
Chegando o Dia das Crianças, quero falar diretamente com você que está criando meninos negros. Essa data, que deveria ser de celebração e alegria, também nos convida a refletir sobre a realidade que nossos meninos enfrentam. Eu, como pai de um, sinto na pele o peso dessa responsabilidade. Nossos filhos não têm o privilégio de crescer alheios ao mundo que os cerca. Desde muito cedo, a sociedade os coloca em uma posição de vulnerabilidade, e os números estão aí para nos lembrar disso: meninos negros são as principais vítimas da violência institucional, do encarceramento juvenil, e do abandono escolar.
As estatísticas são duras. Meninos negros são os que mais deixam a escola sem terminar seus estudos, não porque lhes falte capacidade, mas porque a escola, muitas vezes, os trata como problemas, não como promessas. Eles são invisibilizados em um sistema que não está interessado em seu futuro, e essa invisibilidade tem consequências.
71,6% dos alunos que desistiram de estudar são pretos ou pardos, enquanto o cenário é de 27,4% entre os brancos (Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (Pnad), divulgada, pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE
Como pai e educador, é doloroso perceber que, para muitos de nossos filhos, a perspectiva de ascensão social ainda é um sonho distante, barrado por muros que não deveriam estar ali.
E aqui está o ponto que mais me incomoda: os programas afirmativos, que deveriam ser ferramentas para combater essa exclusão, frequentemente falham em reconhecer a realidade dos meninos e homens negros. Esses programas se dizem inclusivos, mas raramente falam diretamente para nós, homens negros. Onde está o foco nos nossos meninos, que são empurrados para as margens desde a infância? Não podemos ignorar o fato de que, mesmo dentro dessas iniciativas, nossos filhos continuam invisíveis. E isso é um alerta: precisamos questionar e cobrar uma mudança de direcionamento. Precisamos garantir que nossos meninos estejam no centro dessas políticas.
Nós, homens negros, crescemos com a ideia de que devemos ser fortes o tempo todo. Fomos ensinados a não chorar, a não mostrar fraqueza. E hoje, vejo o quanto isso nos afasta de nossos filhos, o quanto isso pode nos impedir de criar meninos que se sintam seguros para serem quem são de verdade — vulneráveis, curiosos, cheios de sonhos e de medos. Eu também aprendi assim, e estou todos os dias tentando me desconstruir, para ser o pai que meu filho precisa, não o pai que o mundo espera que eu seja.
E para você, mãe de menino negro, que carrega uma carga imensa nos ombros, eu digo: você não está sozinha. Nós precisamos caminhar juntos, lado a lado, criando esses meninos com afeto, mas também com a consciência de que o mundo lá fora nem sempre os acolherá. E é justamente por isso que nós, dentro de casa, devemos ser o primeiro porto seguro. Devemos ser aqueles que dizem a eles que são capazes, que podem, que têm direito a sonhar e a alcançar qualquer coisa que desejarem.
Esse Dia das Crianças é um convite para que a gente olhe para o futuro de nossos meninos com outros olhos. Eles não podem ser definidos pelo estigma que a sociedade insiste em colocar sobre eles. Precisamos garantir que cresçam sabendo que são muito mais do que isso. E é nosso papel, como pais, mães e comunidade, mudar as narrativas, derrubar os muros, e construir uma rede de apoio para que eles possam prosperar.
O futuro que queremos para nossos meninos negros começa com nossas ações hoje. Vamos juntos garantir que eles tenham um caminho de possibilidades, não de limitações. Estamos nessa luta, e ela é de todos nós.
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