
Um olhar especial para a criação racializada.
A Revista ParentaVerso é um espaço seguro e acolhedor dedicado a abordar a Parentalidade Preta em comunidade. Com artigos, entrevistas e relatos pessoais, a revista celebra as experiências dos pais e mães Pretos, oferecendo uma plataforma inclusiva que promove compreensão, apoio mútuo e transformação social. É um refúgio essencial para vozes frequentemente marginalizadas, valorizando a Parentalidade Preta.
É necessário reconhecer as experiências únicas e os desafios enfrentados por pais e mães pretos, a fim de promover uma sociedade mais inclusiva e justa. Ao olhar para além das perspectivas dominantes, podemos valorizar e fortalecer as vozes e vivências da Parentalidade preta, construindo um futuro mais equitativo para todas as famílias.
Editorial

Caro leitor da Revista ParentaVerso, é com imensa gratidão que recebemos sua presença neste espaço fundamental para a Parentalidade Preta. Sua participação fortalece nossa comunidade, estimulando o diálogo, a compreensão e a transformação social. Estamos comprometidos em compartilhar conteúdos relevantes e inspiradores a cada edição, visando construir um futuro mais igualitário e afirmativo para a parentalidade preta. Agradecemos por fazer parte dessa comunidade e por contribuir para essa importante missão.
Diego Silva – Produtor executivo do Parentalidade Preta
Nesta edição você vai encontrar um conteúdo exclusivo, que foi gerado a durante o último mês a partir de trocas e conversas, bem como ficar por dentro do que vem acontecendo nesse universo. Na seção “Destaque da quinzena”, o texto “Enfim: a hipocrisia” critica as diferentes velocidades da Justiça Brasileira . Na “Entrevista” você vai conhecer Erick, um fisioterapeuta engajado em movimentos negros, que compartilha sua experiência na paternidade e a importância de educar os filhos sobre o racismo e empoderamento. “Para Praticar” Promova a diversidade racial desde cedo e forme crianças conscientes e defensoras da igualdade. No nosso programa Afrocentricidade em 12 passos, vamos nos debruçar sobre o reino de Kush, o povo Bantu, falar sobre Maulana Karenga e Lélia Gonzalez . Em Outra História, vamos falar do Dia da Mulher Negra Latino-Americana e Caribenha . Por fim, Voltando no tempo, vou te dar umas boas razões para ouvir um episódio antigo do Podcast Parentalidade Preta.
Destaque da quinzena
“Enfim: a hipocrisia.”
Nessa coluna, você vai encontrar críticas irônicas às contradições sociais que são vistas pela internet afora.

Ah, olha só quem resolveu dar o ar da graça nos tribunais: a tão aclamada ‘justiça’ brasileira! Mas espere um momento, será que estamos falando daquela que é cega e imparcial ou da versão colorida e discriminatória? Parece que a nossa querida justiça decidiu adotar o estilo arco-íris, onde duas cores se destacam: preto e branco.
Nesse show de horrores, os números não mentem. Basta olhar as estatísticas e ver como a balança da justiça se desequilibra de maneira incrível. Os casos envolvendo pessoas negras são tratados com uma agilidade absurda. É quase como se fossem jogados em uma esteira expressa para a condenação, enquanto os casos de pessoas brancas têm o privilégio de passar por uma montanha-russa jurídica, cheia de voltas e reviravoltas.
Afinal, quem precisa de igualdade quando podemos brincar de “estátua” na hora do julgamento? Os negros são os primeiros a serem parados nesse jogo, enquanto os brancos têm a vantagem de continuar avançando casa a casa. É como se a ‘justiça’ estivesse dando uma piscadinha marota para a discriminação racial, dizendo: “Ei, vocês aí, podem passar na frente!”
E quando chega o momento da sentença, o espetáculo continua. Os juízes parecem ter uma carta na manga, e adivinhem qual é? Sim, o famoso ás da impunidade racial. Os negros são agraciados com penas mais severas, como se estivessem em um jogo de tabuleiro onde todas as casas são de prisão, enquanto os brancos conseguem dar uma voltinha na casa da liberdade, saindo ileso dessa brincadeira.
E tudo isso é tão irônico, não é mesmo? Vamos fingir que a justiça é cega, mas quando se trata de cor de pele, ela abre os olhos de maneira seletiva. É como se estivéssemos em uma partida de esconde-esconde, onde os negros estão sempre marcados para serem encontrados e condenados, enquanto os brancos podem se camuflar entre as brechas do sistema.
Então, meus caros, vamos aplaudir de pé esse espetáculo de desigualdade racial nos julgamentos criminais. Um verdadeiro circo onde a cor da pele determina o roteiro, e a justiça é uma piada de mau gosto. Ah, Brasil, país das diversidades… ou será das disparidades?
Acompanhe mais nesse post:
Perfilamento Racial
Perfilamento Racial
Acompanhe mais comentários sobre o tema na postagem que deu origem a esse texto AQUI
Para praticar
Aqui vamos abordar aspectos práticos para uma criação racializada.

A introdução do conceito de raça para crianças é uma tarefa complexa e delicada. É essencial abordar esse assunto de maneira sensível e educativa, proporcionando às crianças uma compreensão saudável e inclusiva da diversidade racial desde cedo. Nesta abordagem, destacaremos alguns aspectos importantes a serem considerados ao discutir raça com as crianças. Nas próximas edições vamos abordar e adentrar um pouco mais em cada tópico.
Valorizando a Diversidade Racial: Ensinando aos Pequenos a Importância da Igualdade
Pensando na Primeira infância
É maravilhoso testemunhar o crescimento dos nossos pequenos e ajudá-los a compreender o mundo ao seu redor. Nesse caminho, é fundamental abordar o conceito de diversidade racial desde cedo, ressaltando a beleza e a importância de todas as pessoas, independentemente de sua cor de pele, origem étnica ou características físicas. Ao fazer isso, estamos plantando as sementes para um futuro mais inclusivo e igualitário.
A primeira coisa a ter em mente é que cada pessoa é única e especial, e isso inclui a cor de sua pele. A diversidade é algo natural e incrível, e devemos celebrá-la. Explique aos seus filhos que as diferenças de cor de pele são apenas uma das muitas características que tornam cada um de nós especial. Mostre-lhes que todas as cores são bonitas e que não há hierarquia entre elas.
Ao abordar a diversidade racial com seus filhos, promova uma mentalidade positiva, enfatizando que todas as pessoas merecem respeito e igualdade. Explique que assim como eles gostam de ser tratados com gentileza e justiça, é importante que tratem os outros da mesma forma, independentemente de sua cor de pele. Destaque que a diversidade nos enriquece, nos proporciona novas perspectivas e nos permite aprender com diferentes culturas.
É essencial proporcionar experiências diversificadas aos seus filhos desde cedo. Exponha-os a livros, brinquedos e programas de TV que retratem personagens de diferentes origens étnicas. Incentive-os a interagir com crianças de diferentes raças e etnias, seja na escola, em parques ou em atividades extracurriculares. Essas interações ajudarão a criar um ambiente inclusivo e a desenvolver empatia, compreensão e aceitação desde cedo.
Além disso, lembre-se de que vocês são os modelos para seus filhos. Portanto, é fundamental que vocês demonstrem atitudes inclusivas e respeitosas em seu próprio comportamento. Evite estereótipos e preconceitos em suas conversas e ações, e estejam abertos para aprender e corrigir eventuais equívocos. Mostrem que a diversidade é algo bonito e que todos merecem ser tratados com justiça e igualdade.
Lembrando sempre que a educação sobre diversidade racial não é um evento isolado, mas um processo contínuo. À medida que seus filhos crescem, continue a conversa, adaptando-a à medida que eles desenvolvem uma compreensão mais complexa do mundo. Estimule-os a fazer perguntas, a expressar suas opiniões e a serem defensores da igualdade.
Ao enfatizar a beleza e a importância da diversidade racial desde cedo, estamos contribuindo para a formação de crianças conscientes, respeitosas e abertas ao mundo. Juntos, podemos construir um futuro mais justo e igualitário para todos.
Sejamos agentes de mudança na vida de nossos pequenos!

Afrocentricidade em 12 passos
Este programa de 12 etapas tem como objetivo introduzir crianças ao conceito de afrocentricidade, promovendo uma compreensão positiva e empoderadora da cultura Afrodiaspórica. O objetivo desse programa é apresentar a Pais, Professores e cuidadores, o conceito e o desenvolvimento da afrocentricidade nas abordagens da criação. Através da exploração da história, literatura, arte e música, levantaremos questionamentos no sentido de valorizar a identidade racial e étnica. Quero, com esse programa, oferecer ferramentas para o investimento em uma criação racializada. Levantaremos em 12 ações discussões e trocas a respeito desse tema tão importante para o desenvolvimento de crianças Pretas.
Nesse Programa, abordaremos sempre ações práticas de atividades, uma civilização africana potente, um grupo étnico africano que veio para o Brasil através da diáspora, um pensador estrangeiro e um brasileiro, bem como um pouco dos seus trabalhos. Em seguida, um cronograma de atividades para serem realizadas com crianças durante o mês.
Etapa 2: Autoconhecimento
- Incentive as crianças a explorarem sua própria identidade racial e étnica.
- Converse sobre suas características físicas, herança familiar e origens.
Despertando o Autoconhecimento: Valorizando a Identidade Racial e Étnica das Crianças
Incentivar as crianças a explorarem sua própria identidade racial e étnica é fundamental para que elas desenvolvam um senso de pertencimento e autoestima saudáveis. É importante que os adultos e educadores estejam abertos ao diálogo, criando um ambiente seguro e acolhedor onde as crianças possam expressar suas dúvidas, curiosidades e emoções em relação à sua origem étnica e características físicas. Conversar sobre suas características físicas, como cor da pele, textura do cabelo, formato dos olhos e traços distintos, pode ajudar as crianças a entenderem que a diversidade é algo natural e belo. Além disso, ao discutir a herança familiar e as origens, as crianças podem se sentir conectadas com suas raízes culturais e compreender a importância da história de suas famílias. Isso contribui para a construção de uma identidade sólida e resiliente, permitindo que as crianças se sintam orgulhosas de quem são e valorizem a diversidade étnica presente na sociedade em que vivem.

Ao abordarmos o Reino de Kush Antigo, podemos observar a riqueza cultural e histórica do continente africano. Essa antiga civilização, localizada no nordeste da África, foi influenciada pelo Antigo Egito e pela cultura africana, deixando um legado significativo em termos de arquitetura, arte e influência cultural na região.
Os Bantu, por sua vez, são um grupo étnico originário da África Central e com presença marcante na África Subsaariana. Sua cultura diversificada e suas tradições têm uma grande influência na sociedade brasileira. Durante o período colonial, milhões de africanos Bantu foram trazidos para o Brasil como escravizados, trazendo consigo sua cultura e deixando um legado importante que se entrelaçou com a cultura brasileira.

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Maulana Karenga, renomado acadêmico e ativista norte-americano, criou o Kwanzaa como forma de promover a solidariedade, união e fortalecimento da identidade e cultura afro-americana. Esse feriado cultural é celebrado nos Estados Unidos e enfatiza princípios como a unidade e a autodeterminação, valorizando a cultura afrodescendente.
Lélia Gonzalez, importante intelectual, feminista e ativista brasileira, foi uma voz fundamental na luta pelos direitos das mulheres e dos afro-brasileiros. Sua participação no Movimento Negro Unificado e sua defesa pela igualdade racial e valorização da cultura afro-brasileira tiveram um impacto significativo na construção de uma sociedade mais justa e igualitária no Brasil.

Incentivar as crianças a explorarem sua identidade racial e étnica é um passo fundamental para a construção de uma sociedade mais inclusiva e respeitosa. Ao conhecerem suas características físicas, herança familiar e origens, as crianças fortalecem sua conexão com a história e cultura que moldaram sua identidade. O conhecimento e respeito pela diversidade étnica contribuem para o desenvolvimento de uma identidade sólida e empoderada, permitindo que as crianças se orgulhem de suas raízes. .
Atividades:
Semana 1: Explorando a Identidade Racial e Étnica
Espelho da Diversidade
- Incentive as crianças a olharem no espelho e observarem suas características físicas, como cor da pele, textura do cabelo, formato dos olhos, entre outros.
- Converse com elas sobre a diversidade de características presentes na humanidade e como cada uma é especial e única.
- Promova a valorização e o respeito por todas as diferenças, destacando a importância de aceitar e amar a si mesmas.
Afrocentricidade em 12 Passos Jul/23 – Semana 1
Semana 1 – Incentivando as crianças a explorarem sua própria identidade racial e étnica O autoconhecimento é uma jornada importante para o desenvolvimento saudável das crianças, e explorar sua identidade racial e étnica é uma parte fundamental desse processo. Neste texto instrutivo, vamos discutir algumas maneiras pelas quais os adultos podem incentivar as crianças a…
Linhagem Cultural
- Peça às crianças que conversem com seus familiares e descubram mais sobre suas origens étnicas e culturais.
- Incentive-as a fazer uma pesquisa sobre a cultura de seus antepassados e compartilhar o que descobriram com os colegas.
- Organize uma roda de conversa em que as crianças possam compartilhar suas descobertas e valorizar suas raízes culturais.
Semana 2: Conhecendo o Legado do Reino de Kush e dos Bantu
Viagem ao Reino de Kush Antigo
- Apresente às crianças informações sobre o Reino de Kush Antigo, destacando sua localização geográfica, período de existência e legado cultural.
- Mostre imagens e vídeos que retratem a arquitetura, a arte e as realizações desse antigo reino africano.
- Incentive as crianças a refletirem sobre a importância de conhecer a história de civilizações passadas para valorizar a diversidade cultural e entender a influência dessas culturas no mundo atual.
Afrocentricidade em 12 Passos Jul/23 – Semana 2
Semana 2 – Descobrindo o Reino de Kush Antigo: Uma Viagem pela História e Cultura Africana Bem-vindos à viagem ao Reino de Kush Antigo! Nessa aventura histórica, vamos explorar um antigo reino africano, conhecido por sua rica cultura e influência no passado. O Reino de Kush estava localizado na região do que é hoje o…
Os Bantu e sua Contribuição na Cultura Brasileira
- Explique às crianças sobre o povo Bantu, sua origem e a trajetória de dispersão por diferentes regiões da África e, posteriormente, para o Brasil durante o período colonial.
- Destaque a influência dos Bantu na cultura brasileira, como na música, na culinária, nas danças e nas tradições religiosas.
- Promova uma atividade em que as crianças possam aprender uma dança ou canção de origem bantuana e compartilhem suas experiências com os colegas
Afrocentricidade em 12 Passos Jul/23 – Semana 3
Semana 3 – A Influência dos Bantu: Um Legado Cultural na Sociedade Brasileira Os Bantu, um grupo étnico originário da África Central e com presença marcante na África Subsaariana, possuem uma cultura diversificada e tradições que exercem uma grande influência na sociedade brasileira. Durante o período colonial, milhões de africanos Bantu foram trazidos para o…
Semana 4: Personalidades Inspiradoras
Conhecendo Maulana Karenga e Lélia Gonzalez
- Apresente Maulana Karenga como um acadêmico e ativista que criou o Kwanzaa, celebrando a cultura africana e a identidade afro-americana.
- Explore a vida e o legado de Lélia Gonzalez como uma importante intelectual, feminista e ativista brasileira, que lutou pelos direitos das mulheres e dos afro-brasileiros.
- Incentive as crianças a refletirem sobre a importância de se inspirarem em figuras que valorizam a diversidade étnica e promovem a igualdade.
Afrocentricidade em 12 Passos Jul/23 – Semana 4
Semana 4 – Celebrando a Identidade: Kwanzaa e a Luta de Lélia Gonzalez O Kwanzaa é um feriado cultural significativo nos Estados Unidos, criado pelo renomado acadêmico e ativista norte-americano Maulana Karenga. Comemorado com entusiasmo por milhões de afro-americanos, esse evento anual tem como objetivo promover a solidariedade, a união e o fortalecimento da identidade…
Ao longo dessas quatro semanas de atividades, as crianças serão incentivadas a explorar sua própria identidade racial e étnica. Através da observação de suas características físicas, da pesquisa sobre sua herança familiar e das descobertas sobre o Reino de Kush.
Entrevista desta edição

Nesta entrevista, temos o prazer de conversar com Erick O. A. Bernardes, um homem de 37 anos, pai do pequeno Vicente, de 7 anos, e companheiro de Ana Paula C., de 38 anos. Erick é fisioterapeuta de formação e nasceu e reside em Porto Alegre, Rio Grande do Sul. Ele se destaca por ser um homem negro e ter uma família negra, com a expectativa de acolher mais uma criança em breve. Além de sua profissão, Erick é ativamente engajado em diversos movimentos negros, como o Parentalidade Preta, grupos de Masculinidades, Sopapo Poético, Afroempreendedores e outros. Nesta entrevista, vamos explorar as experiências de Erick como pai, suas perspectivas sobre a importância da representatividade e seu envolvimento nas lutas e conquistas da comunidade negra.
Identificação
PP: Conte um pouco da sua história como criança, local onde cresceu, coisas que gostava e não gostava. Destaque uma lembrança que gosta de recordar.
Erick: A minha história como criança se dá por um casal de pessoas negras, um homem e uma mulher, que se juntaram, ele trabalhava fora e ela em casa, decidiram ter filhos, e depois de um pouco de insistência, tiveram filhos gêmeos. Nasci depois do meu irmão gêmeo, num hospital, o mesmo hospital que a minha esposa e o meu filho nasceram, em Porto Alegre. Até uma certa idade estudava em turma diferente, e logo começamos a estudar na mesma turma. Indo até o final do colégio.
PP: Você mora no local onde cresceu? Se sim, o que mais te chama atenção nas mudança? Se não, do que mais sente falta?
Erick: Moro na mesma cidade, e já morei no mesmo apartamento que nasci. O local passou por reforma, o prédio que antes não tinha elevador passou a ter um de pequeno porte, e o apartamento térreo alugado para o condomínio passou a ser um salão de festas. Esse local fica na zona leste, hoje moro na zona sul. E as mudanças são maiores em relação as vias, aumentou o número de veículos e consequentemente pessoas.

Parentalidade
PP: Olhando do agora, como você vê a relação das pessoas que te criaram? Você sente que foi um lar acolhedor? Gostaria de falar um pouco sobre o ambiente?
Erick: Uma relação conforme a época e costumes. Meus pais mantém um relacionamento de casal, de pessoal que querem permanecer juntas, foi um lar acolhedor, porém parecia muito fechado, digo isso com o sentimento de que poderia ter continuado em turma diferente ao meu irmão, fomos criados e com as pessoas enfatizando inconsciente ou conscientemente que éramos uma coisa só, quando na verdade éramos pessoas parecidas fisicamente com características de personalidade diferente. O ambiente era muito bom, um lar com a maioria das coisas, não passamos por necessidades materiais, e sim emocionais pra lidar com a questão gemelar e outras.
PP: Como você acha que poderia ter sido diferente? Cite coisas melhores ou piores.
Erick: Acho que poderia ter sido trabalhado mais a individualidade de cada um, a família micro era fechada e a família macro era uma extensão disso, na família do meu pai a maioria me chama de Mano, sem conseguir identificar pelo nome, e na família da minha mãe, tivemos uma ruptura familiar, que originou um distanciamento de uma das tias. O Pior é sempre ser confundido, e o melhor é poder dividir algumas coisas como dificuldades de criar a nossa própria cria.
PP: Se você tiver filho(a/e)s, compartilhe um pouco de como foi o processo de descoberta e gravidez. Fale sobre as expectativas e frustrações.
Erick: Antes do meu filho nascer, sonhei que um menino segurava a mão da minha esposa, esse gurizinho era muito parecido com meu filho. Decidimos tentar engravidar aos 30 anos da minha esposa, por questões de saúde, tanto dela quanto da família, e conseguimos em um mês, foi uma gravidez tranquila, embora ela quisesse fazer parto normal e teve que fazer parto cesária porque o bebê não encaixava, já estava aumentando o peso e correriam risco.
O parto é uma coisa surreal, fiquei muito emocionado, o pediatra me pediu para cortar uma parte do cordão umbilical e nos disse a frase mais importante que poderíamos ouvir. “Independente do que estivesse acontecendo deveríamos ser amorosos com nosso filho”. Ele estava surgindo num novo mundo, fora da barriga, já nos ouvia lá dentro e seríamos os porta-vozes desse novo mundo.
E agora, depois de 7 anos decidimos novamente por uma nova gravidez, que foi tão rápida quanto a primeira. E estamos na expectativa. Embora a certeza de ter um segundo filho ou uma filha fosse grande, não esperava que a relação fosse mudar tanto. Tenho tido algumas dificuldades de lidar com questões emocionais, que me remetem a forma como fui criado, e as pessoas que se aproximaram ao longo tempo. Percebi que não poderia seguir da mesma forma e deveria me preservar de algumas situações, inclusive deixando de falar na própria gravidez.
PP: Como você define a sua relação com a(s) cria(s) hoje? O que você gostaria que as pessoas soubessem a respeito do sei jeito de paternar?
Erick:A minha relação é muito louca. Leio, acuto e vejo muito conteúdo sobre paternar, mas não consigo dar conta da sobrecarga materna. Minha esposa me cobra mais prática e menos discurso. Gosto muito de brincar, de educar, mas a maneira como fui criado reflete a maneira como estou criando.
E li uma coisa que me entristeceu de certa forma que é o fato de muitas mães maternarem seus maridos, além dos filhos, fujo dessa questão. Ainda que entenda que em alguns pontos me sinto dependente da esposa. Sou carinhoso e ameaçador em alguns momentos, sentindo uma certa raiva de não conseguir passar um combinado simples. Buscando um equilíbrio entre ser, estar e permanecer num certo diálogo. Exemplo prático, estipulei o uso de telas e não consigo cumprir, então vou lá e falo se não fizer tal coisa não tem tela.
PP: Filho é pro mundo? O(s) seu é(são)?
Erick: Filho é pro MUNDÃO. Os meus serão.
PP: Cite um fato que te fez se sentir menos perto da parentalidade.
Erick: O fato é estar ausente por motivo de doença, e digo doença no sentido amplo questões emocionais, físicas e mentais. E até espirituais.

Futuro
PP: Como você vê o seu futuro com a(s) crias? O que você gostaria de ver concretizado?
Erick: Vejo a luz num futuro. Mais diálogo com as crias, mais prática principalmente com a esposa. E mais equilíbrio entre as dinâmicas. Gostaria que eles fossem livres pra responderem de uma maneira correta algumas questões da vida, como o racismo, como o empoderamento que a gente tenta dar, que se desenvolvessem de outra maneira, com menos traumas.
PP: Se você partisse desse mundo amanhã, o que você gostaria que seus descendentes soubessem a seu respeito?
Erick: Que pergunta kkkkkk, gostaria que eles soubessem que eu não sou o que eles pensam que eu sou no sentido concreto. E sim uma infinidade de coisas, que eu sou pai, mas também sou marido, que eu sou fisioterapeuta, mas também sou amigo. E que as pessoas tentam nos rotular para o positivo e negativo, e às vezes a gente tem as duas coisas juntas.
PP: Que conselho você daria para famílias que estão começando agora na jornada de auxiliar na condução do crescimento de alguém?
Erick: O conselho é viver o momento, é buscar ferramentas sem pensar muito no amanhã, é tentar conduzir o hoje, tipo se não deu hoje, vou tentar de uma forma diferente amanhã, e assim consecutivamente.
É pensar no amanhã de forma financeira porque vivemos numa sociedade capitalista, mas pensar também no quão amorosos podemos ser num mundo que apresenta muitas tragédias. E o amor não é só de mulher pra homem, é de homem pra homem, é de mulher pra mulher, de filho pra pai, e de pai pra filho, não é só carnal, e sim espiritual.
PP: Você tem algo mais que gostaria de registrar aqui?
Erick: Tenho sim, você está fazendo uma baita estudo/trabalho, que me ajuda e que poderá ajudar outros pais, nas diversas configurações familiares. É um antropólogo, filósofo e muito mais. (o produtor enrubrece)

Essa é uma entrevista reveladora com um fisioterapeuta de 37 anos que compartilha sua experiência como pai e sua participação em movimentos negros. Erick fala sobre sua infância em Porto Alegre, sua mudança para a zona sul da cidade e a dinâmica familiar. Ele reflete sobre a importância de reconhecer a individualidade dos filhos e as dificuldades emocionais enfrentadas. Erick também compartilha sua jornada na paternidade, desde a descoberta da gravidez até o nascimento de seu filho e as questões que enfrentam como pais. Ele destaca a importância de educar seus filhos sobre o racismo e empoderamento. Erick expressa seus desejos para o futuro de seus filhos e oferece conselhos para outras famílias em sua jornada. A entrevista é vista como uma valiosa fonte de inspiração e conhecimento para pais em diferentes configurações familiares.
Outa História

No Dia da Mulher Negra Latino-Americana e Caribenha, é importante celebrar e honrar a trajetória de mulheres negras que foram verdadeiras guerreiras na luta contra o racismo, o machismo e outras formas de opressão. Três dessas grandes figuras são Lélia Gonzalez, Audre Lorde e Sueli Carneiro, que deixaram um legado significativo em suas respectivas áreas de atuação.
Lélia Gonzalez (1935-1994) foi uma socióloga, antropóloga e ativista brasileira que se destacou por desafiar as estruturas racistas e machistas da sociedade brasileira. Como uma das fundadoras do Movimento Negro Unificado (MNU) no Brasil, Gonzalez trabalhou incansavelmente para promover a visibilidade e a valorização da cultura e das experiências das mulheres negras. Sua teoria afrocentrada e feminista ressaltava a importância da interseccionalidade na análise das opressões, reconhecendo que as mulheres negras enfrentam uma complexidade única de discriminações, que não podem ser separadas da luta geral contra o racismo e o sexismo. Gonzalez deixou um legado valioso para a compreensão das dinâmicas sociais e políticas que afetam as mulheres negras.


Sueli Carneiro (1950-) é uma filósofa, escritora e ativista brasileira que tem desempenhado um papel fundamental na promoção da igualdade racial e de gênero no Brasil. Co-fundadora do Geledés – Instituto da Mulher Negra, uma organização que atua na defesa dos direitos das mulheres negras, Carneiro tem contribuído significativamente para o feminismo negro e para a compreensão das interseções entre raça e gênero. Sua atuação teórica tem destacado a importância da interseccionalidade como uma abordagem necessária para compreender as múltiplas formas de opressão que afetam as mulheres negras. Carneiro também tem sido uma voz ativa na denúncia do racismo estrutural e no desenvolvimento de estratégias para a promoção da igualdade racial no Brasil.
Audre Lorde (1934-1992) foi uma escritora, poetisa e ativista afro-americana, nascida em Nova York, com ascendência caribenha. Sua obra é um verdadeiro manifesto de resistência e empoderamento. Lorde explorou temas como identidade, raça, sexualidade e feminismo, revelando as interseções de opressões vivenciadas pelas mulheres negras. Ela defendia que a expressão artística era uma forma poderosa de resistência, permitindo que as vozes marginalizadas fossem ouvidas e que as feridas da opressão fossem cicatrizadas. Com sua escrita vigorosa e sua postura combativa, Lorde se tornou uma referência fundamental na luta contra a opressão, inspirando gerações de mulheres negras a reivindicar sua identidade e a lutar por justiça social.

No Dia da Mulher Negra Latino-Americana e Caribenha, devemos reafirmar a importância de celebrar e honrar o legado dessas grandes pensadoras negras. Lélia Gonzalez, Audre Lorde e Sueli Carneiro foram mulheres visionárias que desafiaram as estruturas opressivas e abriram caminhos para que as vozes das mulheres negras fossem ouvidas e valorizadas.
Os ensinamentos deixados por essas líderes inspiram e fortalecem a luta por uma sociedade mais justa, igualitária e livre de opressões. Elas nos mostraram a importância de reconhecer as interseccionalidades, entender que a opressão racial, de gênero e outras formas de discriminação estão intrinsecamente interligadas, e que é preciso combatê-las em conjunto.
Apoiar e amplificar as vozes dessas pensadoras negras é essencial para a construção de um mundo mais inclusivo e igualitário. Devemos ouvir atentamente suas ideias, aprender com suas experiências e compartilhar suas conquistas. Reconhecer o legado dessas mulheres é um passo importante para a transformação da sociedade, para que todas as mulheres negras sejam respeitadas, valorizadas e tenham suas experiências reconhecidas em todas as esferas da vida. É um compromisso que devemos assumir e honrar diariamente, em busca de uma sociedade mais justa e equitativa para todas.
Datas importantes desse mês:
Dia 01 – Fundado o Clube Negro de Cultura Social. São Paulo/SP (1932).
Dia 03 – Promulgação da a Lei Afonso Arinos, estabelecendo a discriminação racial como contravenção penal (Lei nº 1.390/1951).
Dia 07 – Dia do Movimento Negro Unificado (MNU), organização contra a discriminação racial que foi fundada em 12/06/1978. São Paulo/SP (1978).
Dia 11 – Nasce Antonieta de Barros, primeira deputada negra brasileira. Florianópolis/RS (1902).
Dia 15 – Acontece a Primeira Conferência sobre a Mulher Negra nas Américas. Equador (1984).
Dia 18 – Nasce Nelson Mandela, líder negro que lutou conta o regime do Apartheid na África do Sul (1918).
Dia 24 – Nasce Francisco Solano Trindade, poeta. Recife/PE (1908).
Dia 25 – Dia Internacional da Mulher Negra Latino-americana e Caribenha
É de extrema importância lembrar e celebrar as datas significativas do calendário negro, considerando o contexto histórico em que cada uma delas ocorreu. Essas datas são marcos que nos conectam à luta, resistência e contribuições da comunidade negra ao longo dos anos, enquanto enfrentava desafios imensos em busca da igualdade racial.
A fundação do Clube Negro de Cultura Social, em 1932, ocorreu em um momento em que o Brasil passava por profundas desigualdades raciais. A comunidade negra enfrentava marginalização, violência e falta de oportunidades. Nesse contexto, o Clube Negro surgiu como um espaço de valorização da cultura afro-brasileira, promovendo o resgate da história, tradições e expressões artísticas negras. Sua fundação foi um marco importante, que fortaleceu a identidade negra e ajudou a combater os estereótipos e preconceitos enraizados na sociedade.
A promulgação da Lei Afonso Arinos, em 1951, aconteceu em um momento de grande desafio para a população negra no Brasil. O racismo era uma prática generalizada, e a discriminação racial não era criminalizada. A lei estabeleceu a discriminação racial como contravenção penal, um avanço significativo na luta contra o racismo institucionalizado. Isso marcou um passo importante rumo à conquista de direitos e à garantia de dignidade para a população negra, embora ainda houvesse um longo caminho a percorrer.
O Dia do Movimento Negro Unificado (MNU), criado em 1978, ocorreu em um período de grande mobilização e resistência contra a discriminação racial no Brasil. O movimento foi fundado como resposta à persistente marginalização e violência sofrida pela comunidade negra. Seu objetivo era combater o racismo e promover a igualdade racial por meio de conscientização, mobilização e busca por políticas públicas inclusivas. O MNU se tornou uma voz unificada na luta contra o racismo, defendendo os direitos e a dignidade dos negros no país.
Essas datas também nos conectam a figuras importantes da história negra, como Antonieta de Barros e Nelson Mandela. Antonieta de Barros, nascida em 1902, se tornou a primeira deputada negra brasileira em um contexto de profunda exclusão racial e de gênero. Sua conquista representou um marco na luta por representatividade e igualdade de oportunidades para as mulheres negras. Já Nelson Mandela, nascido em 1918, foi um líder emblemático na luta contra o regime do Apartheid na África do Sul. Sua vida e luta nos inspiram a buscar justiça, liberdade e igualdade em face da opressão racial.
Por fim, o Dia Internacional da Mulher Negra Latino-americana e Caribenha, celebrado em 25 de julho, ocorre em um contexto de reconhecimento das múltiplas opressões enfrentadas pelas mulheres negras. Essa data destaca a necessidade de valorizar suas contribuições e lutas, tanto no âmbito feminista quanto antirracista, e busca promover a visibilidade e o empoderamento das mulheres negras em toda a América Latina e no Caribe.
Ao ampliarmos nossa compreensão dessas datas, considerando seus contextos históricos, podemos apreciar ainda mais o significado e a importância de lembrar e celebrar as conquistas e desafios enfrentados pela comunidade negra ao longo do tempo. Essas datas nos lembram da importância contínua de continuar lutando por uma sociedade justa, igualitária e livre de discriminação racial.
Voltando no tempo
Nessa coluna, vou compartilhar insights e abordagens sobre as trocas que já foram ao ar no Podcast Parentalidade Preta.
[parenta] #2 – Psicologia Preta – Ariane Kwanza Tena

Trocas nesse Episódio
1- Na sua opinião, o que define a Ancestralidade Preta?
2- No contexto da Saúde Mental, por que pessoas Pretas devem conhecer a Psicologia Preta?
3- O que mudaria se uma visão afrocentrada fosse aplicada às questões psicossociais do nosso país?
4- Qual a implicação disso na ressignificação do passado e do futuro do nosso Povo?
Na intro:
A filosofia ocidental, embora tenha uma longa história e tenha sido amplamente difundida, não é a única tradição filosófica a ser valorizada. Antes mesmo dos filósofos gregos, Kemet (Egito Antigo) já possuía uma rica tradição de sabedoria e conhecimento. É importante reconhecer a influência da filosofia kemética, como evidenciado por escritores gregos que viajavam para o Egito em busca de conhecimento. Além disso, devemos questionar o positivismo e suas consequências nas mentes dos colonizados, que promoveram a negação de suas próprias histórias e potencialidades.
É fundamental ampliar nossa perspectiva e valorizar as diferentes tradições filosóficas, rompendo com as narrativas coloniais. Devemos reconhecer a pluralidade de perspectivas e conhecimentos, buscando um diálogo intercultural mais profundo e significativo. Ao fazer isso, podemos enriquecer nosso pensamento e construir uma compreensão mais abrangente e justa do mundo, superando as limitações impostas pela filosofia ocidental dominante. É necessário valorizar a diversidade filosófica e promover uma abordagem mais inclusiva, que reconheça as contribuições de diferentes culturas e tradições de pensamento.
Ouça o episódio na íntegra:
Até breve!
Caros leitores,
Chegamos ao final desta edição da revista ParentaVerso Digital, e é com grande satisfação que encerramos mais um mês de compartilhamento de conteúdo exclusivo e enriquecedor. Durante esse período, dedicamo-nos a gerar trocas e conversas significativas, buscando trazer reflexões e informações relevantes para o universo da parentalidade.
Nesta edição, tivemos a oportunidade de abordar temas cruciais e atuais. Na seção “Destaque da quinzena”, o texto “Enfim: a hipocrisia” nos convidou a refletir sobre as diferentes velocidades da Justiça Brasileira, levantando questionamentos importantes sobre a equidade e a justiça em nosso país.
Na entrevista, conhecemos Erick, um fisioterapeuta engajado em movimentos negros, que compartilhou conosco sua experiência na paternidade e a importância de educar os filhos sobre o racismo e o empoderamento. Suas palavras nos inspiraram e nos lembraram da necessidade de fortalecermos a educação antirracista em nossas famílias.
Em “Para Praticar”, destacamos a importância de promover a diversidade racial desde cedo, buscando formar crianças conscientes e defensoras da igualdade. Exploramos o programa Afrocentricidade em 12 passos, mergulhando nas riquezas do reino de Kush, do povo Bantu, e conhecendo figuras fundamentais como Maulana Karenga e Lélia Gonzalez, que nos ensinaram sobre a importância da valorização de nossa ancestralidade.
Na seção “Outra História”, celebramos o Dia da Mulher Negra Latino-Americana e Caribenha, homenageando mulheres fortes, como Lélia Gonzalez, que desafiaram as estruturas opressivas e promoveram a valorização da cultura e das experiências das mulheres negras.
Por fim, em “Voltando no tempo”, relembramos a importância de ouvir episódios antigos do Podcast Parentalidade Preta, uma fonte valiosa de conhecimento e vivências compartilhadas por pais e mães negros.
Agradecemos a todos os colaboradores, entrevistados e leitores que tornaram esta edição possível. Suas contribuições e engajamento são fundamentais para o sucesso da revista ParentaVerso Digital. Continuaremos a buscar e compartilhar conteúdos que promovam a diversidade, a igualdade e o respeito em nossas relações familiares.
Desejamos a todos uma jornada contínua de aprendizado e transformação, e nos encontraremos em breve em nossa próxima edição, trazendo mais histórias inspiradoras e reflexões significativas para a parentalidade.
Fique e olhos e ouvidos atentos no Parentalidade Preta!
Diego Silva


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