Chegamos ao POST 100 — E isso não é só uma marca. É um manifesto.
São 100 semanas contando histórias negras que educam, emocionam e despertam. Aqui, cada post é uma semente. Cada semana, uma travessia.
Por 100 semanas seguidas, o Parentalidade Preta compartilhou a série “4 fatos que você talvez não saiba sobre…” uma curadoria afetiva e profunda de narrativas que não aparecem nos livros didáticos, mas que transformam quem ensina e quem aprende.
Chegar à centésima semana é mais do que constância. É resistência. É o reflexo de uma comunidade que acredita na educação afrocentrada, afetiva e independente.

Explore a trajetória do Império Bambara, sua riqueza cultural, seu sistema de governo, espiritualidade e formas de viver em comunidade. Descubra como essa história pode ser uma porta de entrada para aplicar a Lei 10.639 de forma viva, afetiva e crítica.
Ao iniciar uma pesquisa sobre o Império Bambara e seu legado cultural, é importante reconhecer que esse povo não é apenas uma referência do passado, mas uma presença viva que ainda molda a identidade de milhões no Mali e em países vizinhos. O termo “Bambara” ou “Bamanan”, que significa “aqueles que rejeitam o domínio”, expressa um espírito de autonomia ancestral, originado na fuga de seus antepassados da dominação malinquê. Este dado linguístico já revela uma chave para compreender seu ethos: a resistência não é apenas uma prática política, mas uma fundação cultural.
O Império Bambara floresceu entre os séculos XVII e XIX, com sua capital estabelecida em Segu, às margens do rio Níger. Inicialmente fundado por Kaladian Coulibaly, o império só ganhou forma consolidada com seu bisneto Mamari Coulibaly, também conhecido como Bitòn. Ele transformou uma associação juvenil, o tòn, em um exército eficaz e centralizou o poder político. A administração do império se baseava em alianças tribais, instituições religiosas tradicionais e um exército com pouca distinção étnica — uma raridade entre impérios africanos da época.

No plano econômico, os Bambara desenvolveram um sistema vigoroso baseado em agricultura, comércio e captura de escravos. Produtos como o milho, o amendoim e o tabaco movimentavam as vilas, que se organizavam ao redor de campos comunitários e cultivos individuais. Além disso, o uso das conchas de búzio como moeda revela a engenhosidade das relações comerciais, articuladas por mercadores muçulmanos que conectavam o interior do continente ao comércio transaariano. Essa economia, embora próspera, também alimentava constantes conflitos territoriais, em grande parte motivados pela demanda por escravizados.

Na vida cotidiana, as vilas Bambara funcionavam como centros sociais multifuncionais. Cada vila mantinha seu próprio líder, campos coletivos e espaços sagrados. A organização por faixas etárias e linhagens definia os papéis sociais, e os ritos de passagem eram fundamentais para integrar crianças e jovens à coletividade. As mulheres, apesar de um sistema patriarcal, cultivavam seus próprios campos e contribuíam significativamente tanto para a economia quanto para a preservação das tradições.
Religiosamente, o sincretismo era uma constante. Embora o Islã tenha se difundido entre os Bambara, crenças tradicionais como o culto aos ancestrais e o uso de objetos sagrados ainda predominavam. Máscaras, danças, esculturas e cerimônias marcam o cotidiano espiritual desse povo, que vê no mundo dos vivos e dos mortos uma continuidade, não uma separação. Os líderes religiosos e chefes de vila mantêm funções sagradas que envolvem tanto governança quanto mediação espiritual.
Estudar os Bambara é abrir uma janela para uma África que não cabe nas versões eurocentradas da história. Sua trajetória de resistência, suas formas próprias de organização política, econômica e simbólica, e a riqueza de sua produção cultural oferecem uma alternativa concreta aos modelos ocidentais de desenvolvimento e poder. Em tempos em que se busca descolonizar saberes, conhecer os Bambara é um convite à reimaginação radical da humanidade e de suas múltiplas formas de existir.
Rroteiro em tópicos para desenvolver atividades com crianças de diferentes faixas etárias, inspirado na história, cultura e valores do povo Bambara:
Ambientação e Introdução
- Monte um “Canto de Segu”: espaço decorado com tecidos coloridos, tambores, imagens de máscaras e símbolos bambara.
- Conte, de forma lúdica, a história do Império Bambara usando fantoches, mapas e música africana ao fundo.
- Apresente a ideia de que muitos povos africanos, como os Bambara, viveram de forma organizada, com arte, liderança e rituais próprios.
Atividades por Faixa Etária
Para crianças pequenas (3 a 6 anos)
- Oficina de pintura corporal com símbolos inspirados nos jamus (totens de animais protetores dos clãs).
- Roda de música com canções de ritmo africano, usando instrumentos simples como chocalhos e tambores de brinquedo.
- Contação de histórias com marionetes sobre um menino Bambara que aprende os valores da coragem, coletividade e respeito aos mais velhos.
Para crianças de 7 a 10 anos
- Criação de máscaras bambara com papelão e materiais recicláveis, discutindo seus significados.
- Jogo cooperativo inspirado no tòn (associação juvenil), onde a turma precisa trabalhar em grupo para resolver um desafio simbólico.
- Roda de conversa sobre o que significa cuidar do coletivo e respeitar as histórias da família, relacionando com a valorização dos ancestrais Bambara.
Para pré-adolescentes e adolescentes
- Oficina de escrita ou dramatização: reescrevam episódios da história de Bitòn Coulibaly ou Ngolo Diarra sob o ponto de vista de um jovem do império.
- Debate: o que é um herói em diferentes culturas? Compare com líderes africanos e incentive os jovens a identificarem heróis na própria comunidade.
- Criação de um mural coletivo sobre ancestralidade e pertencimento, com desenhos, frases e fotos de família.
Encerramento coletivo
Celebração com danças em roda, compartilhamento de frutas e um momento de gratidão aos “mais velhos” presentes (educadores, familiares, visitantes).
Cerimônia simbólica de “passagem” inspirada nos ritos Bambara: cada criança recebe um colar artesanal como símbolo do que aprendeu.
Você sabia?
O Parentalidade Preta é uma iniciativa independente que educa com afeto, afrocentricidade e consciência. Criado por Diego Silva, reúne podcasts, rodas de conversa, formações e conteúdos exclusivos para fortalecer famílias negras, educadores e cuidadores.
Aqui, o afeto é político. A ancestralidade, uma bússola. E a educação, uma prática de liberdade. Conheça mais sobre o Parentalidade Preta
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CURIOSIDADES QUE VOCÊ NÃO SABIA SOBRE O IMPÉRIO BAMBARA
- Você sabia que um dos maiores impérios da África Ocidental foi liderado por jovens organizados em uma espécie de “clube de adolescentes”?
- A capital do Império Bambara, chamada Segu, era protegida por muros de barro e tinha uma marinha com canoas de guerra!
- Cada família bambara tinha um “totem animal” que representava sua linhagem — podia ser leão, pantera, cachorro…
- Máscaras sagradas eram usadas em danças para honrar os ancestrais — e se acreditava que eles voltavam à vida nesses momentos.
- As crianças aprendiam desde cedo a cooperar: meninos formavam grupos de trabalho e meninas ajudavam nos rituais e nas colheitas.
- O dinheiro usado no império era feito com conchas! Isso mesmo, búzios eram aceitos como forma de pagamento e imposto.
- Os bambara tinham uma associação secreta chamada komò, que consultava esculturas religiosas antes de tomar decisões importantes.
- Um dos maiores líderes do império, Ngolo Diarra, era um ex-escravizado que se tornou rei e governou por quase 40 anos.
- Os líderes também eram sacerdotes, e cada vila tinha um bosque sagrado onde aconteciam rituais secretos e iniciações.
- As vilas eram tão organizadas que tinham festas comunitárias com comida para todos — uma tradição que celebrava o início das plantações!
Referências utilizadas
Wikipédia (versão de maio de 2025):
- Império Bambara. Disponível em: https://pt.wikipedia.org/wiki/Imp%C3%A9rio_Bambara
- Informações históricas sobre a fundação, líderes (Bitòn Coulibaly e Ngolo Diarra), estrutura de governo, economia baseada em búzios, estrutura militar e queda do império em 1861.
eHRAF World Cultures – Culture Summary: Bambara
- Adem, Teferi Abate. Culture Summary: Bambara.
- Dados sobre organização social, práticas religiosas, educação das crianças, economia, estrutura familiar e simbologias culturais como jamus e tón.
- Baseado em fontes etnográficas de pesquisadores como Dieterlen (1951), Paques (1954), Toulmin (1992), Monteil (1924), entre outros.
Outras fontes citadas nas compilações da eHRAF:
Green, Toby (2019, 2020). A Fistful of Shells.
Henry, Joseph (1910). The Soul of an African People.
Monteil, Charles (1924). The Bambara of Ségou and Kaarta.
Paques, Viviana (1954). The Bambara.
Toulmin, Camilla (1992). Cattle, Women, and Wells.
Wooten, Stephen (2003). Women, Men and Market Gardens.
Becker, Laurence C. (1996, 2000). Pesquisas sobre renda rural e divisão de trabalho.
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Atividade: Criando um Totem da Minha Família
Objetivo: Trabalhar identidade, pertencimento e ancestralidade com base na tradição dos jamus (totens) Bambara.
Arcabouço teórico breve (para introdução):
Os Bambara acreditavam que cada família tinha um totem animal que representava sua história, valores e origem. Esse animal era respeitado e protegido por todos os membros do clã, funcionando como um símbolo de pertencimento e memória ancestral.
Roteiro da atividade
Início – Introdução e conversa (10 min):
Leia ou conte 3 a 5 das 10 curiosidades focando no totem animal, nas máscaras e no coletivo. Pergunte:
→ Se sua família fosse representada por um animal, qual seria? Por quê?
Meio – Produção simbólica (20 min):
Cada criança/adolescente desenha ou constrói seu totem em papel, argila ou colagem. Ao lado, escreve 3 palavras que representam sua família ou grupo de pertencimento.
Fim – Compartilhamento e roda de escuta (10 min):
Apresente os totens em roda. Quem quiser, compartilha o animal escolhido e suas palavras. Reforce que, assim como os Bambara, cada pessoa carrega uma história que merece ser honrada.
Cartão de fichamento simples
| Título da Atividade | Criando um Totem da Minha Família |
|---|---|
| Base cultural | Cultura Bambara – África Ocidental |
| Conceito-chave | Totem (jamu), ancestralidade, pertencimento |
| Faixa etária sugerida | 7 anos em diante |
| Objetivo | Trabalhar identidade e pertencimento simbólico |
| Materiais | Papel, lápis, revistas, cola, argila (opcional) |
| Duração total | 40 minutos |
| Produto final | Totem simbólico e 3 palavras sobre pertencimento |

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