
Recentemente a maioria das “páginas pretas” compartilharam o caso de um menino (criança ainda) negro em um a crise emocional provocada pelo que foi identificado como Transtorno Opositivo-Desafiador (TOD). Muito deve ser dito sobre vários aspecto do vídeo (que obviamente não vou reproduzir aqui), mas vou me propor a destrinchá-lo em camadas sem ordem de importância definida.
1 – Um menino negro retinto é mantido sentado à cadeira com os braços presos por trás pelo que parece ser uma professora (ou funcionária) da escola em questão enquanto, aos berros grita e soluça chorando “ tia, me solta! tá doendo!”. Como se não fosse ouvido, ele não é solto. Um menino negro retinto e eu sei que você não consegue conceber isso acontecendo com uma criança branca. Eu sei.
2 – O menino está exposto e ainda é filmado enquanto pessoas passam pelo local. Uma criança que talvez não passe dos dez anos, PRESA À UMA CADEIRA remonta nitidamente a imagem de um pelourinho. A violência implícita nesta cena é brutal.A CRIANÇA berra para o próprio agressor (a qual só consegue chamar de tia). Isso é violação de direitos. Quer ver?”Art. 4º É dever da família, da comunidade, da sociedade em geral e do poder público assegurar, com absoluta prioridade, a efetivação dos direitos referentes à vida, à saúde, à alimentação, à educação, ao esporte, ao lazer, à profissionalização, à cultura, à DIGNIDADE, ao RESPEITO, à LIBERDADE e à convivência familiar e comunitária. Parágrafo único. A garantia de prioridade compreende: a) primazia de receber proteção e socorro em quaisquer circunstâncias;”
LEI Nº 8.069, DE 13 DE JULHO DE 1990. – https://www.planalto.gov.br/ccivil_03/leis/l8069.htm
3- As formas de violência contra o corpo preto sempre se manifestam sob quaisquer circunstâncias. Sejam elas explícitas ou veladas. Segundo relatos, as queixas da criança era de que ela era proibida de sair para beber água durante as aulas. Aqui quero fazer um pequeno ensaio sobre TDAH e TOD(que podem ser transtornos associados) sem querer parecer professoral ou especialista de instagram. “O transtorno de oposição desafiante (TOD) é caracterizado por distúrbios do controle de impulsos e da conduta, e por comportamentos agressivos. Frequentemente é associado a outros transtornos, em especial ao transtorno de conduta (TC) e ao transtorno do déficit de atenção com hiperatividade (TDAH).” – https://residenciapediatrica.com.br/
-Ás vezes crianças nessa idade saturam muito rapidamente dos estímulos e informações da aula e PRECISAM sair um pouco do ambiente para não entrarem em colapso emocional. Em uma escola, durante o turno de aulas, qual seria a opção plausível? Adivinha? Se você respondeu ”ir ao banheiro ou beber água”, acertou. É uma necessidade latente essa desconexão momentânea. Voltando…
Não te parece plausível que isso teria sido diferente com aquele “Caetano” loirinho que a professora adora acariciar o cabelo e diz que ele é agitado, mas é bonzinho? Aquele que tem olhos azuis e todo mundo gosta, que a professora pega no colo quando ele se agita. Pergunto de novo: Você consegue imaginar o Caetano preso pelos braços em uma cadeira gritando que está doendo e se debatendo?
Não me parece racional em um local dedicado à educação infantil, profissionais simplemente acharem que a forma de acalmar uma criança em crise seja contendo-a como se estivesse amarrada á cadeira sendo puxada pelos braços no sentido contrário. Mas a lógica R4CISTA colonial esquece nossas humanidades. Levando para o campo teórico novamente, temos:
“…muitos brancos permaneceram em silêncio, vendo um crime abominável acontecer sem ser contestado, servindo assim de cúmplices, por assim dizer, do formidável crime contra a natureza, aliás, da violação da humanidade de um semelhante.” W. E. B. DuBois em “Resolutions at Harper’s Ferry”.
Infelizmente uma máxima que cunhei aqui tem se repetido e o intuito desse ensaio é fazer com que você (e eu) reflita(mos) nos locais onde estamos expondo nossos meninos. Mais uma vez, por mais que eu odeie, tenho razão. “ O corpo masculino Preto é o receptáculo de toda a violência colonial”. Com certeza, o Caetano não seria contido como um escravizado no pelourinho, mas seu filho pode ser.


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