Revista ParentaVerso #1 Jun/23

Um olhar especial para a criação racializada.

A Revista ParentaVerso é um espaço seguro e acolhedor dedicado a abordar a Parentalidade Preta em comunidade. Com artigos, entrevistas e relatos pessoais, a revista celebra as experiências dos pais e mães Pretos, oferecendo uma plataforma inclusiva que promove compreensão, apoio mútuo e transformação social. É um refúgio essencial para vozes frequentemente marginalizadas, valorizando a Parentalidade Preta.

É necessário reconhecer as experiências únicas e os desafios enfrentados por pais e mães pretos, a fim de promover uma sociedade mais inclusiva e justa. Ao olhar para além das perspectivas dominantes, podemos valorizar e fortalecer as vozes e vivências da Parentalidade preta, construindo um futuro mais equitativo para todas as famílias.

Editorial

Saudações, prezado leitor da Revista ParentaVerso! Agradeço sua presença neste espaço essencial para a Parentalidade Preta. Sua participação fortalece nossa comunidade, promovendo diálogo, compreensão e transformação social. Compartilharemos conteúdos relevantes e inspiradores a cada edição. Obrigado por fazer parte dessa comunidade e contribuir para um futuro mais igualitário e afirmativo para a Parentalidade Preta.

Diego Silva – Produtor executivo do Parentalidade Preta

Nesta edição você vai encontrar um conteúdo exclusivo, que foi gerado a durante o último mês a partir de trocas e conversas, bem como ficar por dentro do que vem acontecendo nesse universo. Na seção “Destaque da quinzena”, o texto “Enfim: a hipocrisia” é feita uma crítica ao esvaziamento das pautas sociais. Na “Entrevista” você vai conhecer Alan, um pai dedicado e lutador, supera desafios e busca criar um ambiente seguro e acolhedor para seus filhos autistas. “Para Praticar” vamos iniciar aspectos práticos de como investir em uma criação que empodera a negritude. No nosso programa Afrocentricidade em 12 passos, vamos iniciar uma caminhada em direção a consciência racial passando por Kemet, Youruba, Cheikh Anta Diop, Abdias do Nascimento e atividades práticas em um conteúdo que não serve apenas para Crianças Pretas(ouso dizer que é um conteúdo para os não melaninados). Em Outra História, vamos relacionar a influência negra nas festas juninas e saber qual o Orixá que se celebra nessa data. Por fim, Voltando no tempo, vou te dar umas boas razões para ouvir um episódio antigo do Podcast Parentalidade Preta.

Destaque da quinzena

“Enfim: a hipocrisia.”

Nessa coluna, você vai encontrar críticas irônicas às contradições sociais que são vistas pela internet afora.

modelo do site wefashiontrends

Contradições e hipocrisias: a falsa representatividade e o esvaziamento das pautas sociais

Ah, a modernidade! Nada como testemunhar a apropriação descarada de símbolos e o esvaziamento das pautas sociais mais relevantes. Um exemplo emblemático disso é a figura da pessoa bela, progressista, autodeclarada antirracista, que não dispensa seu inseparável boné do MST. Porém, há um detalhe curioso: seus relacionamentos se restringem exclusivamente a indivíduos brancos. Que ironia, não é mesmo? Essa brilhante contradição apenas reforça a existência de uma falsa representatividade, em que valores e lutas são adotados superficialmente, sem qualquer comprometimento verdadeiro.

Ao analisarmos essa figura, é impossível não rir da sua postura. Ao usar o boné do MST, símbolo de uma luta por reforma agrária e direitos dos trabalhadores rurais, essa pessoa busca transmitir uma imagem politizada e engajada. Mas, espere aí, ao olharmos seu círculo social, só encontramos brancos! Essa discrepância entre o discurso e a prática é simplesmente hilária. Afinal, a luta antirracista deveria ultrapassar as palavras bonitas e se manifestar nas relações cotidianas, não é mesmo?

Essa hipocrisia é tão engraçada quanto danosa para as pautas sociais importantes. Ao adotar símbolos de maneira vazia, sem entender seu verdadeiro significado e sem compromisso real, essas pessoas esvaziam completamente as lutas que tentam representar. A falsa representatividade só consegue minar o potencial de transformação social, já que não contribui em absolutamente nada para a diversidade, inclusão ou combate às desigualdades.

É realmente necessário que aqueles que se proclamam engajados em pautas progressistas e antirracistas sejam coerentes em suas ações e relações. Afinal, usar símbolos e adotar discursos da moda não é suficiente para promover mudanças reais. É preciso ir além, questionar os privilégios, buscar diversidade e ouvir as vozes marginalizadas. Somente através de uma transformação verdadeira, tanto individual como coletiva, conseguiremos enfrentar as estruturas opressoras e construir uma sociedade verdadeiramente justa e igualitária.

Frente a esse panorama, torna-se essencial refletir sobre a importância de preservar o verdadeiro significado das pautas sociais e combater esse esvaziamento simbólico que ocorre quando são apropriadas de forma superficial. Cada indivíduo precisa assumir a responsabilidade por suas ações e buscar uma atuação coerente, para que as lutas sociais possam avançar e não sejam reduzidas a meras modinhas passageiras. E vamos combinar, é realmente hilário observar esse teatro social em ação.

Acompanhe mais comentários sobre o tema na postagem que deu origem a esse texto AQUI

Para praticar

Aqui vamos abordar aspectos práticos para uma criação racializada.

A introdução do conceito de raça para crianças é uma tarefa complexa e delicada. É essencial abordar esse assunto de maneira sensível e educativa, proporcionando às crianças uma compreensão saudável e inclusiva da diversidade racial desde cedo. Nesta abordagem, destacaremos alguns aspectos importantes a serem considerados ao discutir raça com as crianças. Nas próximas edições vamos abordar e adentrar um pouco mais em cada tópico.

Valorização da diversidade:

É fundamental enfatizar a beleza e a importância da diversidade racial desde cedo. Ao introduzir o conceito de raça, destaque que cada pessoa é única e especial, independentemente de sua cor de pele, origem étnica ou características físicas. Promova uma mentalidade positiva, enfatizando que todas as pessoas merecem respeito e igualdade.

Sensibilidade cultural:

Ao discutir raça, é crucial abordar a importância de compreender e respeitar as diferentes culturas e tradições associadas a cada grupo racial. Incentive as crianças a explorarem e apreciarem as diversas manifestações culturais, como música, culinária, dança e festividades, para que possam desenvolver empatia e uma visão inclusiva do mundo.

Combate ao preconceito e estereótipos:

Explique para as crianças que preconceitos e estereótipos raciais são injustos e prejudiciais. Incentive-as a questionar estereótipos e a entender que cada pessoa é única, não podendo ser definida apenas pela sua raça. Promova a importância de tratar a todos com igualdade, baseando-se em suas ações e caráter, em vez de julgamentos superficiais.

Abordagem da história e conquistas:

Ao introduzir a raça, é relevante abordar a história das diferentes culturas e suas conquistas significativas. Ensine às crianças sobre líderes, artistas, cientistas e personalidades importantes de diversas origens raciais, destacando suas contribuições para a sociedade. Isso ajudará a criar uma imagem mais completa e positiva de cada grupo racial.

Inclusão e empatia:

Promova a inclusão e a empatia, incentivando as crianças a valorizarem as amizades e a colaboração com pessoas de diferentes origens raciais. Estimule a criação de espaços seguros e inclusivos onde as crianças possam compartilhar suas experiências, ouvir histórias de outras culturas e aprender uns com os outros. Isso ajudará a desenvolver a compreensão e o respeito mútuo.

Diálogo aberto e contínuo:

Mantenha um diálogo aberto e contínuo sobre raça com as crianças. Encoraje-as a fazer perguntas, expressar suas opiniões e compartilhar suas experiências. Esteja disponível para responder a dúvidas e orientar de forma adequada, proporcionando um ambiente seguro onde elas possam aprender, crescer e desenvolver uma consciência crítica em relação à diversidade racial.

Ao abordar o tema da raça com as crianças, é essencial valorizar a diversidade, promover sensibilidade cultural, combater preconceitos e estereótipos, abordar a história e conquistas de diferentes grupos raciais, incentivar a inclusão e empatia, e manter um diálogo aberto e contínuo. Esses pilares são fundamentais para criar um ambiente de aprendizado seguro e inclusivo, onde as crianças possam desenvolver uma consciência crítica em relação à diversidade racial, cultivando o respeito e a valorização das diferenças desde cedo, para construir um futuro mais justo e igualitário.

Afrocentricidade em 12 passos

Este programa de 12 etapas tem como objetivo introduzir crianças ao conceito de afrocentricidade, promovendo uma compreensão positiva e empoderadora da cultura Afrodiaspórica. O objetivo desse programa é apresentar a Pais, Professores e cuidadores, o conceito e o desenvolvimento da afrocentricidade nas abordagens da criação. Através da exploração da história, literatura, arte e música, levantaremos questionamentos no sentido de valorizar a identidade racial e étnica. Quero, com esse programa, oferecer ferramentas para o investimento em uma criação racializada. Levantaremos em 12 ações discussões e trocas a respeito desse tema tão importante para o desenvolvimento de crianças Pretas.

Nesse Programa, abordaremos sempre ações práticas de atividades, uma civilização africana potente, um grupo étnico africano que veio para o Brasil através da diáspora, um pensador estrangeiro e um brasileiro, bem como um pouco dos seus trabalhos. Em seguida, um cronograma de atividades para serem realizadas com crianças durante o mês.

Etapa 1: Introdução à diversidade

  • Explique às crianças que existem diferentes culturas, etnias e raças no mundo.
  • Mostre exemplos de diferentes tipos de pessoas através de livros, fotos e vídeos.

Explorando a Diversidade Cultural: A Civilização Egípcia Antiga, os Yoruba e suas Contribuições, Cheikh Anta Diop e Abdias do Nascimento

Para entendermos melhor o mundo em que vivemos, é importante aprendermos sobre a diversidade cultural, étnica e racial que existe ao nosso redor. Existem diversas culturas e povos espalhados pelo mundo, cada um com sua história, tradições e contribuições para a sociedade. Vamos explorar alguns exemplos dessa riqueza cultural, começando pela civilização Egípcia Antiga.

A civilização Kemética ( Egípcia Antiga) é uma das mais fascinantes da história. Os Keméticos antigos construíram grandes pirâmides, como as de Gizé, e desenvolveram um sistema de escrita complexo chamado hieróglifos. Eles acreditavam na vida após a morte e realizavam rituais e cerimônias importantes nesse contexto. Conhecer essa civilização nos ajuda a entender como as pessoas viviam naquele tempo e nos mostra que cada cultura tem sua própria forma de se expressar e de se organizar.

Os Yoruba são um povo africano que teve uma contribuição significativa na cultura brasileira. Durante o período da escravidão, muitos africanos Yoruba foram trazidos para o Brasil. Eles trouxeram consigo suas tradições, mitologia e religião, que se misturaram com a cultura brasileira e deram origem a manifestações culturais como o Candomblé. O Candomblé celebra os Orixás, divindades da mitologia Yoruba, e é uma forma importante de preservar a identidade e a história dos afro-brasileiros

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Cheikh Anta Diop foi um historiador e antropólogo senegalês que se dedicou ao estudo da história e cultura africana. Ele defendeu a ideia de que a civilização egípcia antiga tinha raízes africanas, o que desafiou as narrativas eurocêntricas que minimizavam a importância das civilizações africanas. Diop nos ensina a importância de questionar as versões da história que nos são apresentadas e a valorizar a diversidade cultural.

Abdias do Nascimento foi um importante ativista e intelectual brasileiro que lutou pela valorização da cultura negra no Brasil. Ele fundou o Teatro Experimental do Negro, que tinha como objetivo promover a igualdade racial e valorizar a herança afro-brasileira. Nascimento também foi responsável por estabelecer o Dia Nacional da Consciência Negra, celebrado em 20 de novembro, em homenagem a Zumbi dos Palmares, líder quilombola e símbolo da resistência negra. Seu trabalho nos mostra como é importante reconhecer e celebrar a diversidade étnica e cultural presente no Brasil.

Ao cruzarmos essas informações, podemos perceber como diferentes culturas e povos se conectam e influenciam uns aos outros ao longo da história. A civilização Egípcia Antiga nos revela uma rica herança cultural que influenciou diversas civilizações subsequentes. Os Yoruba, por sua vez, contribuíram de maneira significativa para a cultura brasileira, trazendo suas tradições e crenças que se entrelaçaram com as do povo brasileiro. E através das contribuições de Cheikh Anta Diop e Abdias do Nascimento, aprendemos a valorizar e respeitar as contribuições africanas. 

Atividades: 

Semana 1: Introdução à Diversidade

  • Apresentação do tema da diversidade para as crianças, explicando que existem diferentes culturas, etnias e raças no mundo.
  • Mostrar exemplos de diversidade por meio de livros ilustrativos, fotos e vídeos que retratem pessoas de diferentes origens étnicas e culturais.
  • Incentivar a discussão e a troca de ideias sobre a importância da diversidade e a valorização das diferenças.

Semana 2: A Civilização Kemética (Egípcia Antiga)

  • Introduzir a civilização kemética para as crianças, apresentando fatos interessantes e curiosidades sobre sua história, como a construção das pirâmides e o sistema de escrita hieroglífico.
  • Realizar atividades práticas, como a criação de maquetes de pirâmides ou a decoração de hieróglifos em papel, para estimular a criatividade e o aprendizado sobre a cultura egípcia antiga.
  • Promover a discussão sobre como os egípcios antigos contribuíram para o desenvolvimento da humanidade e como sua cultura influencia nossa sociedade atualmente.

Afrocentricidade em 12 Passos Jun/23 – Semana 2

Semana 2 – Kemet A antiga civilização de Kemet, que posteriormente passou a ser conhecida como Egito, é um tema fascinante para apresentar às crianças, repleto de fatos interessantes e curiosidades sobre sua história. Duas características emblemáticas dos antigos keméticos, ou egípcios, são a construção das pirâmides e o sistema de escrita hieroglífica. Vamos nos…

Semana 3: Os Yoruba e sua Contribuição na Cultura Brasileira

  • Explorar a cultura dos Yoruba, destacando sua origem na África e sua influência na cultura brasileira.
  • Apresentar elementos da religião afro-brasileira, como o Candomblé, que preserva as tradições e crenças dos Yoruba.
  • Realizar atividades artísticas, como a confecção de máscaras inspiradas na arte Yoruba, ou a criação de instrumentos musicais típicos, para proporcionar uma experiência prática e sensorial das contribuições culturais dos Yoruba.

Afrocentricidade em 12 Passos Jun/23 – Semana 3

Semana 3 – Yoruba A cultura dos Yoruba tem suas raízes na região da África Ocidental, mais especificamente na Nigéria, Benin e Togo. Os Yoruba possuem uma rica herança cultural que se destaca por suas tradições, arte e religião. Durante o período da escravidão, milhares de indivíduos yoruba foram trazidos ao Brasil, trazendo consigo suas…

Semana 4: Cheikh Anta Diop e Abdias do Nascimento

  • Apresentar biografias de Cheikh Anta Diop e Abdias do Nascimento, destacando suas lutas pela valorização da cultura africana e afro-brasileira, respectivamente.
  • Realizar debates em sala de aula sobre a importância de combater o preconceito racial e valorizar a diversidade étnica e cultural.
  • Propor a criação de projetos individuais ou em grupo, nos quais as crianças possam expressar suas reflexões sobre os temas abordados, como desenhos, redações ou apresentações.

Afrocentricidade em 12 Passos Jun/23 – Semana 4

Semana 4 – Cheikh Anta Diop e Abdias do Nascimento Valorizando a Cultura Africana e Afro-brasileira Cheikh Anta Diop e Abdias do Nascimento foram dois importantes ativistas que dedicaram suas vidas à valorização da cultura africana e afro-brasileira, respectivamente. Cheikh Anta Diop, nascido no Senegal em 1923, foi um renomado historiador e antropólogo que lutou…

Durante todo o cronograma, é fundamental promover discussões e diálogos abertos sobre a importância da diversidade, respeito e valorização das diferenças culturais e étnicas. Incentivar a empatia e a compreensão mútua é essencial para construir uma sociedade mais inclusiva e igualitária.

Entrevista desta edição

Nesta entrevista inspiradora, conheça Alan, um pai de 30 anos de idade, morador de Jundiaí – SP, e sua família atípica composta pela companheira Arielle e seus filhos Liz e Simon, ambos no espectro do Transtorno do Espectro Autista (TEA). Alan compartilha sua história de infância, sua relação com seus pais e suas experiências como pai. Ele aborda as expectativas, frustrações e os desafios enfrentados na jornada da parentalidade, destacando a importância do apoio emocional e da compreensão para criar um ambiente seguro para seus filhos. Alan também reflete sobre o futuro e sua busca por superar as dificuldades atuais, a fim de proporcionar uma vida plena e livre de preconceitos para suas crianças. Uma entrevista repleta de sinceridade e amor, revelando a determinação e a coragem de um pai que luta pelos melhores interesses de sua família.

Identificação

PP: Conte um pouco da sua história como criança, local onde cresceu, coisas que gostava e não gostava. Destaque uma lembrança que gosta de recordar. 

Alan: Nasci em Jundiaí mesmo, porém morei a vida toda na cidade vizinha que se chama Várzea Paulista, cresci com meus pais, Maria e José, e mais dois irmãos mais velhos, sou o caçula bem mais novo, 9 anos de diferença pro irmão do meio, 12 pro mais velho. Sempre fui o irmão creio que mais carinhoso, saca? Aquele que é grudado em todos, abraçava e dava beijo, gostava de ficar junto. Gostava muito de Dragon Ball, Liga da Justiça, Super Choque…

Gostava muito também que o lugar onde meu pai trabalhava dava uma festa de fim de ano, e ganhei muitos presentes bem daoras assim, coisas que possivelmente não ganharia pq eram meio caras. Cresci a base de futebol e qualquer outro esporte com bola, jogava quase de tudo, porém basquete sempre mal, mesmo tendo mira boa, acho que foi a falta de prática kkkk.

Gostava bastante dessa época, viajava o interior de SP pra jogar futsal, era divertido, juntar os colegas de time, eu levava o pandeiro do meu pai, alguém levava algum outro instrumento de percussão, geralmente fazíamos um barulho. Eu não gostava muito do fato de não ser muito acompanhado no futsal, não sei qual motivo exatamente, mas meus pais não iam muito.

PP: Você mora no local onde cresceu? Se sim, o que mais te chama atenção nas mudança? Se não, do que mais sente falta?

Alan: Sim e Não, complexa a resposta, Moro em Jundiaí, nasci aqui, e morei na várzea que antigamente era um Bairro de Jundiaí, portanto são cidades bem grudadas, mas rolava um certo preconceito com quem era da várzea, acho que ainda rola. O que me chama mais atenção é que as cidades cresceram, aumentaram muito as opções de lazer, porém com isso vieram outros problemas, como o aumento de pessoas em situação de rua.

Parentalidade

PP: Olhando do agora, como você vê a relação das pessoas que te criaram? Você sente que foi um lar acolhedor? Gostaria de falar um pouco sobre o ambiente?

Alan: Vejo como um exemplo de casal muito bom, tive uma boa base, eles caminham para bodas de ouro, acho isso muito lindo, foi um lar acolhedor sim, porém sinto que na adolescência deram uma largadinha, acho que muito por conta de eu não dar muito trabalho, pra mim era escola, futebol e música e só, não aprontava muito e tals, ai senti que me deram uma liberdade grande demais.

PP: Como você acha que poderia ter sido diferente? Cite coisas melhores ou piores. 

Eu queria ter sido mais incentivado no esporte, sempre amei isso, mas acho que faltou um apoio emocional nessa parte, quando eu errava, ou quando sei lá, pensava em desistir, sinto que faltou um apoio.

PP: Se você tiver filho(a/e)s, compartilhe um pouco de como foi o processo de descoberta e gravidez. Fale sobre as expectativas e frustrações. 

Alan: Foi um susto, mas não foi surpresa, mas creio que senti muito o peso da responsabilidade e da masculinidade tóxica imposta a nós, que devemos prover e prover e prover e prover…

As expectativas que tive foram, que eu tivesse uma menina, e primeiro veio a Liz, e ela tem se tornado uma pessoa exatamente como eu idealizava uma filha, personalidade forte, gosta de ser independente(em algumas coisas né), carinhosa, criativa e agitada.

Como ela tive alguns momentos de frustração grandes, o fato de não me aceitar por algum tempo, isso me consumia, eu tentava de tudo, mas foi algo que só o tempo e dedicação resolveram, hoje ela é grudada.

Hoje sofro da mesma coisa que com a Liz, de ele não me aceitar as vezes, eu pensava que já estaria vacinado com isso, pelo fato de passar a mesma coisa antes, mas não estou não, apenas estou mais maduro para lidar com a situação e tentar remediar, buscar interesses em comum, isso tem funcionado bem, afinal ele virou fã de Hot Wheels, sempre gostei, mesmo não ganhando muitos kkkkkk

As expectativas em relação a ele, era de que ele fosse um garoto carinhoso, de fato ele é, porém tem ficado bem brutão, gosta de brincadeiras mais brutas, e o fato do TEA é que tem atrapalhado bastante na forma de expor algumas coisas que sente, e às vezes bater. 

O Autismo diagnosticado dos dois, foi um choque, mas nada relacionado a frustração.

PP: Como você define a sua relação com a(s) cria(s) hoje? O que você gostaria que as pessoas soubessem a respeito do sei jeito de paternar?

Com o Simon, tendo mais experiência com bebês, embora apenas por 1 ano e 4 meses, sim, vieram bem pertinho… Tive a expectativa de participar muito, pois seriam dois bebês, os dois mamando, e consegui ser participativo com ele RN, a primeira palavra dele foi “papa”.

Alan: É uma relação saudável, positiva, tentamos criar uma ambiente seguro, onde eles possam se falar o que sentem. Gostaria que as pessoas soubessem o quanto é trabalhoso e às vezes exaustivo criar crianças com TEA, não que não seja para outros pais, mas só pais atípicos sabem como é a montanha russa de emoções específicas, os julgamentos que recebemos numa crise em público, ou do olhar de pena, que mano, me irrita profundamente.

PP: Filho é pro mundo? O(s) seu é(são)?

Alan: Depois de uma certa idade eu, fui um filho pro mundo, então pra mim sim, filhos são pro mundo, entendo que os meus vão ser em algum momento também, cabe a mim prepará-los para que o mundo não os engula.

PP: Cite um fato que te fez se sentir menos perto da parentalidade. 

Alan: Sinceramente, não sei dizer.

Futuro

PP: Como você vê o seu futuro com a(s) crias? O que você gostaria de ver concretizado?

Alan: A única coisa em relação a mim que vejo pro futuro, é ser um porto seguro para eles, o restante é dinâmico demais para prever, gostaria de ver que as dificuldades de hoje, serem superadas, para que eles tenham uma vida sem sofrer apenas por serem autistas, como acontece no mundo hoje.

PP: Se você partisse desse mundo amanhã, o que você gostaria que seus descendentes soubessem a seu respeito?

Alan: Que eu era um batalhador, alguém que lutava pra alcançar os objetivos, assim como o Orixá Ogum.

PP: Que conselho você daria para famílias que estão começando agora na jornada de auxiliar na condução do crescimento de alguém?

Alan: Paciência e determinação, sejam presentes

PP: Você tem algo mais que gostaria de registrar aqui?

Alan: Acho que não

A história de Alan revela um lar acolhedor, com pais exemplares que lhe proporcionaram uma base sólida. No entanto, ele sentiu falta de incentivo no esporte e de apoio emocional na adolescência. Hoje, como pai de filhos autistas, Alan enfrenta desafios únicos, buscando criar um ambiente seguro e saudável. Sua mensagem final é de paciência, determinação e presença para as famílias que estão começando essa jornada de auxiliar no crescimento de alguém.

Outa História

A festa junina é uma das celebrações mais tradicionais e queridas do Brasil. Com suas danças animadas, comidas típicas e decoração colorida, essa festividade é um verdadeiro espetáculo cultural que reúne pessoas de diferentes regiões do país. No entanto, poucos sabem que por trás das festividades juninas estão enraizadas as contribuições e influências da cultura negra, incluindo a relação com Xangô, um orixá importante do candomblé.

Ao mergulharmos nas origens da festa junina, nos deparamos com uma história de resistência, sincretismo cultural e espiritualidade. Durante o período da escravidão no Brasil, os povos africanos trazidos à força foram submetidos a condições desumanas, mas encontraram maneiras de preservar sua cultura, expressar sua identidade e celebrar suas tradições, muitas vezes adaptando-as e mesclando-as com elementos da religião católica.

Essa resistência e resiliência dos africanos escravizados se manifestaram em várias formas, incluindo a influência na construção das festas juninas. A dança, um elemento central das festividades, possui fortes raízes africanas e está intrinsecamente ligada à devoção a Xangô. Xangô é um orixá associado à justiça, ao fogo, à dança e à alegria. Seus seguidores, ao celebrarem Xangô, dançam em sua honra, expressando a energia e a vitalidade presentes na festa junina.

Além da dança, a música também é uma marca indelével da influência africana nas festas juninas e em sua relação com Xangô. Os ritmos contagiantes dos instrumentos de percussão, como o tambor, o ganzá e o agogô, são utilizados para criar a cadência e a animação das quadrilhas e dos arrasta-pés, estabelecendo uma conexão com a energia e a vitalidade do orixá Xangô.

Outra contribuição significativa é encontrada na culinária junina e sua relação com Xangô. Os quitutes deliciosos, como o bolo de milho, a canjica, o pé de moleque e a pamonha, são exemplos de pratos típicos que têm fortes influências afro-brasileiras e são oferecidos como oferendas a Xangô durante as festividades religiosas do candomblé. A introdução do milho na culinária, um alimento associado à fartura e à prosperidade, é uma herança das tradições africanas e ganha um significado especial quando relacionado a Xangô.

É importante ressaltar que, apesar das contribuições significativas da cultura negra para as festas juninas e sua relação com Xangô, muitas vezes essas influências são negligenciadas e até mesmo apagadas. É fundamental reconhecer e valorizar a herança africana e espiritual presente nessas celebrações, pois assim podemos celebrar a diversidade cultural, religiosa e a riqueza histórica que compõem a nossa identidade como nação.

Ao compreendermos as origens negras da festa junina e sua relação com Xangô, abrimos espaço para uma celebração mais inclusiva, consciente e espiritualmente significativa. É uma oportunidade de honrar e reconhecer as contribuições da cultura negra e da religião afro-brasileira, de valorizar a resistência e de promover a igualdade racial e religiosa. Devemos garantir que a festa junina seja um momento de celebração da diversidade cultural e religiosa, fortalecendo nossos laços e promovendo o respeito mútuo.

Neste mês de junho, ao nos reunirmos para dançar, saborear as comidas típicas e vestir trajes juninos, que possamos lembrar das origens negras dessa festividade, honrar a memória daqueles que contribuíram para sua construção e celebrar a espiritualidade presente na relação com Xangô. Que a festa junina seja uma oportunidade de celebrar a riqueza da cultura afro-brasileira, de fortalecer nossos vínculos comunitários e de construir uma sociedade mais justa, igualitária e espiritualmente conectada.

Destaques do mês passado

Voltando no tempo

Nessa coluna, vou compartilhar insights e abordagens sobre as trocas que já foram ao ar no Podcast Parentalidade Preta.

[parenta] #1 – AfroEstima – Mauro Baracho

Trocas nesse Episódio

1- Na sua opinião, o que define Pretitude?

2- “Sou Preto no Brasil, qualquer mal pra mim é pouco.” Mauro, o que essa frase do Djonga significa para você

3- Você pode falar um pouco a respeito da associação de pessoas Pretas  a coisas pejorativas? 

4- Como isso dá vulto ao racismo? 

Na intro:

O conceito de negritude nasceu como uma resposta à opressão da cultura francesa dominante e como uma busca pela reivindicação da identidade e cultura negra. Ao longo do tempo, evoluiu para se tornar uma base ideológica para o movimento de independência na África e uma exaltação dos valores culturais dos povos negros. No entanto, é importante reconhecer as complexidades históricas, como a transição dos povos negros de posições de poder para a marginalização, a escravidão na África subsaariana e a colonização europeia, que deixaram cicatrizes profundas nas sociedades africanas e afrodescendentes.

A colonização portuguesa em Angola desencadeou um processo escravagista que se intensificou ao longo dos séculos, alimentando a demanda por mão de obra nas plantations das Américas. No Brasil, a abolição da escravidão foi um processo complexo e prolongado, deixando um legado de desigualdades sociais e raciais profundamente enraizadas. A construção da identidade brasileira também foi marcada pela tentativa de apagar as marcas da escravidão e estabelecer padrões de beleza, comportamento e cultura alinhados ao pensamento colonizador. Confrontar essa história, combater o racismo e garantir a igualdade de direitos são desafios constantes para as comunidades negras e afrodescendentes, que buscam o pertencimento e a superação das desigualdades sistêmicas.

Ouça o episódio na íntegra:

Até breve!

Chegamos ao final desta edição incrível da Revista ParentaVerso Digital e queremos expressar nosso imenso carinho e gratidão a todos que nos acompanharam ao longo deste mês cheio de trocas e conversas enriquecedoras. Nesta edição, oferecemos um conteúdo exclusivo e repleto de inspiração, trazendo você para dentro desse universo apaixonante.

Na seção “Destaque da quinzena”, mergulhamos fundo em “Enfim: a hipocrisia”, onde discutimos e questionamos o esvaziamento das pautas sociais. E em nossa “Entrevista”, tivemos o prazer de conhecer Alan, um pai dedicado e lutador, que nos mostrou como superar desafios e construir um ambiente seguro e acolhedor para seus filhos autistas.

Em “Para Praticar”, demos o primeiro passo para investir em uma criação que empodera a negritude, trazendo aspectos práticos e valiosos. E quem embarcou conosco no programa “Afrocentricidade em 12 passos” teve a oportunidade de iniciar uma caminhada em direção à consciência racial, explorando Kemet, Youruba, Cheikh Anta Diop, Abdias do Nascimento e atividades práticas com um conteúdo que, acreditem, não se destina apenas a Crianças Pretas (ousamos dizer que é para os não melaninados também).

Em “Outra História”, exploramos a influência negra nas festas juninas e descobrimos qual Orixá é celebrado nessa data tão especial. E para os amantes de nostalgia, em “Voltando no tempo”, compartilhamos algumas boas razões para ouvir episódios antigos do Podcast Parentalidade Preta.

Agradecemos por estarem conosco nesta jornada e esperamos ter proporcionado momentos de reflexão, aprendizado e conexão. Fiquem atentos, pois estamos preparando surpresas incríveis para as próximas edições. Até lá, continuem imersos nesse universo da Parentalidade Preta e vamos juntos construir um mundo mais inclusivo, amoroso e igualitário.

Fique e olhos e ouvidos atentos no Parentalidade Preta!

Diego Silva

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