Material expandido do [parenta] • episódio 22
Eu te amo,
homem preto.
O que acontece quando um homem deixa de pedir desculpas pelo próprio corpo?
Uma conversa com Júlio César, do Canal do Preto Gordo, sobre autoestima, autoimagem, masculinidade negra, sexualidade, gordofobia, família e cuidado.
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Primeiro deslocamento
Qual homem cabe na palavra homem?
Existe uma imagem de masculinidade que chega antes de muitos homens conseguirem descobrir quem são.
Ela determina corpo, comportamento, sexualidade, força, desejo e aparência. E, para homens negros, essa cobrança ainda se encontra com imagens racializadas sobre virilidade, resistência física e disponibilidade do corpo.
Júlio rompe essa moldura quando fala sobre viver a própria masculinidade sem transformar sua orientação sexual, seu peso ou a expectativa dos outros em medida de quanto homem ele é.
“Eu vivo a minha masculinidade do jeito que eu quero.”
Corpo e autoimagem
Quem ensinou você a rejeitar o próprio corpo?
Autoestima, nesta conversa, não aparece como exercício de pensamento positivo.
Ela passa pelo espelho, pela roupa, pela praia, pelo toque, pelo desejo e pela possibilidade de reconhecer beleza onde ensinaram que havia inadequação.
Júlio lembra que homens negros gordos também crescem sem referências suficientes de corpos semelhantes aos seus vivendo desejo, autonomia, afeto e dignidade.
O problema não está apenas em alguém não gostar do próprio corpo. Está também no conjunto de mensagens que ensinou esse corpo a aparecer para si mesmo como algo que deveria ser corrigido.
Autoestima não é apenas vestir uma roupa bonita. É conseguir olhar para o próprio corpo sem pedir desculpas por ele existir.
Referência
Também precisamos nos encontrar nas imagens.
Uma criança não constrói sua percepção apenas pelo que dizem diretamente a ela.
Também aprende observando quem pode aparecer, quem pode ser desejado, quem pode ser respeitado e quem parece ter autorização para ocupar o mundo.
Durante a conversa, falamos sobre a importância de existirem lugares onde homens negros gordos possam se reconhecer.
Não como exceção. Não como piada. Não como transformação de “antes e depois”.
Apenas como homens possíveis.
Se um menino negro gordo procura um homem que se pareça com ele, o que encontra?
Cuidado
Meu corpo também precisa ser atendido.
Um dos pontos centrais da conversa aparece quando Júlio fala sobre a maneira como corpos gordos são recebidos nos espaços de cuidado.
Exercício físico pode significar mobilidade, prazer, saúde mental, força, bem-estar ou qualidade de vida. Ainda assim, pessoas gordas muitas vezes entram nesses espaços e encontram uma única meta decidida antes mesmo de serem escutadas: emagrecer.
A mesma lógica pode aparecer diante de profissionais de saúde quando sintomas distintos são imediatamente reduzidos ao peso.
O corpo deixa de ser uma pessoa que precisa ser ouvida e passa a ser tratado como diagnóstico antecipado.
Cuidar de alguém começa por reconhecer que existe alguém ali.
O que entregamos às crianças
O primeiro espelho pode estar dentro de casa.
A família pode ser o primeiro território de proteção. Também pode ser o lugar onde uma criança aprende que existe algo errado com o próprio corpo.
Na conversa, discutimos o peso da palavra de um pai quando uma criança ainda está formando a imagem que terá de si.
O adulto que deveria oferecer referência também pode ensinar vergonha, medo e inadequação.
Quando pergunto a Júlio o que diria a pais e mães que estão criando crianças negras e gordas, a resposta começa antes de qualquer técnica:
Não existe algo errado com essa criança.
Acolher, amar, proteger e participar da construção da autoestima também é trabalho parental.
Proteção é permitir que nossos filhos cheguem à vida adulta sem precisar passar anos reconstruindo aquilo que foi destruído dentro de casa.
Masculinidades pretas
Um homem negro não representa todos os homens negros.
Ser negro produz experiências compartilhadas diante do racismo. Isso não transforma homens negros em sujeitos iguais.
Corpo, sexualidade, idade, classe, território, religiosidade, relações familiares e tantas outras experiências participam da construção de cada homem.
Júlio não oferece um novo modelo de masculinidade para substituir o anterior.
Sua experiência faz outra coisa: mostra o limite de qualquer modelo que pretenda decidir, sozinho, como um homem deve existir.
Talvez o problema não esteja apenas em qual masculinidade escolhemos. Talvez esteja na ideia de que uma delas precise servir de medida para todas as outras.
Veja Luz em Homens Escuros
Eu te amo,
homem preto.
A frase que atravessa este episódio não exige que homens negros sejam perfeitos.
Também não pede que conflitos, responsabilidades ou contradições sejam apagados.
Ela parte de outro lugar: homens negros não deveriam precisar alcançar um padrão de corpo, comportamento, sexualidade, produtividade ou força para serem reconhecidos como dignos de afeto.
Amar homens negros também significa permitir que existam diferenças entre eles.
Depois da escuta
Talvez a pergunta não seja se você gosta do seu corpo.
Talvez seja preciso perguntar de onde vieram os critérios utilizados para julgá-lo.
Quem construiu esse espelho?
Que corpos ele permite existir?
E o que acontece quando você deixa de pedir autorização para aparecer nele?
O [parenta] #22 atravessa autoestima, autoimagem, gordofobia, sexualidade, família, masculinidade negra e cuidado sem tentar produzir uma versão correta de homem preto.
A conversa deixa outra possibilidade: conhecer o homem antes de tentar encaixá-lo naquilo que aprendemos a chamar de homem.
Mais do [parenta]
Continue a escuta.
O [parenta] reúne conversas sobre parentalidade racializada, masculinidades pretas, família, afeto e tudo aquilo que atravessa a experiência de cuidar sendo negro no Brasil.
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