A Armadilha da Representatividade Acrítica e a Infantilização do Homem Negro na Mídia Brasileira

NÃO ESTOU AQUI PEDINDO A SUA CURTIDA, até porque vou manter aqui no #ParentaldadePreta uma reflexão narrativa necessária sobre a forma como o homem negro, especialmente o pai negro, é representado na sociedade doa a quem doer.

A infantilização do homem negro grande e retinto é uma questão que persiste há séculos e que, infelizmente, continua a ser reforçada por meio da mídia e do entretenimento, muitas vezes sob o disfarce de “representatividade”.

A #representatividade é frequentemente celebrada como um avanço, especialmente quando vemos uma #famíliapreta na tela. No entanto, essa representatividade pode ser uma armadilha quando se trata de uma “representatividade acrítica”. Em muitos casos, o simples fato de ver pessoas negras em destaque nos faz acreditar que houve um progresso real, sem questionarmos o que essas pessoas estão fazendo nesses espaços. Em vez de desafiar estereótipos, muitos conteúdos acabam perpetuando narrativas que infantilizam o #homemnegro, limitando sua complexidade e humanidade.

#FrantzFanon, em seu clássico Pele Negra, Máscaras Brancas, nos alerta para o impacto dessa desumanização ao afirmar: “O branco que atribui ao negro uma influência maléfica regride no plano intelectual, pois, como o demonstramos, ele se inteirou desses conteúdos com a idade mental de oito anos”. Essa regressão intelectual se reflete na forma como a mídia molda a imagem do homem negro, apresentando-o como cômico, incapaz ou “desfuncional”. Essa é uma herança direta do paradigma de Jim Crow*, que, introjetado por aqueles que criaram a mídia, continua a influenciar a maneira como as pessoas negras consomem e são consumidas no Brasil.

A narrativa cômica, que é uma das mais prevalentes, é um exemplo claro de como a representatividade acrítica pode ser prejudicial. O entretenimento que apresenta o homem negro como uma figura engraçada e inofensiva não é inofensivo. Ele reforça estereótipos que impedem que o ele seja visto como um sujeito completo, capaz de ocupar espaços de seriedade e responsabilidade.

Isso se torna ainda mais evidente quando observamos como a sociedade responde aos homens negros que desenvolvem trabalhos sérios (Veja o meu “engajamento” e as negativas que recebo quando cobro para participar de ações sérias – isso também é sobre mim.).
Eles são frequentemente marginalizados e não têm voz nas discussões importantes, pois o negro que não se encaixa no papel esperado de “engraçado” é visto como uma ameaça ou, no mínimo, como alguém que não merece destaque. Imagine aquele influenciador negro que faz graça e ganha likes. Ele é autêntico ou está repondendo ao algritmo? Ou os dois?


Essa infantilização tem consequências profundas. Em uma sociedade que exige soluções, mas não oferece espaço para que o homem negro participe das discussões, o trabalho sério e responsável realizado por ele é minimizado, considerado como nada além do “mínimo”. Essa é uma estratégia sutil, mas eficaz, de desumanização e manutenção do status quo.

É crucial que continuemos a problematizar a representatividade acrítica. A presença de pessoas negras na mídia deve ser acompanhada de uma análise crítica sobre os papéis que elas desempenham e as narrativas que estão sendo construídas. Só assim poderemos superar os estereótipos herdados do passado e construir uma representatividade que verdadeiramente empodere e humanize.
Precisamos estar atentos às narrativas que consumimos e questionar o que realmente está sendo representado. Somente assim podemos caminhar rumo a uma sociedade mais justa e consciente.

Se cuide na rua.

**Adendo: O Paradigma de Jim Crow**
O paradigma de Jim Crow se refere a um conjunto de leis e práticas racistas que vigoraram nos Estados Unidos do final do século XIX até meados do século XX, legalizando a segregação racial e institucionalizando a inferioridade social e econômica dos negros. Esse sistema não se limitou apenas às leis, mas também se manifestou culturalmente, moldando a forma como as pessoas negras eram retratadas na mídia e percebidas na sociedade.
Os estereótipos de Jim Crow criaram imagens distorcidas dos negros, retratando-os como figuras cômicas, infantis, ou perigosas, o que facilitava sua desumanização. Esse padrão foi exportado e adaptado em diferentes contextos, incluindo o Brasil, onde influenciou a forma como a mídia e a cultura popular representam pessoas negras. Assim, o paradigma de Jim Crow continua a impactar a maneira como narrativas raciais são construídas e consumidas, perpetuando estereótipos que limitam e desumanizam as pessoas negras até hoje.

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