(RESENHA) nº32 – HASOS, Luto, Mar, Memórias e Afins

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A conversa começa como quem coloca uma agulha sobre um disco e percebe que o som não vem apenas das caixas. Ele vem do corpo. Ao atravessar faixas como “Mar de Guerra” e “Pior que o Mal”, a escuta foi deixando de ser apenas musical e passou a tocar em lugares mais fundos: o cansaço, a perda, o silêncio, a memória e a tentativa de seguir inteiro quando a vida já cobrou demais. O disco virou uma espécie de sala aberta, onde cada um chegou com sua leitura, sua história e suas marcas.

Em “Mar de Guerra”, a imagem que apareceu foi a de alguém chegando ao fundo do poço. Não como metáfora bonita, mas como experiência conhecida. Há momentos em que o homem preto afunda sem espetáculo. Ele continua trabalhando, respondendo mensagens, cuidando da casa, dos filhos, dos outros. Mas por dentro há um mar. E quando esse mar aparece na música, a conversa deixa de ser sobre gosto musical e passa a ser sobre sobrevivência emocional.

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A análise passou pela voz, pela harmonia, pela Bahia, pela espiritualidade, pela literatura, pela ancestralidade e pela identidade negra no Brasil. Mas nada disso apareceu como enfeite intelectual. Cada referência abriu uma fresta para pensar como raça, classe, corpo e memória se misturam na vida de quem aprende cedo a sustentar mais do que deveria. A música foi escutada como território. Como lugar de elaboração. Como caminho para dizer aquilo que, em outros espaços, talvez continuasse preso na garganta.

Quando a conversa chegou à perda parental, aos abraços que faltaram e à pergunta sobre “mais cinco minutos”, alguma coisa mudou de temperatura. Não era mais apenas sobre o disco. Era sobre pais, mães, avós, filhos, despedidas, culpas, silêncios herdados e modos diferentes de lidar com a morte. Alguns queriam mais tempo. Outros sabiam que tinham se despedido como podiam. E nesse contraste apareceu uma das forças do episódio: ninguém precisava vencer a conversa. Bastava permanecer nela.

Este episódio precisa ser ouvido inteiro porque ele não cabe em corte. Ele não se resume a uma análise musical, nem a uma conversa sobre masculinidade, nem a um comentário sobre luto. Ele junta tudo isso sem pressa. É uma roda de escuta onde homens pretos pensam, lembram, discordam, se aproximam e deixam a música fazer o que ela sabe fazer quando encontra um corpo disponível: revelar o que estava escondido. Ouça o episódio. Não para consumir mais um conteúdo. Para entrar na conversa com o respeito que ela pede.

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Diego Silva

Educador Parental certificado pela Positive Discipline Association, Escritor, Ensaísta, e Produtor Executivo do Parentalidade Preta.