Observatório das Paternidades #01

Parentalidade Preta · Pesquisa e análise

Observatório das Paternidades

Paternidades negras, masculinidades e políticas públicas — a partir de quem vive o cuidado.

Que lugar os pais negros ocupam nas pesquisas, nos serviços públicos e nas decisões que afetam suas famílias? O Parentalidade Preta criou este observatório para acompanhar essas questões e ampliar a participação de quem costuma ser descrito sem ser escutado.

Nas edições semanais, reunimos dados, iniciativas e debates do Brasil e de outros países, com fontes identificadas e atenção ao contexto. Nossa leitura parte das experiências negras e considera como raça, classe e gênero atravessam as condições de exercer a paternidade. As histórias da comunidade vão orientar perguntas e futuras entrevistas.

Nesta edição

Quando um pai procura um serviço público, como ele é acolhido? Uma iniciativa municipal abre perguntas sobre o atendimento e o lugar dos pais negros nessa construção.

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Leitura estimada: 9 min Apuração encerrada em 11 de setembro de 2026

Nesta semana, o Observatório encontrou movimentos diferentes apontando para uma mesma disputa: quem define o que significa ser pai, quem cria as condições para que homens cuidem e quem ocupa os vazios deixados quando essas condições não existem.

Há uma prefeitura tentando alcançar pais pelo WhatsApp. Há um mercado internacional vendendo respostas para inseguranças masculinas. Há serviços de saúde que já possuem orientação para incluir os homens, mas cuja experiência concreta precisa ser investigada. Há ainda novas imagens da paternidade negra disputando uma narrativa antiga de ausência.

Não são acontecimentos equivalentes. Por isso, esta edição separa o que aconteceu nesta semana, o que vem de pesquisas e campanhas anteriores e o que ainda é pergunta de investigação para o Parentalidade Preta.

Três movimentos para acompanhar

  • Quem ganha dinheiro oferecendo pertencimento aos homens e quais vulnerabilidades entram nessa relação.
  • Como os serviços públicos reconhecem quem é pai, desde o cadastro até aquilo que acontece depois do primeiro contato.
  • Quem está construindo imagens da vida cotidiana de pais negros sem reduzir essa experiência à ausência nem transformá-la em idealização.

Como ler esta edição: quando a fonte é uma prefeitura, organização, campanha ou participante do próprio acontecimento, isso é indicado no texto. Relatos institucionais documentam o que a instituição afirma, mas não substituem avaliação independente.

Perguntas do PP aparecem como perguntas. O que ainda não foi demonstrado não será apresentado como conclusão.

Brasil · política pública · 08/09

1. Quando o serviço público tenta chegar até quem é pai

A Prefeitura de Jundiaí, em São Paulo, informou nesta semana que seus servidores municipais contam com 30 dias de licença-paternidade desde novembro de 2025. Na mesma publicação, anunciou a futura implementação do Papai Tá Aqui pela Secretaria Municipal de Promoção da Saúde.

Segundo a prefeitura, a iniciativa da Urban95 já passou por uma experiência-piloto na assistência social. A proposta é que pais cadastrados na rede recebam pelo WhatsApp conteúdos sobre gestação, primeira infância e participação no cuidado.

O que a publicação comprova: a licença ampliada para servidores municipais é apresentada como vigente e o serviço digital, como algo que ainda será implementado na saúde.

O que ainda não sabemos: a publicação não apresenta número de participantes do piloto, orçamento, avaliação de resultados, cobertura prevista nem dados por raça/cor.

Para o PP, a pergunta mais útil começa antes do WhatsApp. Como o serviço descobre que aquele homem é pai? Quem faz o cadastro? Ele precisa viver com a criança? Recebe o convite diretamente? O que acontece quando uma mensagem desperta uma necessidade que não cabe numa orientação digital?

Um pai entrou na rede pública. Quem percebe que ele também precisa ser cuidado?

Masculinidades · economia digital

2. Quando pertencimento vira produto

Um relatório conjunto da Reset Tech e da Equimundo, chamado The Grift Economy, propõe olhar para parte do ecossistema masculino on-line por outro ângulo: dinheiro.

Na apresentação pública do estudo, as organizações afirmam ter mapeado criadores, plataformas, programas de assinatura, produtos educacionais e redes de financiamento que comercializam respostas para solidão, ansiedade econômica e insegurança identitária masculina.

É uma mudança importante de pergunta. Em vez de observar apenas ideologias ou discursos, a pesquisa pergunta quais modelos de negócio dependem da permanência do público dentro de determinada sensação de inadequação.

Limite desta leitura: o material é produzido por organizações que atuam nesse debate. Nesta edição, o PP não atribui práticas abusivas a criadores ou empresas brasileiras específicas.

Para investigar isso no Brasil seria necessário acompanhar ofertas reais: o que prometem, quanto custam, como são vendidas, quais resultados anunciam e quais evidências apresentam.

O recorte racial acrescenta outra camada. Trabalho, racismo, expectativas de provisão, desejo de reconhecimento e mobilidade social atravessam de modo particular a experiência de muitos homens negros. Isso não permite presumir como eles respondem a essas ofertas. Permite formular uma investigação.

O que um homem acredita estar comprando quando paga para aprender a ser respeitado?

Há ainda um contraponto necessário: cobrar por formação, comunidade ou acompanhamento não comprova exploração. O que precisa ser observado é a combinação entre promessa, transparência, forma de venda, dependência e resultado demonstrável.

Saúde · cuidado · Brasil e exterior

3. O pai pode entrar pela gestação. A questão é onde o cuidado continua.

O Brasil já possui uma política que trata a paternidade como oportunidade de entrada dos homens no sistema de saúde. A Estratégia Pré-Natal do Parceiro prevê consultas, exames, vacinação, orientações e ações de promoção do autocuidado.

Um dado divulgado pelo Ministério da Saúde em 27 de agosto ajuda a medir uma parte dessa expansão. Os procedimentos registrados como relacionados ao Pré-Natal do Parceiro passaram de 4,9 mil em 2018 para 106,3 mil em 2025.

Esse crescimento mostra aumento expressivo do registro do procedimento. Não demonstra, sozinho, cobertura homogênea, qualidade do atendimento ou experiência igual entre territórios e grupos raciais.

Essa diferença entre orientação nacional e experiência concreta é onde o Observatório encontra uma pauta.

O pai é convidado pela unidade? Sua saúde recebe atenção própria ou ele aparece apenas como acompanhante? Os horários permitem sua presença? O serviço continua perguntando por ele depois que a criança nasce?

O primeiro ano depois do nascimento também importa

Um estudo observacional publicado em março de 2026 no JAMA Network Open analisou registros de 1.096.198 pais na Suécia.

Perto do fim do primeiro ano após o nascimento, os pesquisadores observaram razões de incidência de novos diagnósticos de depressão e transtornos relacionados ao estresse mais de 30% superiores às de períodos correspondentes anteriores à gestação.

É um estudo observacional realizado na Suécia. Não permite estimar a situação dos pais brasileiros nem estabelecer que a paternidade tenha causado os diagnósticos observados.

No Reino Unido, a campanha Looking Out for Dad, do Fatherhood Institute, defende avaliação de saúde de novos pais, formação das equipes e sistemas capazes de registrar informações paternas.

A campanha serve como comparação. Não como modelo automaticamente transferível ao Brasil — e muito menos como evidência de que esse atendimento esteja implantado de maneira universal no Reino Unido.

Depois que o bebê nasce, quem continua perguntando como o pai está?

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África · Brasil · circulação internacional

4. A conversa internacional passou pelo Brasil. O que circulou com ela?

Em 9 de setembro, Jean-Marie Nkurunziza, especialista regional do MenCare na Sonke Gender Justice, publicou um relato sobre o primeiro MenCare Changemaker Summit.

O texto é desta semana, mas o encontro aconteceu no Rio de Janeiro, em maio de 2026. Segundo o autor, aproximadamente cem participantes discutiram cuidado, saúde, educação, ambientes digitais, democracia, políticas de cuidado e pertencimento.

O relato traz uma questão que interessa especialmente ao PP: como ampliar programas de paternidade sem arrancá-los do conhecimento local e da cultura que permitem que eles funcionem?

A experiência africana aparece ali não apenas como receptora de modelos internacionais. O autor destaca educação comunitária, articulação com sistemas de saúde, lideranças religiosas e incidência política produzidas no continente.

A fonte é o relato de um profissional da própria Sonke que participou do encontro. Ela documenta sua leitura da experiência, não constitui avaliação externa dos resultados do summit.

Para o Parentalidade Preta, isso muda uma premissa. Essas redes internacionais não estão apenas “lá fora”. Elas já realizaram articulações no Brasil.

A investigação passa a ser outra: quem participou dessa circulação? Quais organizações brasileiras estavam presentes? Quais experiências negras entraram na conversa? Quais ficaram de fora?

Crescer uma iniciativa também exige decidir o que não pode ser arrancado do território.

Racialidade · representação · Brooklyn

5. Talvez a imagem mais disputada seja a do cotidiano

Em entrevista publicada pelo Dear Fathers em 8 de setembro, o artista Dáreece Walker falou sobre a exposição Unboxed: Black Fathers Are Present, em Brooklyn.

A proposta declarada pelo artista é confrontar a narrativa da ausência paterna negra por meio de imagens de presença, cuidado, ternura e vida familiar.

A entrevista documenta a intenção do artista e a programação anunciada. Não mede mudança de percepção do público nem permite concluir o impacto social da exposição.

O ponto mais fértil para o PP talvez esteja menos na palavra presença e mais naquilo que ela precisa mostrar.

Fazer comida. Esperar numa consulta. Buscar na escola. Negociar horário de trabalho. Pentear cabelo. Errar uma tarefa de cuidado. Aprender. Voltar. Brigar. Reparar.

Uma narrativa visual da paternidade negra ganha força quando o homem deixa de existir apenas como resposta ao estereótipo da ausência e passa a existir como pessoa inteira.

Há, porém, um cuidado editorial: substituir imagens de abandono por uma sequência de pais negros perfeitos apenas troca uma caricatura por outra.

Antes de apresentar essa abordagem como novidade, o Observatório ainda precisa mapear fotógrafos, artistas e iniciativas brasileiras que já documentam a vida cotidiana das paternidades negras.

Brasil · trabalho · legislação

6. A licença mudou na lei. Agora começa a disputa pela execução.

A Lei nº 15.371/2026, sancionada em 31 de março, estabelece uma ampliação gradual da licença-paternidade federal e cria o salário-paternidade no âmbito da Previdência Social.

O texto entra em vigor em 1º de janeiro de 2027. A duração prevista é de:

  • 10 dias a partir de 2027;
  • 15 dias a partir de 2028;
  • 20 dias a partir de 2029, etapa condicionada à regra fiscal prevista na própria lei.

A legislação também trata do salário-paternidade previdenciário e de situações relacionadas a adoção e guarda judicial para fins de adoção.

Esta matéria não oferece orientação jurídica individual. Situação profissional, vínculo previdenciário e circunstâncias familiares podem alterar a aplicação concreta das regras.

Para o Observatório, o próximo passo não é apenas repetir quantos dias a lei prevê. É acompanhar quem consegue acessar o direito quando ele entrar em vigor.

Para construir um recorte racial responsável, serão necessários dados sobre beneficiários, tipos de vínculo de trabalho e cobertura previdenciária.

E o exemplo de Jundiaí precisa permanecer separado: uma licença de 30 dias concedida a servidores municipais não significa que todos os pais que moram naquela cidade tenham o mesmo direito.

Agenda de acesso

7. Uma atividade confirmada para acompanhar

O Observatório só inclui aqui atividades cuja modalidade, data e forma de acesso puderam ser verificadas nesta apuração.

18 de setembro de 2026 · 12h às 14h

Proteção da criança e adolescente no cenário digital

Encontro promovido pelo IBDFAM/RS, com Zanete de Fátima Grams e Carlos Brito, dedicado à segurança de crianças e adolescentes no ambiente digital e ao letramento digital.

Há participação presencial, em Porto Alegre, e transmissão ao vivo pelo Zoom.

Público geral: R$ 30
Associados do IBDFAM: R$ 20
Alunos da FMP: gratuito

A próxima edição também pode ter a sua voz

Quer contar um pouco da sua experiência como pai?

Para a próxima edição do Observatório das Paternidades, queremos ouvir pais negros do Parentalidade Preta sobre suas próprias experiências de paternidade.

A proposta é simples: você preenche uma pequena entrevista contando um pouco da sua caminhada, das questões que atravessam seu cuidado e do que aprendeu sendo pai.

Algumas dessas respostas serão selecionadas para compor a próxima matéria do Observatório, colocando experiências de pais negros em diálogo e permitindo que outros homens do PP se reconheçam, discordem, pensem e compartilhem suas próprias histórias.

Não buscamos uma resposta certa sobre paternidade. Queremos reunir experiências concretas: o que você vive, o que mudou em você, o que ainda pesa, o que aprendeu e o que gostaria que outros pais negros soubessem.

Ao preencher, você poderá informar como prefere ser identificado na matéria. O envio da entrevista não garante publicação integral. Trechos poderão ser selecionados e editados apenas para clareza e tamanho, preservando o sentido da resposta.

Sobre a apuração desta edição

Esta edição foi construída a partir de documentos públicos, páginas institucionais, legislação, artigo científico e publicações das organizações citadas, consultados até 11 de setembro de 2026.

Nenhuma entrevista foi realizada para esta edição. Quando uma fonte representa a própria instituição, iniciativa ou participante descrito, seu caráter institucional é considerado na leitura. Dados e afirmações produzidos no exterior não são utilizados como estimativa automática da realidade brasileira.

As questões dirigidas a pais negros, aos serviços públicos e às organizações são perguntas editoriais do Observatório das Paternidades. Elas indicam caminhos de apuração e não antecipam resultados.

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