Os Bakongo, também chamados de Mucongos, são um povo de origem bantu que exerceu forte influência em partes do Congo, Angola e Gabão. Historicamente ligados ao poderoso Reino do Kongo, foram os primeiros africanos a ter contato com os portugueses no final do século XV, o que influenciou diretamente a formação cultural da população negra no Brasil. Ao contrário de outras etnias que se adaptaram rapidamente à presença colonial, os Bakongo mantiveram firmemente sua identidade, idioma e valores até hoje.
Esse povo estruturava sua sociedade com base em uma monarquia organizada, onde o rei (Ntotila) comandava províncias lideradas por nobres locais (Sumu). Além de terem uma economia ativa com uso de moedas próprias como o libongo e o nzimbo, também estabeleceram trocas comerciais com os portugueses, muito antes da colonização violenta se consolidar. Essa organização reforça a relevância histórica e política do Reino do Kongo no contexto africano e atlântico.
A religiosidade é um traço marcante dos Bakongo. Desde cedo, esse povo acreditava em forças espirituais e desenvolveu profecias que atravessaram séculos. Personagens como Kimpa Vita (ou Dona Beatriz), Simão Kimbangu e Simão Toco são exemplos de líderes espirituais que fundaram igrejas e movimentos com base na fé e na resistência cultural. Essas figuras, com forte caráter popular, foram fundamentais para a construção de uma identidade religiosa própria, que ainda ecoa em práticas de fé no Brasil e na diáspora africana.
Durante os períodos de colonização e guerra, especialmente no século XX, os Bakongo foram perseguidos, taxados de “zairenses” ou “retrós” por manterem práticas culturais distintas e resistirem à assimilação. Enquanto outras etnias adotavam os modos de vida coloniais, os Bakongo insistiam em preservar sua língua (o kikongo), costumes e modelos de casamento tradicionais. Esse apego às raízes culturais é um símbolo de dignidade e força histórica.
Mesmo diante da marginalização, os Bakongo continuam ocupando espaços importantes no mundo contemporâneo. Da política à música, da academia à resistência social, mantêm viva uma herança que os conecta a seus ancestrais e desafia o apagamento histórico. São exemplos vivos de como tradição e modernidade podem caminhar juntas, e de como a preservação cultural é um ato contínuo de resistência.
Para quem deseja compreender a base da formação afro-brasileira, conhecer os Bakongo é um passo essencial. Eles não só contribuíram com sua força de trabalho na diáspora, mas também com seus valores, crenças, organização social e sentido de comunidade. Recontar essa história com as crianças e jovens do Brasil é um convite para reconectar o presente com uma ancestralidade rica, profunda e ainda pouco reconhecida.
Roteiro de Atividades sobre o Povo Bakongo para Crianças de Todas as Idades
Apresentação do Tema
- Mostre no mapa onde ficava o Reino do Kongo (atual Angola, RDC e Congo-Brazzaville).
- Apresente imagens de estatuetas, moedas nzimbo/libongo e vestes tradicionais.
- Explique, de forma lúdica, quem são os Bakongo e sua importância para a cultura africana e afro-brasileira.
Atividade de Contação de História
- Conte a história de Kimpa Vita (Dona Beatriz) como uma heroína espiritual africana.
- Proponha às crianças que desenhem a personagem e sua missão.
Oficina de Moeda e Comércio
- Apresente o conceito das moedas libongo e nzimbo usadas no Reino do Kongo.
- Simule uma feira de troca, onde as crianças podem usar “moedas” feitas de papel ou conchas.
- Fale sobre os produtos que os Bakongo cultivavam e trocavam: milho, tecidos, frutas, etc.
Dinâmica de Tradições Familiares
- Converse sobre a importância do casamento para os Bakongo.
- Peça às crianças que desenhem ou encenem um ritual simbólico de união com respeito, presença da família e música.
Roda de Conversa sobre Ancestralidade
- Proponha que as crianças compartilhem algo que aprenderam com pessoas mais velhas.
- Relacione com a ideia de como os Bakongo transmitem valores de geração em geração.
Oficina de Linguagem e Nomes
- Ensine palavras simples em kikongo (como “kandandu” = abraço) e incentive as crianças a criarem um “dicionário da turma”.
- Escrevam seus nomes em etiquetas com inspiração bakongo e expliquem o significado do nome (ou inventem um significado simbólico).
Encerramento com Arte e Música
- Monte um mural com os desenhos e produções das crianças sobre o povo Bakongo.
- Toque músicas de raiz africana (semelhantes às congolesas) e promova uma roda de dança em celebração à ancestralidade.
Esse roteiro pode ser aplicado em encontros únicos ou como parte de uma sequência pedagógica sobre cultura afro-brasileira e africana, adaptando a linguagem conforme a faixa etária.
10 Curiosidades sobre o Povo Bakongo que Você Precisa Conhecer
- O Reino do Kongo foi um dos mais organizados da África Central, com moedas próprias e aristocracia estruturada.
- Os Bakongo foram os primeiros africanos a ter contato direto com os portugueses, ainda no século XV.
- A língua kikongo continua viva e é símbolo de resistência cultural entre os Bakongo até hoje.
- A figura de Kimpa Vita (Dona Beatriz) é referência espiritual e política, considerada uma das primeiras líderes anticoloniais da África.
- O povo Bakongo manteve com firmeza seus rituais tradicionais de casamento, com forte envolvimento familiar e normas éticas.
- Ao contrário de outros grupos, os Bakongo resistiram à assimilação cultural portuguesa, sendo chamados de “terroristas” por sua postura firme.
- O nome Angola deriva de “Ngola”, título de autoridade ligado ao universo político e espiritual dos reinos da região, incluindo o Kongo.
- Os Bakongo foram os primeiros a organizar ações militares contra os colonizadores, como a revolta liderada por Álvaro Buta em 1913.
- Mesmo após o exílio, muitos Bakongo preservaram sua cultura em países vizinhos, como o Congo e o Gabão.
- No Brasil, grande parte dos africanos escravizados nos séculos XVI e XVII vieram de regiões habitadas pelos Bakongo, moldando a base da cultura afro-brasileira.
Essas curiosidades revelam o impacto profundo e duradouro dos Bakongo na história da África e das Américas. Conhecer esse povo é honrar nossas raízes.
RefReferências Utilizadas sobre o Povo Bakongo
- Luquissa, José. Artigo “Crivação histórico-política 1975–1993 na sexta-feira sangrenta”, disponível no blog Angola: Povo Bakongo para brasileiros principiantes, publicado por Spirito Santo.
- Texto-base com relatos históricos, culturais e políticos sobre os Bakongo.
- Lopes, Nei.Enciclopédia Brasileira da Diáspora Africana. Editora Selo Negro, 2004.
- Apresenta o impacto das culturas africanas na formação do Brasil, com destaque para os povos Bantu e Bakongo.
- Thomaz, Omar Ribeiro.Entre Vultos e Invisibilidades: A cultura política dos angolanos no Brasil. EdUFSC, 2002.
- Estuda os laços culturais entre Angola e o Brasil, especialmente das populações do antigo Reino do Kongo.
- Mbiti, John S.Religiões e Filosofia Africana. Vozes, 1999.
- Aborda as religiões africanas tradicionais, incluindo o pensamento espiritual do povo Bakongo.
- Hilário, José Luís.Kongo: História de um Reino. Casa das Letras, 2008.
- Obra histórica detalhada sobre o Reino do Kongo, seus sistemas sociais e relações com a Europa.
- UNESCO.História Geral da África, Vol. II: África Antiga. UNESCO, 2010.
- Compilação internacional que inclui a história dos reinos africanos centrais, como o Kongo.
- Jan Vansina.The Kingdom of Kongo: Civil War and Transition, 1641–1718. University of Wisconsin Press, 2015.
- Obra fundamental sobre a política e estrutura do Reino do Kongo no período moderno.
- Antônio Olinto.Brasil Africano: influência do negro na formação do Brasil. José Olympio Editora, 1986.
- Estuda a origem de povos africanos no Brasil, com foco nos bantus e nos Bakongo.
- Spirito Santo. Blog Cultura Bakongo para principiantes (diversos artigos).
- Compilação de crônicas e ensaios sobre identidade, memória e resistência cultural bakongo.
- Fontes orais e depoimentos compartilhados por autores e leitores nos comentários da matéria “Angola: Povo Bakongo para brasileiros principiantes”, que ajudam a preservar e divulgar a história oral do povo bakongo.
Essas fontes foram essenciais para compreender a complexidade e o impacto cultural, político e espiritual dos Bakongo na história da África e na diáspora africana no Brasil.

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