Lá vem a militância

Sempre há uma comoção (leia viralização quando se mostra a bondade e inocência de uma criança branca com traços tipicamente angelicais – você sabe do que estou falando). Esse é um fato. 

Ano passado, não raro (talvez na mesma página) viralizou o registro inocente de uma mãe que levou o filho (branco) para uma missão religiosa na áfrica, e mais uma vez, a tal comoção se espalhou. Eu sou contra crianças brancas? Não. Sou contra duas coisas: Crianças fazendo/sendo conteúdo e contra a associação imediata da infância branca à pureza indelével da branquitude. 

Voltando à cena em si. Parece apenas afeto, mas, como lembra Lélia Gonzalez, “a maioria dos brancos recebe seus dividendos do racismo” (GONZALEZ, 2020, p. 35). Estou dizendo com isso que quem contrata uma babá negra é racista e que mulheres negras não deveriam trabalhar como babás? Novamente não.  A construção é mais simples que parece: Há séculos no brasil a babá é negra e a criança branca tem vínculo afetivo exacerbado com aquela que tem o trabalho de cuidar do filho dos outros. E o chato é que mesmo fora desse contexto, você vai fazer um esforço brutal para não concordar com isso. 

A ama de leite, a mucama, a mulher preta que representava o cuidado sempre esteve na dinâmica social (leia-se inicialmente, racial e posterior a 1888, “de classes”) no nosso país. Tanto que é normalizada até os dias de hoje. O amor, relegado ao apego gerado pelo vínculo de trabalho antigo do nosso país continua sendo normalizado. Deveriam acabar as babás? O serviço do cuidado? Mais uma vez, não. O que deveria ser feito é uma leitura honesta dessas relações. 

Voltando a Gonzales, “ Enquanto mucama, cabia-lhe a tarefa de manter, em todos os níveis, o bom andamento da casa-grande: lavar, passar, cozinhar, fiar, tecer, costurar e amamentar as crianças nascidas do ventre “livre” das sinhazinhas.[…] Foi em função de sua atuação como mucama que a mulher negra deu origem à figura da mãe preta, ou seja, aquela que efetivamente, ao menos em termos de primeira infância (fundamental na formação da estrutura psíquica de quem quer que seja), cuidou e educou os filhos de seus senhores, contando-lhes histórias sobre o quibungo,* a mula sem cabeça e outras figuras do imaginário popular (Zumbi, por exemplo). Vale notar que tanto a mãe preta quanto o pai-joão têm sido explorados pela ideologia oficial como exemplos de integração e harmonia raciais, supostamente existentes no Brasil. Representariam o negro acomodado, que passivamente aceitou a escravidão e a ela correspondeu segundo a maneira cristã, oferecendo a outra face ao inimigo. Entretanto, não aceitamos tais estereótipos como reflexos “fiéis” de uma realidade vivida com tanta dor e humilhação. Não podemos deixar de levar em consideração que existem variações quanto às formas de resistência.” (GONZALEZ, 2020, p. 53 e 54).

Fica claro que o problema de um vídeo compartilhado como um momento de afeto entre uma menina brancamente branca e sua babá (sem nome explícito) remonta esse “mito da democracia racial”. Oras, como uma criança vai ser racista se ela ama a babá? Logo um anjinho de luz branco sem maldade nenhuma? Vai militar em cima de um vídeo tão afetuoso? A resposta é a pergunta: Onde estaria sua avó e sua mãe nessa dinâmica? Vou aprofundar mais um degrau. 

“Encerrada” entre muitas áspas a escravidão e até mesmo no curso desse encerramento, muitas familias pretas fizeram o possível para se afastar dessa mácula (a escravidão) isso passou por aspirar à brancura de qualquer forma, mesmo que habitando a casa grande ou sendo quista pelos seus algozes. Uma dessas medidas foi se tornar “quase da família”. Imagine a hipótese remota de um país onde a escravidão durou séculos e as pessoas eccravizadas fariam qualquer coisa para se afastarem dessa mácula? Parece fantasioso demais? “Para ascender, o negro vê-se compelido a adotar o branco como modelo identificatório, internalizando seus valores e sua visão de mundo.” (SOUZA, Neusa Santos. Tornar-se Negro. Rio de Janeiro: Graal, 1983, p. 20). 

Deixa eu te contar algo que talvez você já saiba: Lá no ponto de ônibus, nem todo mundo que sai antes dos filhos acordarem e chega depois que eles dormem tem letramento racial e leu “o pacto da branquitude”. Muitas amam o trabalho pois têm que trabalhar, amam a criança branca (pelo exposto acima). Fica a pergunta: Há viés de consciência de raça e classe numa babá que grita a  plenos pulmões que ama a criança branca que não vive sem ela? Volte no máximo 150 anos ou 3 parágrafos. Esse é um texto sobre amar os filhos dos outros para manter os seus vivos. Não é sobre um video de internet. 

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