
u vou começar esse texto – ou desabafo – pedindo licença a quem está conosco nessa caminhada.
Às mulheres pretas, conscientes dessa grande doença coletiva que existe no Ocidente: a branquitude.
Por muito tempo, houve uma demanda de desconstrução dos homens para que a masculinidade tóxica fosse repensada por aqueles que a criaram. Tanto que, por muito pouco, a própria masculinidade quase se tornou algo tóxico.
Essa demanda de desconstrução vem de um movimento de busca legítima e genuína por igualdade de direitos, que pauta gênero como um marcador importante para essa constituição. No Ocidente, isso é indiscutível, até porque essa desigualdade foi criada por eles. A branquitude.
A crescente exigência por essa tal desconstrução gerou discussões fecundas e necessárias sobre como os homens devem se cuidar, organizar, viabilizar e conversar sobre si. E eles estão fazendo isso cada vez mais.
Dessa cobrança, surgiram movimentos que optaram por conceitos ancestrais de povos originários, da constituição coletiva e de tradições como as do povo Dagara, de Burkina Faso, Gana e Costa do Marfim. Conceitos que hoje são vendidos como treinamento disso ou daquilo por aí afora.
Hoje, homens se repensaram tanto que muitos deles descobriram que são pretos. Por incrível que pareça. E sendo assim, nada mais natural que remontem conceitos do seu povo, que originalmente não atendia às agendas ocidentais.
Refutando paradigmas do Ocidente e resgatando conceitos ancestrais, os irmãos conscientes não precisam de filosofias embranquecidas para respeitar mulheres e crianças. Nosso povo nunca foi assim. Amamos o progresso comunitário e o avanço conjunto, ombro a ombro.
Existem milhares de paradigmas e epistemologias que são muito mais eficientes do que filosofias ocidentais, construídas a partir da escassez e do atravessamento. Já dizia a teoria dos dois berços, do doutor e professor Cheikh Anta Diop.
Nós não viemos da falta e não nos constituímos vilipendiando nossas irmãs e mulheres.
O que acontece quando homens pretos se repensam? Eles agem como pretos. Eles pensam como pretos. E não atendem às agendas ocidentais.
Reclamamos nossa negritude e passamos a fazer valer nossos valores e conceitos de igualdade e respeito, sem aderir às demandas do Ocidente. E, quando fazemos isso, nos tornamos alvo da própria branquitude.
Continuamos sendo vistos como homens, como todos os outros. E continuamos tóxicos e malditos, porque nos negamos a pedir a bênção desses movimentos que nunca nos enxergaram.
Por mais que eu não goste de citar pensadores brancos, uma frase se torna necessária para esse raciocínio.
E ela é a seguinte:
“Quando retirardes essa mordaça que tapa essas bocas negras, que elas vos entoem louvores?”
Quem disse isso foi Jean-Paul Sartre.
Nós somos esses malditos homens pretos. Doa a quem doer.
Eu me recuso a pensar como um homem branco. Não me cobre isso.
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