéfica em qualquer contexto. Segurança da criança, qualidade da relação e proteção dos demais cuidadores continuam centrais.
Leitura do Observatório: medir quantos pais comparecem a uma consulta é pouco. Precisamos saber quem recebe informação, quem é ouvido, quem participa das decisões e de que maneira o serviço lida com pais não residentes, socioafetivos e outras configurações familiares.
E aqui a ausência de informação racial brasileira volta a aparecer. Não encontramos nesta semana dados capazes de dizer se pais negros são reconhecidos da mesma maneira nesses espaços.
REVISÃO CLÍNICA · 16/10/2026 Participação paterna no cuidado em saúde mental de crianças e adolescentes PubMed · Consultar publicação ↗03 / FILIAÇÃO, DIREITOS E ESTADO
O nome entra na certidão. E depois?
Em Minas Gerais, a Defensoria Pública colocou em execução nesta semana a 14ª edição do mutirão Direito a Ter Pai, em 29 unidades.
inscrições contabilizadas em 27 unidades na atualização consultada.
exames de DNA agendados.
O desenho do mutirão não termina no exame. As sessões também podem tratar de reconhecimento espontâneo, guarda, alimentos, convivência e outras questões relacionadas à filiação.
No Rio de Janeiro, uma nova etapa da campanha Meu Pai Tem Nome ofereceu em 21 de outubro exames de DNA e orientação jurídica na Central do Brasil. Até o fechamento desta edição, ainda não havia balanço público com os resultados da ação.
Da mesma forma, reconhecer juridicamente uma filiação não informa sozinho o que acontece depois com convivência, cuidado cotidiano, renda, conflitos, vínculos ou participação nas decisões sobre a criança.
Leitura do Observatório: o Estado brasileiro já sabe contar inscrições, exames e reconhecimentos. Ainda precisamos saber se acompanha aquilo que vem depois.
E novamente falta uma informação decisiva: quem são racialmente as famílias que chegam a esses serviços?
SERVIÇO PÚBLICO · MINAS GERAIS Mutirão Direito a Ter Pai Defensoria Pública de Minas Gerais · Conhecer o projeto ↗Uma pergunta começa a atravessar a edição
Quando um pai tenta ocupar o lugar do cuidado, as instituições sabem enxergá-lo?
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04 / MASCULINIDADES, TRABALHO E AFETO
Quando prover não dá conta de tudo
Na Cidade do Cabo, na África do Sul, uma pesquisa de mestrado divulgada nesta semana ouviu dez pais muçulmanos de Hanover Park sobre trabalho, provisão, religião, autoridade e afeto.
A pesquisa foi conduzida por Aneeqah Meyer, do Departamento de African Feminist Studies da University of Cape Town.
Alguns homens queriam ser provedores e emocionalmente presentes ao mesmo tempo. Quando o dinheiro faltava, apareciam culpa, inadequação e sensação de fracasso.
Homens criados em ambientes onde carinho e vulnerabilidade eram pouco demonstrados disseram desejar relações diferentes com os próprios filhos. Isso não significa que conseguiram abandonar automaticamente aquilo que aprenderam.
Desemprego, desigualdade territorial e a história racial da África do Sul aparecem no trabalho como condições concretas. Não como desculpa para práticas prejudiciais, mas como parte do chão onde essas masculinidades são construídas.
Leitura do Observatório: talvez a pergunta brasileira não seja como convencer homens de que dinheiro não importa. Dinheiro importa. Trabalho importa. A questão é o que acontece quando ser provedor continua organizando parte importante da identidade masculina, mas as condições materiais para prover são instáveis.
PESQUISA QUALITATIVA · ÁFRICA DO SUL · 21/10/2026 Muslim fatherhood beyond stereotypes in Hanover Park University of Cape Town · Ler divulgação da pesquisa ↗05 / POLÍTICA PÚBLICA
Formar homens é diferente de provar que uma política funciona
No Rio Grande do Sul, o Programa H — Masculinidades: Refletir para Transformar — abriu 1.500 vagas para uma formação gratuita e a distância sobre masculinidades, equidade e prevenção das violências.
O desenho divulgado prevê também ações presenciais nas macrorregiões e acompanhamento técnico em Ronda Alta, São Luiz Gonzaga e Tramandaí.
Isso é mais do que anunciar uma palestra. Existe uma proposta de implementação territorial.
vagas na formação on-line.
municípios indicados para acompanhamento técnico.
Mas uma oferta pública não é, por si só, evidência de impacto. Ainda faltam informações sobre orçamento, perfil racial dos participantes, indicadores de linha de base e mudanças produzidas após a formação.
O Observatório vai acompanhar a passagem entre anúncio, execução e resultado.
IMPLEMENTAÇÃO PÚBLICA · RIO GRANDE DO SUL Programa H — Masculinidades: Refletir para Transformar Governo do Rio Grande do Sul · Ver informações oficiais ↗06 / OUVIR QUEM ESTÁ VIVENDO
“Quando vamos nos enxergar como pai?”
Os dados desta edição perguntam se serviços e políticas conseguem reconhecer os homens como sujeitos do cuidado. Haedo faz essa pergunta de dentro da experiência.
35 a 44 anos · Salvador, Bahia
Pai de duas crianças pequenas.
Esta entrevista faz parte do Observatório das Paternidades. Não buscamos uma história exemplar nem uma definição correta sobre o que significa ser pai.
Queremos registrar experiência.
O que muda. O que pesa. O que homens precisam aprender ou desaprender. O que raça, trabalho, dinheiro, afeto e ausência de rede fazem com uma paternidade concreta.
SOBRE O QUE ELE QUER INTERROMPER
“Fazer com que não aconteça com ela o que aconteceu comigo na infância.”
SOBRE O QUE MARCOU SUA PRÓPRIA EXPERIÊNCIA
“Ser ignorado, incapaz, não ser validado.”
SOBRE O QUE OS FILHOS REPRESENTAM HOJE
“Meus filhos são meu combustível.”
SOBRE O QUE PESA
“Trabalho, ausência de rede e sempre ser desvalidado pela mãe, que é branca.”
Esse é o relato de Haedo sobre a própria relação e deve permanecer nesse lugar. Uma experiência individual não autoriza generalizações sobre relações inter-raciais.
Mas a fala abre uma pergunta que pode ser investigada: raça interfere na maneira como a capacidade de cuidado de um pai é reconhecida dentro da família e pelas instituições ao redor dela?
SOBRE O QUE PRECISOU DESAPRENDER
“Precisei desconstruir a criação que tive dos meus pais.”
SOBRE REDE
“Meus dois melhores amigos e mais ninguém.”
Essa resposta coloca trabalho e cuidado diante de outra estrutura pouco discutida quando falamos de pais: quem cuida de quem cuida?
Famílias não vivem apenas de disposição individual. Precisam de tempo, renda, amizades, parentes, serviços e comunidade.
SOBRE A IMAGEM SOCIAL DO PAI
“É como se ele fosse apenas o provedor, fosse incapaz de dar carinho e afeto.”
Essa fala encontra diretamente a pesquisa de Hanover Park apresentada nesta edição. Provisão e afeto não precisam ser papéis concorrentes. Mas homens podem ser socializados para medir a própria função principalmente pela capacidade de trazer dinheiro para casa.
Quando isso acontece, o cuidado cotidiano corre o risco de permanecer invisível — inclusive para o próprio homem.
UMA PERGUNTA PARA OUTROS PAIS
“Como você lida quando o pediatra te ignora?”
Talvez esteja aqui a conexão mais direta entre a experiência de Haedo e os estudos desta edição.
Um pai pode querer participar. Pode comparecer. Pode fazer perguntas. Pode conhecer a rotina do filho.
Mas participação também depende do que acontece quando ele entra na sala.
Quem recebe a pergunta?
Quem recebe a resposta?
Quem é tratado como alguém que sabe sobre aquela criança?
Quem é considerado responsável pelas próximas decisões?
Quando esse homem é negro, precisamos acrescentar outra pergunta: o racismo participa dessa distribuição de autoridade sobre o cuidado?
Esta edição ainda não tem dados brasileiros suficientes para responder.
Não vamos usar o relato de um homem para fingir que temos.
Mas podemos começar a procurar.
A PERGUNTA QUE HAEDO DEIXA PARA O OBSERVATÓRIO
“Quando vamos nos enxergar como pai? Só o branco é validado?”
Essa pergunta não precisa receber uma resposta rápida.
Ela precisa produzir investigação.
Porque falar de paternidade negra apenas quando existe ausência é uma maneira de não enxergar aquilo que acontece quando homens negros estão presentes, cuidam, erram, aprendem, sustentam, pedem ajuda, enfrentam conflitos e disputam o direito de serem reconhecidos como pais.
QUEREMOS OUVIR MAIS PAIS NEGROS
Se a gente não se enxerga, outros continuam dizendo quem somos.
O Observatório das Paternidades está reunindo relatos de homens negros que exercem paternidade. Não buscamos pais exemplares. Queremos experiências concretas: trabalho, dinheiro, tempo, cuidado, conflitos, aprendizado, afeto, raça e comunidade.
A paternidade não precisa ser biológica. O formulário não coleta automaticamente seu e-mail e você escolhe ao final como sua resposta poderá ser utilizada.
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Três perguntas para continuar
1. O Pré-Natal do Parceiro cuida do homem ou apenas o convoca como acompanhante?
A política existe. Agora precisamos olhar para sua implementação real no SUS.
2. Depois que uma filiação é reconhecida, o que o Estado sabe sobre convivência e cuidado?
Exames e certidões são mensuráveis. Relações posteriores quase desaparecem dos dados públicos.
3. Quando um pai negro chega ao serviço, ele é reconhecido como cuidador?
A pergunta de Haedo pode virar uma investigação concreta em pediatria, pré-natal, escola, assistência social e saúde mental.
Talvez o próximo passo não seja produzir mais uma definição sobre paternidade negra. É criar condições para que pais negros consigam aparecer nos dados, nas políticas e na própria narrativa sobre quem cuida.
Agora queremos ouvir quem vive a paternidade.
Toda semana, o Observatório procura pesquisas, políticas públicas, experiências e debates sobre paternidades. Mas os dados não contam, sozinhos, como essas questões atravessam uma vida.
Por isso, queremos ouvir pais negros. Não estamos procurando pais perfeitos, especialistas ou histórias extraordinárias. Queremos conhecer o cotidiano: trabalho, cansaço, presença, cuidado, afeto, medo, racismo, erros, mudanças, conflitos e aprendizados.
Como é ser pai negro no Brasil que existe hoje?
A entrevista é um espaço para você contar sua experiência com suas próprias palavras. Algumas respostas poderão ajudar o Observatório a encontrar perguntas que ainda não aparecem nas pesquisas e, mediante autorização, algumas histórias poderão integrar futuras edições de Um pai, uma experiência.
Uma experiência individual não será tratada como prova de uma realidade coletiva. Ela entra aqui pelo que é: a experiência de um homem, situada em uma vida concreta, que pode nos ajudar a formular perguntas melhores.
Quero responder à entrevista ↗Responder não significa publicação automática. O Parentalidade Preta poderá entrar em contato caso sua experiência dialogue com uma futura investigação do Observatório. Qualquer utilização pública do relato respeitará as autorizações correspondentes.
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