VOCÊ VIU SEU PAI ADOECER TENTANDO TIRAR VOCÊS DA LAMA.

E RECLAMA QUE ELE NUNCA DISSE ‘EU TE AMO’.

CALMA! Esse ensaio não é pra vocês que assiste conteúdos de pai e filho no tiktok ou vê fotos de família perfeita no instagram. Essa ideia é pra você que vive no mundo real.

Quem disse que caminhada de homens negros foi fácil aqui específicamente no brasil? Quem disse que a caminhada de famílias negras no brasil foi fácil? Se eu estivesse falando apenas da luta diária para manter as coisas e a casa funcionando, já teria assunto para uns 10 anos, mas não. Estou falando daquele almoço de domingo onde depois que o teor alcoólico aumenta, as relações lubrificadas tendem à sinceridade.

Aquele mesmo que sempre terminava com um tio seu brigando com outro tio, sua avó chorando e seu avô (se estivesse presente) não teria nem disposição pra intervir. Estou falando da necessidade constante de se lavar a alma de mágoas passadas que as tardes do subúrbio se enquadram dentro de cada quintal. O que isso tem a ver com o trauma colonial? Se você acha que nada, vamos conversar.

Milton Santos chamaria isso de “cartografia da desigualdade”, onde sonhos e posses existem apenas do outro lado da cidade, de como os negros foram SUBalternizados nos SUBurbios (do latim suburbium, que significa “abaixo da cidade” ou “próximo da cidade”, formada pelo prefixo sub- (“abaixo”, “próximo”) e o substantivo urbs (“cidade”). Ele diria que é também mais um instrumento de opressão.

Infelizmente, não podemos falar de opressão sem deixar o velho Fanon na jogada (eu sei. sempre ele). Imagina a cidade como uma superestrutura. Ela oprime, segrega, violenta e subverte. Ações como essas não acontecem sem um destino, um receptáculo para ela. E lá estão seus tios, que viram seu avô crescer distante. Saindo cedo e voltando tarde. Dando o que podia e não podia para manter as bocas alimentadas e os corpos vestidos, encarando de longe a sujeição que sua avó precisava se submeter fazendo faxina lá no centro enquanto aquela sua tia mais velha tinha a infância roubada cuidando dos irmãos (FICTÍCIA DEMAIS ESSA HISTÓRIA?)

Seu avô se calou. Hoje remói as ausências e as impossibilidades, sua avó tenta enterrar aquela mágoa da sua tia que, apesar de ter criado os irmãos desde muito nova, quando teve os primeiros lampejos de liberdade se tornou mãe. Seus tios precisavam ser criados, mas seus avós estavam correndo pela vida. “Ah, mas na minha família também, tem briga no almoço de domingo. Meu tio se enche de whisky até a tampa e briga com a minha tia por conta daquela viagem pra praia que fizeram na infância “, diria aquele seu amigo da faculdade. Problema de família todo mundo tem.

Mas ele mora “lá na cidade”. Lá onde sua avó limpava as casas, onde a linha de ônibus do seu avô passava de 04:10 às 23:50 (horário estratégico para levar e trazer a negrada). Seus tios reclamam de tudo, mas sabem que a dor dele vem da falta de carinho, de um pai presente-ausente. Seus tios acham que o pai não o viu crescer. Sua avó se culpa por isso, sua tia tenta lavar as dores com samba “o ritmo e os rituais fazem o corpo do colonizado achar um jeito de se livrar da violência“- (FANON, 1961)

Essa superestrutura mata pessoas e sonhos. Ela segrega e impede. Gera exclusão, um véu que para transpor “só rasgando”. Ela controla corpos negros e seus “irem e virem”. Ela é a própria violência. Ela diz que passa ou não passa. Ela que constroi feeds infinitos de dancinha de pai e filha enquanto isso. No fim das contas, será que era só um “eu te amo que você queria?” Esse ensaio não é sobre famílias perfeitas, é sobre o que sobra quando o amor se perde no caminho de volta do trabalho.

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