Meu Ébano?

Não vou aqui problematizar o sucesso da música, tampouco o que rendeu a intérpretes e compositores. Menos ainda fazer juízo de valores sobre a obra e o cancioneiro popular. Este é um texto sobre os “depois”.

Direto ao ponto: entendamos como um conjunto de ideias pode moldar subjetividades e sociedades. Nossa sociedade vem de um passado escravocrata, onde colonizadores trouxeram pessoas de um continente relegado ao obscurantismo e à barbárie. Essa desumanização justificou a escravização (vide africanos espalhados pelo mundo).

Se o colonizador define o colonizado, a imposição cultural faz com que este se veja conforme lhe foi ensinado. (Não ia citar Fanon mais uma vez… falhei 🙂 ) Após séculos de condicionamento, um povo passa a se perceber como lhe foi imposto, negando e imputando a si mesmo as características criadas pelo colonizador.

“(…) Há uma expressão que, com o tempo, erotizou-se: o atleta negro. Essa figura, confiou-nos uma moça, assanha o coração. Uma prostituta nos disse que a ideia de dormir com um negro a levava ao orgasmo. Mas dormir com eles não tinha nada de especial. O prazer vinha da imaginação do que poderiam fazer.”
Fanon (2008, p. 139)

Agora, se quiser, pode dar play na música. Mas antes, reflita…

Essa música explodiu quando foi lançada. Lembro de um ator famoso que a performou. Se não me engano, foi tema de uma novela muito popular (posso estar errado). Em 2005, o debate racial no Brasil não era tão difundido como hoje. Imagine um jovem saindo da adolescência e ouvindo essa música. Qual o impacto disso na sua formação sexual? Potência sexual negra masculina? Empoderamento ou adesão a padrões impostos?

“Ah! Mas e se os compositores e intérpretes forem negros? Que mal tem? É um hino de empoderamento.” Sério? Então tente lembrar de uma canção que enalteça a potência intelectual preta.

Qual nosso papel na construção dessas representações? A quem interessa que sejamos objetos de pecado e luxúria? Qual o efeito disso em gerações? Ao considerarmos o trecho “A sensualidade da raça é um dom” e citarmos Walter Hugo de Souza Rodrigues (2020), questionamos: “Que sensualidade? Que raça? E que dom?” Essa naturalização nos acompanha desde que nos entendemos como uma sociedade miscigenada – ou, pelo menos, de maioria não branca.


O que quero dizer? A genitalização do negro no Brasil segue como tema de estudo e debate. Isso desemboca no “mercado dos afetos”, na masculinização precoce e na perpetuação do ciclo de sexualização. O homem – esse “príncipe negro feito a pincel” – cresce ouvindo essas máximas e não se permite protagonizar outro papel além do de procriador. “Não posso dar mole, se não você creu!” soa mais como algo erudito ou como reforço desse papel?


O que eu tenho a ver com isso? Tudo. Essa narrativa atravessa gerações, molda percepções e influencia como nos enxergamos e somos enxergados. O que você, mulher branca, tem a ver com isso? A objetificação desmedida. O que você, mulher preta, tem a ver com isso? Como o sistema molda esse ideal de masculinidade preta. O que você, pai, mãe, irmã, tio, tia, avó, avô de meninos pretos, tem a ver com isso? Busque o vídeo que circulou nas redes sociais, no qual um menino afirma que é negão como o pai. Ele destaca sua cor e, ao final, associa essa identidade a uma característica física atribuída ao pai (o P4U grande). Isso nos faz refletir sobre como estereótipos raciais são reproduzidos desde a infância e perpetuados socialmente.
Volte para o início desse ensaio.

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