
Agora você já pode odiar homens pretos?
Como um que se preza, já adianto: esta é uma crítica ao que vem depois da obra, não à memorável e respeitada Aurora. Para mim, ela é uma das vozes mais relevantes desses tempos. Minha intenção aqui não é continuar a discussão que desenvolvemos no PP
Eu amo o que Conceição Evaristo (@conceicaoevaristooficial) escreveu. Amo e peço a bênção. Mas essas, são as MINHAS impressões.
O título já entrega um local simbólico: a infantilização do homem negro.
Achei que isso seria desconstruído ao longo do livro, como um enunciado contraintuitivo. Mas não foi.
Pérola, Neide, Angelina, Aurora, Antonieta, Dolores, Dalva, Tina e Eleonora: Nove mulheres. Nove formas de encarnar a vida. No final, a empatia de uma amiga que acolhe outra de coração partido.
Todos nós já fomos uma de cada. Por isso, talvez o livro te caia bem.
As personagens femininas são desenvolvidas em profundidades diferentes, mas são. Todas as mulheres que se relacionaram com Fio Jasmim são apresentadas em suas complexidades.
Já ele, Fio Jasmim, tem um desenvolvimento raso. Talvez intencionalmente.
O livro é sobre ele? Sobre elas? Sobre você? Mas não é sobre nós (Homens Pretos-não acho que foi feiro para ser).
Vejo muitos comentários dizendo que a obra dialoga com a masculinidade tóxica. Mas a história de Jasmim se passa em qual tempo?
Nenhuma mulher do livro pode ser objetificada, como Aurora preconiza, suas histórias estão abertas diante dos olhos de quem lê. Mas Fio Jasmim entra e sai da vida de cada uma delas da mesma forma que entra e sai de seus corpos. Segue, sem parada.
Apesar de acompanharmos suas viagens, não somos apresentados aos seus pensamentos. Enquanto isso, nos conectamos com cada mulher que já sabe que será abandonada.
Jasmimn não forçou ninguém. Não há, ao meu ver, importunação. Todas as relações foram consentidas.
O juízo de valor sobre ele se resume à infidelidade e ao padrão repetitivo de suas escolhas. Algo que também não é aprofundado.
Sua esposa, Pérola, é subalternizada, mas essa questão também não é desenvolvida.
“Canção” é um livro para mulheres. E isso é legítimo. Mas não há, nele, uma análise crítica sobre as chamadas masculinidades tóxicas. Até porque não se propõe a isso. Deve no máximo abrir campo para essa discussão, ser auxílio. Não, resposta.
Fio Jasmim é o que é: uma sombra negra que ronda a vida e a memória das mulheres do livro (e, talvez, das nossas). Um espectro fálico que impulsiona um livro que foi criado para ser exatamente o que é: gerar comoção. E essa é a minha.
Fio Jasmim é o produto de um ensinamento. No fim, pagou pelas próprias escolhas. Foi trazido à consciência no contraponto da sua própria construção a conexão. Aos meus olhos, Conceição Evaristo fez o que tinha que fazer: falar do coração. E fez bem. Tanto que estou aqui, escrevendo.
Jasmim cede a um desejo que nem sabia que tinha: curar a ferida antiga do pretérito na infância. Mas ele cresceu e nunca teve seus sentimentos debulhados como as personagens femininas [favor não confundir com busca por protagonismo]. O que sinto é que, depois que isso aconteceu, ele perdeu a graça. Tanto que, nesse momento do livro, ele some. Assim como apareceu: do nada (Por isso que não pode ser um livro sobre ele (nós)).
Eu, aqui nessa rede, sou Fio Jasmim: depois desta última linha, já não estarei mais no seu feed. O que fazer a partir de agora?
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