O PRÊMIO É DELES, MAS O RECADO É DE LÉLIA

aianaSystem ganhou o Grammy Latino. É importante, claro. Mas achar que a notícia principal está na estatueta é ler o país pela superfície. O que importa aqui é o que está sendo cantado e por que o mundo resolveu prestar atenção agora. A faixa premiada fala de gente preta acordando antes do sol e voltando depois do último ônibus. Fala de cotidiano atravessado por precarização. Fala de famílias que nunca couberam no porta-retrato romântico da televisão.

E sim, isso tem tudo a ver com Lélia Gonzalez. Ela explicou décadas atrás o que o Brasil tenta até hoje contornar: o país se sustenta em uma fantasia branca que não corresponde à realidade. A verdadeira raiz da nossa formação é amefricana. A verdadeira geografia da nossa cultura é a América Ladina. É mistura forçada que virou identidade. É violência estrutural que moldou relações familiares, trajetórias afetivas e modos de existir.

Quando BaianaSystem repete “Améfrica, Ladina Améfrica”, não está fazendo poesia decorativa. Está chamando o país pelo nome que ele insiste em evitar. Está tirando a nação do esconderijo colonial. Está devolvendo linguagem a uma experiência que sempre foi empurrada para segundo plano. A música funciona como diagnóstico. O prêmio apenas torna o diagnóstico público.

A verdade é que ouvir essa música lembra aquela sensação de almoço de domingo que descamba para revelações. As conversas ganham peso. As mágoas represadas aparecem. As dores familiares que ninguém nomeia finalmente encontram saída. Não porque alguém decidiu “abrir o coração”, e sim porque é impossível carregar certas marcas por tanto tempo sem que elas se manifestem. O Brasil funciona assim. A família preta funciona assim. A sociedade inteira funciona assim.

Milton Santos chamaria isso de leitura espacial da desigualdade. Ele lembraria que sonhos, oportunidades e cuidados sempre estiveram do lado de lá da cidade. Do lado de cá, o que existe é sobrevivência. O termo subúrbio carrega a verdade escondida na etimologia: estar abaixo da cidade não é acaso, é estratégia. É como o Brasil distribui valor, prestígio e futuro.

Fanon acrescentaria que a cidade é uma máquina que decide quem pode existir plenamente e quem deve ser contido. A superestrutura exige trabalhadores, não cidadãos. Exige disciplina, não saúde emocional. Exige corpos produtivos, não famílias estruturadas. A música de BaianaSystem apenas revela o que Fanon já tinha descrito. São os avós que trabalharam sem descanso. São as avós que criaram o país enquanto criavam filhos dos outros. São os tios que cresceram à base de improviso emocional porque não havia tempo nem recurso para mais nada.

Enquanto isso, quem vive no privilégio costuma dizer que “problema de família todo mundo tem”. Verdade. Mas existe diferença entre conflito doméstico e consequência direta da colonialidade. A comparação se desfaz quando lembramos que a infância de uns é protegida e a de outros é interrompida. Que uns discutem viagens mal resolvidas da adolescência e outros carregam feridas deixadas por um sistema inteiro.

É por isso que a vitória de BaianaSystem importa. A música dá nome ao que sempre existiu, mas sempre foi silenciado. A letra fala de mães exaustas, pais interrompidos, crianças vivendo na espera eterna, avós tentando fazer caber a vida dentro de uma rotina impossível. Nada disso é novidade para famílias negras. A novidade é o país ter que olhar.

Lélia sabia que esse confronto viria mais cedo ou mais tarde. Ela dizia que a identidade brasileira é construída a partir daquilo que foi negado. A música reafirma esse ponto. O prêmio apenas amplifica. A conquista não é estética. É política. É epistemológica. É contracolonial.

E aqui entra o ponto central deste ensaio. A verdadeira conquista não é uma categoria musical recebendo reconhecimento internacional. A verdadeira conquista é o fato de que o Brasil real, aquele que sustenta a cidade, aquele que produz cultura, aquele que carrega o país nos ombros, finalmente atravessou o salão principal. Não como exceção folclórica. Não como celebração vazia. Mas como o que sempre foi: fundamento.

No fim das contas, este não é um texto sobre música. É um texto sobre estrutura. É sobre o que acontece quando uma obra expõe aquilo que tantas famílias negras já sabiam de cor. É sobre o que aparece quando o discurso oficial perde a força. É sobre a parte do Brasil que sempre existiu, mas que só agora o mundo começa a ouvir sem filtro de fantasia.

Amefricanidade não é conceito distante. É prática cotidiana. América Ladina não é categoria acadêmica abstrata. É o chão onde vivemos, criamos, educamos, resistimos e insistimos. BaianaSystem transformou isso em som. Lélia transformou em pensamento. E a vida das famílias negras sempre foi a prova viva.

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