O Império de Canem, também conhecido como Império de Canem-Bornu, foi um dos grandes reinos medievais da África, fundado no século VIII na região que hoje compreende o Chade. Sua história é documentada na Crônica Real, ou Girgam, descoberta pelo explorador alemão Heinrich Barth em 1851. Originalmente fundado pelo povo zagaua, que habitava o Sudão Central, o império teve como primeiro governante Ibraim, filho de Ceife. Durante séculos, a cultura animista predominou em Canem, mas, com o tempo, a influência do comércio transaariano e das rotas de caravanas trouxe missionários islâmicos, e o islamismo foi adotado como religião oficial no século XI sob o reinado de Humé.
O auge do Império de Canem ocorreu sob o reinado de Dunama II (1210–1248), período em que expandiu suas fronteiras ao sul da atual Líbia e ao nordeste da Nigéria. Durante esse período, o império fortaleceu sua capacidade militar, incorporando cavalos árabes e aprimorando suas táticas de guerra. Esses avanços permitiram ao império realizar expedições de captura de escravos, um dos principais recursos econômicos da época. Além disso, Canem mantinha relações diplomáticas com outros reinos muçulmanos, como o Reino Haféssida da Ifríquia, o que reforçava sua posição como um centro de poder regional.
A moeda de troca predominante no império eram os escravos, que desempenhavam diversas funções, desde soldados até trabalhadores agrícolas. No entanto, a economia também contava com o comércio de produtos como cobre, peles e natrão, este último utilizado para curtir couro. As rotas comerciais de Canem conectavam o império com o norte da África, fornecendo recursos valiosos e permitindo trocas culturais e religiosas que enriqueceram o reino. Essa interação com outras culturas islâmicas contribuiu para a difusão do islamismo e para o fortalecimento da aristocracia local, que se beneficiava do comércio.
A estrutura social do império era complexa e baseada em uma monarquia centralizada, liderada pelo maí, o rei de Canem. Além dos chefes locais e príncipes, havia uma classe de funcionários islâmicos que, com o tempo, assumiu funções administrativas importantes. Mesmo após a adoção do islamismo, muitos ritos e crenças tradicionais permaneceram, incluindo o caráter sagrado do rei, que era venerado como uma figura quase divina. A rainha-mãe e a rainha-irmã também exerciam grande influência política, refletindo a importância das mulheres nas estruturas de poder do império.
O declínio do Império de Canem começou com as disputas internas e as invasões dos bulalas, um grupo étnico que pressionou as fronteiras do império. Durante o reinado de Omar I (1382–1387), a situação se tornou insustentável, e a corte foi transferida para Bornu, onde um novo império seria estabelecido. Esse movimento marcou a dissolução de Canem como uma entidade independente, mas sua herança continuou a influenciar a região de Bornu, dando origem ao Império de Bornu, que perpetuou muitos aspectos culturais e políticos de seu antecessor.
A bandeira de Canem, documentada no atlas de Angelino Dulcert de 1339, é um dos poucos símbolos gráficos que restam desse poderoso império. Ela reflete a identidade e a presença de Canem nas rotas comerciais da época. O legado de Canem ainda é sentido nas culturas e tradições da África Central, especialmente nos países que hoje ocupam seu antigo território, como Chade, Níger e Nigéria. Sua história é um testemunho da riqueza e complexidade das civilizações africanas medievais, que floresceram e contribuíram significativamente para o desenvolvimento cultural e político da região.
Atividades sobre o Império Camem
- Introdução ao Império de Canem:
- Apresentação visual e explicativa do Império de Canem com mapas e ilustrações, mostrando sua localização e influência na África Central.
- Discussão sobre a bandeira de Canem e sua representação histórica, usando o atlas de Angelino Dulcert de 1339 como exemplo.
- Exploração das culturas que formaram Canem, como os zagauas, e das línguas faladas, como canembu e árabe.
- Atividades de Arte e Criatividade:
- Criação de bandeiras inspiradas na de Canem, incentivando as crianças a desenharem seus próprios símbolos e padrões.
- Oficina de confecção de máscaras e adornos que representam a realeza e os guerreiros de Canem, explorando o uso de cores e materiais que refletiam a importância social.
- Pintura de mapas históricos de Canem e criação de colagens mostrando a expansão do império e suas conexões comerciais.
- História Viva e Jogos de Interpretação:
- Encenar um dia na vida de uma família em Canem, com crianças interpretando papéis como os de comerciantes, nobres, agricultores e guerreiros.
- Dinâmica em grupo para explorar a relação entre Canem e outros reinos africanos, com um “jogo de diplomacia” onde cada criança representa um reino e realiza trocas comerciais ou missões diplomáticas.
- Reencenação de uma expedição de comércio transaariano, onde as crianças exploram rotas de comércio, produtos comercializados e desafios enfrentados nas caravanas.
- Atividades de Música e Dança:
- Introdução a músicas tradicionais africanas, incluindo ritmos e danças que poderiam ser comuns no Império de Canem.
- Oficina de criação de instrumentos simples, como tambores e maracas, inspirados nos instrumentos que poderiam ter sido utilizados em celebrações.
- Danças de celebração e saudação aos reis, imitando como a realeza era reverenciada em Canem e como os rituais e músicas faziam parte das tradições culturais.
- Oficina de História e Religião:
- Contação de histórias sobre a transição religiosa do animismo para o islamismo, incentivando a discussão sobre diversidade religiosa e tolerância.
- Discussão sobre a figura do rei como um ser sagrado e divino, explorando conceitos de autoridade e respeito através de histórias e dramatizações.
- Conversa sobre os valores e práticas espirituais, com uma abordagem sensível e adequada a cada faixa etária, focando no significado de figuras históricas como o rei Humé e o impacto das tradições culturais.
- Exploração da Geografia e Economia:
- Atividade de construção de um mapa do comércio transaariano, onde as crianças podem aprender sobre os produtos trocados, como sal, ouro e escravos.
- Jogo de “mercado” onde as crianças usam “moedas” para simular as trocas comerciais entre Canem e outros reinos, aprendendo sobre economia e interdependência cultural.
- Discussão sobre o uso de animais como camelos e cavalos no comércio e no exército, com uma atividade prática onde as crianças podem “cuidar” de animais de brinquedo que representam esses recursos importantes.
Essas atividades oferecem uma visão ampla e interativa sobre a vida no Império de Canem, promovendo o aprendizado histórico, cultural e social de forma lúdica e acessível para todas as idades.
10 curiosidades
Aqui estão 10 curiosidades fascinantes sobre o Império de Canem para aguçar sua curiosidade e mergulhar na história dessa civilização africana:
- 1. A Bandeira Antiga: A bandeira de Canem aparece no atlas de Angelino Dulcert de 1339, sendo uma das raras representações visuais desse império no mundo antigo.
- 2. O Rei Sagrado: No Império de Canem, o rei, conhecido como maí, era visto como uma figura quase divina, reverenciada pela população como um ser sagrado que trazia chuva e proteção.
- 3. Transição Religiosa: Canem começou como uma sociedade animista, mas no século XI, converteu-se ao islamismo, influenciado pelos comerciantes e missionários que cruzavam o Saara.
- 4. Comércio Transaariano: Canem foi uma importante rota de comércio transaariano, conectando o norte da África ao Sael e à savana. Exportava produtos como sal, peles e escravos, movimentando a economia da região.
- 5. Uso de Escravos como Moeda: Escravos eram uma das principais “moedas” de troca em Canem até o século XIV, quando o cobre começou a ser utilizado como moeda de troca.
- 6. Exército Montado em Cavalos Árabes: Durante seu auge, Canem aprimorou seu exército introduzindo cavalos árabes, o que trouxe vantagens estratégicas em batalhas e nas expedições militares.
- 7. Primeira Missão Diplomática: O império enviou uma missão diplomática ao Reino Haféssida, no atual norte da África, no século XIII, mostrando seu prestígio e influência entre outros reinos muçulmanos.
- 8. Uma População Diversa: O Império de Canem abrigava diversos povos e línguas, incluindo canembu, canúri e árabe, o que tornava sua cultura rica e diversa.
- 9. A Capital Móvel: Após invasões e crises internas, a capital de Canem foi transferida para Bornu, onde surgiu um novo império, o Império de Bornu, que manteve parte das tradições de Canem.
- 10. Palácios de Caniço: As construções em Canem, incluindo o palácio real, eram feitas de caniço, refletindo a arquitetura tradicional e as técnicas de construção locais da época.
Essas curiosidades nos mostram um pouco do esplendor, das complexidades e das contribuições do Império de Canem para a história da África!
Aqui estão as referências compiladas sobre o conteúdo do Império de Canem:
- Barth, Heinrich. Travels and Discoveries in North and Central Africa: Including Accounts of Tripoli, the Sahara, the Remarkable Kingdom of Bornu, and the Countries around Lake Chad. Londres, Nova Iorque e Melbourne: Ward, Lock and Co., 1858.
- Costa e Silva, Alberto da. A Enxada e a Lança – A África Antes dos Portugueses. Rio de Janeiro: Editora Nova Fronteira, 2009.
- Costa e Silva, Alberto da. A Manilha e o Libambo – A África e a Escravidão, de 1500 a 1700. Rio de Janeiro: Editora Nova Fronteira, 2014.
- Dulcert, Angelino. Atlas de 1339. (Representação da bandeira de Canem)
- Holl, Augustin. The Diwan Revisited: Literacy, State Formation and the Rise of Kanuri Domination (AD 1200-1600). Londres: Kegan Paul International, 2000.
- Jaguaribe, Hélio. Um Estudo Crítico da História. São Paulo: Paz e Terra, 2002.
- Lange, Dierk. Ancient Kingdoms of West Africa: African-Centred and Canaanite-Israelite Perspectives; a Collection of Published and Unpublished Studies in English and French. Dettelbach: J.H.Röll Verlag, 2004.
- Lange, Dierk. Capítulo X – Reinos e Povos do Chade. In: História Geral da África – Vol. IV – África do Século XII ao XVI. Universidade Federal de São Carlos; Brasília: UNESCO, 2010.
- Levtzion, Nehemia; Spaulding, Jay. Medieval West Africa: Views from Arab Scholars and Merchants. Princeton: Markus Wiener Publishers, 2003.
- Loimeier, Roman. Muslim Societies in Africa: A Historical Anthropology. Bloomington e Indianápolis: Indiana University Press, 2013.
- Stokvis, Anthony Marinus Hendrik Johan. Manuel d’Histoire, de Généalogie et de Chronologie de Tous les États du Globe, Depuis les Temps les Plus Reculés Jusqu’à Nos Jours. Leida: Brill, 1888.
- Yver, G. Kanem. In: Encyclopedia of Islam Vol. IV Iran-Khan. Leida: Brill, 1997.
Estas fontes oferecem uma base histórica sobre o Império de Canem, desde relatos de viajantes até compilações históricas modernas, cobrindo aspectos geográficos, culturais, políticos e econômicos dessa civilização africana medieval.

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