
Quando figuras negras, que carregam em si os símbolos de resistência e renovação, se veem envolvidas em controvérsias, é natural que aqueles que as admiram experimentem uma sensação profunda de confusão. Para muitos de nós, essas pessoas não são apenas indivíduos; elas são a personificação de uma luta maior, de um sonho de transformação. E quando esse sonho é abalado, o impacto emocional é enorme. Sentimos o choque de um conflito interno: queremos preservar a imagem de quem admiramos, mas também não podemos fechar os olhos para a complexidade dos acontecimentos.
Esse sentimento ambíguo pode ser profundamente desconcertante. A vontade de proteger quem, por tanto tempo, nos inspirou é forte. Ao mesmo tempo, a necessidade de reconhecer as vozes que clamam por justiça não pode ser ignorada. Há, em muitos de nós, o desejo de acreditar que, de alguma forma, aquilo que aconteceu pode não ser o que parece. Nos apegamos à ideia de que talvez exista uma explicação que nos permita continuar acolhendo todos os envolvidos. No entanto, essa ambiguidade emocional, esse conflito de valores entre a proteção de nossos ídolos e o compromisso com a verdade, nos coloca diante de uma dura realidade.
A dor de sentir compaixão por ambos os lados, de perceber que o erro e o sofrimento coexistem, revela uma verdade desconfortável sobre nossa própria humanidade. Queremos acreditar na integridade daqueles que nos lideram e, ao mesmo tempo, somos confrontados com a falibilidade que todos carregam. Nesse espaço de incerteza, o que prevalece é o sentimento de perda — perda da inocência que depositamos em figuras de transformação, e o temor de que as falhas humanas possam comprometer o que há de mais valioso na nossa luta.
O acolhimento, então, não deve ser apenas para os indivíduos envolvidos, mas para nós, que observamos e sentimos essa dor. É legítimo que sintamos esse conflito, essa dificuldade de processar o que está diante de nós. Não precisamos encontrar respostas imediatas, nem decidir de que lado estamos. O importante é entender que a luta por justiça e transformação não se trata apenas de quem são as figuras que a lideram, mas sim dos valores que a sustentam. E esses valores — de dignidade, respeito, e renovação — devem continuar a nos guiar, mesmo quando somos obrigados a encarar a fragilidade de nossos próprios ídolos.
Nessa jornada, é fundamental que acolhamos a confusão e a dor como parte do processo. Não precisamos ter todas as respostas de imediato. Ao nos permitirmos sentir essa ambiguidade, estamos, na verdade, reafirmando nossa humanidade e o compromisso de construir um caminho mais justo, onde possamos conciliar nossos valores com as complexidades da vida real.
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